
Carlos Drummond
O país vive a euforia do etanol. Nos próximos seis anos, será construída uma usina de açúcar e álcool por mês, noticiou o Estadão de cinco de março. O total deve saltar de 336 unidades para 409, com investimentos previstos de US$ 14,6 bilhões no período.
Além das 73 usinas confirmadas, há hoje no Brasil 189 consultas em andamento, tanto para construção como para ampliação de unidades. O mundo está preocupado com a escassez das fontes tradicionais de energia e, na nova safra de investimentos, predomina o investimento estrangeiro.
Mas como estará sendo defendido o interesse do país nesse processo? Há risco de que os benefícios do investimento externo maciço no Brasil para produção de etanol se limitem a um rearranjo da propriedade de capital que consolidará o setor sob o comando de uns poucos grupos, principalmente estrangeiros. Nem o desenvolvimento tecnológico, nem a geração de empregos, estão sendo contemplados pelo governo federal.
No caso de ficar tudo como está, umas poucas famílias de proprietários de usinas vai se dar bem, mas não haverá benefícios significativos para o restante da sociedade. A ocupação cada vez maior de área pela cana restringe o plantio de soja e de milho, com risco de escassez e encarecimento. O governo deveria impor condições para o ingresso desses capitais, como o financiamento de centros de pesquisas tecnológicas em regiões-chave.
Também deveria coordenar a reestruturação patrimonial das empresas do setor, que é pulverizado e assim se torna presa fácil de compra pelo capital estrangeiro. Para isso poderia ser usado financiamento do BNDES. A Petrobrás poderia entrar nesse processo como sócia, assim como está fazendo no setor petroquímico, com ganhos para o país.
As opiniões são do economista Licio da Costa Raimundo, professor da Facamp - Faculdades de Campinas, que resume a situação: "Do ponto de vista dos efeitos benéficos possíveis de se obter com estratégias nacionais de desenvolvimento, o Brasil está cometendo um erro clássico. Não estamos tomando as medidas necessárias para internalizar os efeitos da expansão da produção do etanol pelo país, para nos apropriarmos, como país, desses efeitos. Eles estão sendo todos jogados pela janela".
A seguir, a entrevista do economista a Terra Magazine:
Terra Magazine - Como o senhor vê a afluência maciça de investimento externo para a produção do etanol brasileiro?
Licio da Costa Raimundo - O que está ocorrendo é um rearranjo da propriedade de capital que vai consolidar o setor sob o comando de uns poucos grupos, principalmente estrangeiros. Há três resultados positivos fundamentais, possíveis e desejáveis, de qualquer rearranjo produtivo, que são o desenvolvimento tecnológico, a geração de empregos e a consolidação de grupos nacionais maiores, mais fortes e portanto melhor posicionados na concorrência global em um setor tão sensível quanto o de geração de energia. Nenhum deles está sendo contemplado pelo governo federal, que é quem deveria cuidar disso, como responsável que é pela administração do espaço nacional de valorização do capital.
O senhor quer dizer que não há benefício tecnológico para o país com a vinda de grandes grupos internacionais?
Esse efeito, aqui no Brasil, está comprometido, sobretudo porque o capital que vem é estrangeiro. No que diz respeito a geração de empregos, não é relevante no caso do etanol porque a maior parte do cultivo da cana se dá em áreas planas e é completamente mecanizada.
E quanto a geração de empregos indiretos?
Os resultados dos encadeamentos dessa cultura são relativamente pequenos em comparação como os do passado. É claro que há geração de empregos, mas ela é insignificante em comparação com a de antes da mecanização.
Por que é importante o capital estrangeiro ficar no Brasil?
Ao não ficar aqui, o capital estrangeiro não gera os encadeamentos que poderia na estrutura da indústria.
Que risco corremos sem uma política definida?
Corremos o risco de, em pouco tempo, estar exportando terra.
Como assim?
