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Quarta, 4 de abril de 2007, 08h09

Filme mudo (variação Nº 3)

Amilcar Bettega

Se isso fosse um filme, disse Sophie, talvez o problema estivesse resolvido. O filme da minha vida. Não o filme que conta a minha vida, mas o filme (o único) que conta para a minha vida. O detalhe. O filme é esse detalhe, o que se separa do resto. Há sempre um instante crucial na vida de alguém, o momento em que essa vida bascula, aquele ponto crítico onde a partir dali já é outra coisa que começa, não se sabe (e não interessa) se melhor ou pior, mas outra coisa. Olhe aquela moça que está ali naquela mesa,

(algumas mesas adiante, no mesmo café, uma jovem fala a um rapaz; a fala de Sophie passa sem interrupção da cena em que ela fala para a da jovem de quem ela fala, jovem que se vê, apenas, que fala, sem que se ouça o que fala)

ela fala ao seu amigo, namorado, colega, seja lá o que for. Ela conta algo decisivo, digamos que é isso. Decidimos que seja assim. Não sabemos, mas decidimos que seja isso: algo decisivo, crucial, aquele momento crítico que eu falava. A expressão deles nos ajuda, estão sérios, ela eu diria até um pouco tensa, fuma e mexe bastante com as mãos. Portanto, é algo decisivo. O detalhe. Aquilo que interessa, que se separa do resto, mil vezes mais importante do que o resto. Aliás, o resto já não existe. Mas apenas porque, para nós, ele nunca existiu. A vida daquela moça começa nesse café, agora, sentada naquela mesa logo ali. Para nós, ela acaba de nascer. Mas apenas porque a vemos à distância, porque ela fala e não a ouvimos. Porque sua voz não está a nossa disposição.

Olhe, continuou Sophie, Buenos Aires está ali atrás daquela porta de vidro, tão incompreensível quanto um livro fechado. Mas disponível. Eu poderia sair agora, ganhar as suas ruas, me perder nessa cidade que para mim não diz nada. Ou melhor, sim, ela me diz muito. Ela é o todo branco que me envolve nesse momento, ela é o resto do qual posso separar o detalhe. Ou ainda melhor, ela é a barreira de vazio que me isola do resto, do "meu" resto, que certamente está longe de Buenos Aires. Mas é só aqui, protegida por essa barreira, por essa camada de disponibilidade branca, que eu posso fazer emergir o detalhe, o instante crucial, onde a partir dali já é outra coisa que começa. Fora isso, por enquanto Buenos Aires é para mim um quarto de hotel a 10 dólares a diária e esse café. É já, talvez, essa moça que fala ao seu amigo, mas só isso. Por enquanto é só isso. Haverá o momento em que então ela fará parte da minha história, quando um dia, talvez, eu disser "No verão de 2006, em Buenos Aires...". Mas por enquanto não... Por enquanto o que está ali depois daquela porta de vidro é um branco... Por enquanto é um branco...

E se isso fosse um filme, bem poderia ser essa a fala de Sophie na seqüência do diálogo com Martín num café em Buenos Aires. Se isso fosse um filme, seria o momento em que ela calaria, primeiro com a intenção de fazer uma pausa para em seguida continuar o seu monólogo.

Mas o silêncio se prolonga, se dilata. O plano continua fechado no seu rosto, como se a câmera também esperasse a continuação de sua fala, ou mesmo a incitasse a falar. Mas o silêncio se fortalece, ganha espaço, e então todos sabemos que ela não vai mais falar. O plano continua fechado no seu rosto, agora é ela que parece indagar a própria câmera. Silêncio. Ela então baixa os olhos e a cabeça move-se um pouco para o lado. A imagem congela.

Se isso fosse um filme, seria o momento em que os créditos começariam a subir, sobre a imagem congelada do rosto de Sophie, os olhos baixos e a cabeça um pouco pendida para o lado.

Leia também:
» Filme mudo
» Filme mudo (variação Nº 1)
» Filme mudo (variação Nº 2)


Amilcar Bettega é escritor, autor de O vôo da trapezista, Deixe o quarto como está e Os lados do círculo(livro vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira em 2005). Vive em Paris.

Fale com Amilcar Bettega: amilcar.bettega@terra.com.br

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