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Segunda, 2 de abril de 2007, 13h58

Controladores respondem crítica de Lula

Raphael Prado

Irresponsáveis. Para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quem trabalha com serviços delicados e cruza os braços merece o adjetivo. Mesmo quem está pedindo mudanças há 25 anos, de acordo com Ernandes Pereira da Silva, diretor técnico do Sindicato Nacional dos Trabalhadores na Proteção do Vôo. Ele conta o principal motivo pelo qual os controladores defendem a desmilitarização do setor:

- É um absurdo eles terem todas as benesses do sistema enquanto nós, controladores, temos as responsabilidades. E no entanto quando acontece um acidente, quem vai responder juridicamente somos nós, não eles.

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O sindicalista conta um caso que explicita a situação, quando era supervisor do controle de aproximação do Rio de Janeiro.

- No auge de uma crise interna que tivemos e a Aeronáutica abafou, foi colocada para mim a seguinte questão: "Olha, quando um subalterno sabe mais que um oficial, ele é transferido". E eu fui transferido.

Leia os principais trechos da entrevista:

Terra Magazine - Qual é a situação atual dessa crise?
Ernandes Pereira da Silva - O que nós estamos tendo no momento é uma disputa para quebrar privilégios dos militares. Porque é um absurdo eles terem todas as benesses do sistema enquanto nós, controladores, temos as responsabilidades. E no entanto quando acontece um acidente, quem vai responder juridicamente somos nós, não eles.

Que tipo de benesses são essas?
Começa pela questão salarial. Porque o dito subalterno não pode ganhar mais do que o superior. Depois, a maioria das viagens de aperfeiçoamento no exterior é dada para os oficiais, que retornam e não assumem função nenhuma. Quem continua assumindo são aqueles que não vão para o exterior. Plano de carreira definido, aposentadoria com 30 anos de serviço, paridade entre aposentados e ativos... chega por aí, né? Mas tem também uma reserva de mercado de trabalho para os seus oficiais quando se aposentam. Talvez essa seja a mais grave situação que a sociedade civil tinha que protestar. Enquanto há um desemprego enorme, ao invés de formar civis não só para controlador de tráfego aéreo, mas de administração dentro do setor, isso é tudo reservado ao oficial da Aeronáutica quando se aposenta, ganhando R$ 20 mil, R$ 25 mil, além da aposentadoria...

E como vocês respondem a crítica do presidente de que a paralisação foi uma irresponsabilidade?
Nós gostaríamos de lembrar ao presidente que são 25 anos de denúncias, não só para o governo dele, mas para anteriores. Todos eles são responsáveis. São 25 anos de denúncias do caos no sistema de controle de tráfego aéreo, das irresponsabilidades dos comandantes quando denunciamos equipamentos que não oferecem segurança. E afinal de contas, é a vida do passageiro. Isso sempre foi colocado com muita ênfase e clareza e, no entanto, tudo isso foi colocado embaixo do tapete para esconder privilégios. Ora, depois de 25 anos, você denuncia, pede, é renegado a 5º e a 6º plano... e agora chega no ponto em que está e ele vem chamar de irresponsabilidade e insensibilidade? Me parece que o próprio presidente da República também está sendo mal assessorado.

Como vocês receberam a sinalização de desmilitarização do setor?
Nós pensamos que esse é o primeiro passo.

E quais são os outros?
De imediato, é a questão de recursos humanos. Porque existem 4 ou 5 carreiras que são consideradas fixas dentro do Estado. Que não têm campo de trabalho fora se não for para o governo. Existe alguma profissão mais típica do Estado do que essa? Mas ela nunca foi considerada porque para a Aeronáutica não interessa valorizar esse profissional, para os privilégios serem mantidos pra eles. Essa questão de valorização do pessoal passa necessariamente pela desmilitarização. Eu fui supervisor do controle de aproximação do Rio de Janeiro durante 8 anos. E no auge de uma crise interna que tivemos e a Aeronáutica abafou, foi colocada para mim a seguinte questão: "Olha, quando um subalterno sabe mais que um oficial, ele é transferido". E eu fui transferido. Porque dentro dos dogmas militares, o oficial é um ser 'inerrante', superior. E isso tem que acabar. Nós estamos falando de vidas humanas.

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