Exportando apenas a capacidade de reprodução da terra. A não internalização do investimento estrangeiro, ou o seu extravazamento para fora do país, significa que não se agregará, seja em termos dos efeitos de encadeamento do processo, seja em termos de apropriação tecnológica, aquilo que seria possível agregar.
Quais seriam os efeitos sócioeconômicos desse processo, do jeito que está?
Uma meia-dúzia de famílias vai ficar muito bem. Isso já está ocorrendo. Há notícias de que já faltam carros e apartamentos de luxo em Ribeirão Preto, uma das principais regiões produtivas.
O presidente Lula disse que os usineiros são heróis...
Só se forem deles mesmos e das suas dinastias.
Algumas pessoas têm manifestado preocupação com efeitos colaterais perversos do avanço do cultivo do etanol sobre outras culturas. Essa preocupação procede?
A ocupação cada vez maior de área pela cana significa restrição ao plantio de soja, de milho, e, conseqüentemente, o seu encarecimento, assim como o do frango, como efeito da alta da sua ração. Qual será a alternativa, se faltar milho? Importá-lo, é claro. Tem-se, portanto, uma situação desequilibrada, resultado do não planejamento.
O que o governo deveria fazer?
Deveria impor condições para o ingresso desses capitais.
Por exemplo?
Por exemplo exigir, como condição de entrada, o financiamento de centros de pesquisas tecnológicas em regiões-chave. Se uma Embrapa faz o que faz, imagine os benefícios para o país de mais meia-dúzia de embrapas.
A imposição de condições para entrada não afugenta o capital estrangeiro?
De maneira nenhuma. É o que a China e outros países fazem todos os dias. Não é tabu, nem afugenta investimentos. É simplesmente o jogo do capital, aceito pelos países desenvolvidos. Mas é um jogo duro. É preciso batalhar e ser firme. E isso só é possível fazer quando o governo tem clareza sobre os interesses do país e determinação em defendê-los.
O que mais o governo poderia fazer se tivesse decidido estabelecer uma política para o investimento no setor do etanol?
Poderia coordenar a reestruturação patrimonial das empresas que estão aí. Quando um setor é pulverizado, pouco concentrado, torna-se presa fácil de compra pelo capital estrangeiro, que é o que está acontecendo. O que é possível fazer é a fusão de empresas, com reestruturação patrimonial, com a participação do BNDES. A Petrobrás poderia entrar nesse processo.
Como é que a Petrobrás poderia entrar em um processo de reestruturação patrimonial das empresas do setor de etanol?
Como sócia. Assim como está fazendo no setor petroquímico, com ganhos para o país.
Como ficará o Brasil da era do etanol?
Do ponto de vista dos efeitos benéficos possíveis de se obter com estratégias nacionais de desenvolvimento, o Brasil está cometendo um erro clássico. Não estamos tomando as medidas necessárias para internalizar os efeitos da expansão da produção do etanol pelo país, para nos apropriarmos, como país, desses efeitos. Eles estão sendo todos jogados pela janela. Como o setor emprega pouca gente, não distribui renda significativamente. Como não há o cuidado de se internalizar o desenvolvimento tecnológico da produção do etanol, inexiste o benefício correspodente para a sociedade. A renda na forma de lucro está saindo do país. A agregação de valor será muito menor do que poderia ser.
O investidor estrangeiro, em alguns casos, está adquirindo terras. É o caso de George Soros. Essa é uma tendência?
De modo geral, não acho que a aquisição de terras pelo investidor estrangeiro se generalize. Veja o exemplo do café. O que atraía o investimento estrangeiro não era o beneficiamento, nem a terra, mas o financiamento e o transporte para os mercados consumidores. Entretanto, uma parte do capital ficou no país e deu suporte à industrialização. Uma grande diferença em relação ao caso do etanol. Em síntese, poderíamos dizer que vivemos um novo ciclo da cana-de-açúcar. O Brasil, mais uma vez, desperdiça uma chance histórica.
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