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Théâtre du Soleil/Divulgação
Ariane durante os ensaios de Les éphémères
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Deolinda Vilhena
Ariane Mnouchkine ou A arte de transformar utopia em sonhoAriane Mnouchkine, considerada internacionalmente a maior diretora de teatro em atividade no mundo, chega ao Brasil dia 8 de maio para uma visita de 48 horas que faz parte dos preparativos para receber aquele que ouso chamar de maior acontecimento teatral da primeira metade do século XXI na América Latina, a tão esperada vinda do Théâtre du Soleil ao único continente que ainda não o havia recebido.
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Ariane vem conhecer os espaços escolhidos por Danilo dos Santos Miranda, leia-se SESC São Paulo, e Luciano Alabarse, leia-se festival Porto Alegre em Cena, para instalar uma "réplica" da Cartoucherie de Vincennes, sede do Théâtre du Soleil desde 1970, localizada nos arredores de Paris, e desde então, Meca do teatro mundial. Sem esses espaços, inusitados na maioria das vezes, as apresentações da trupe são inviabilizadas, pois os espetáculos do grupo podem ser representados num velho entreposto revitalizado à beira do cais de um porto, em antigas fábricas desativadas e renovadas, num rinque de patinação ou sob uma tenda de circo, mas nunca dentro de um teatro convencional.
Porto Alegre e São Paulo são as únicas cidades brasileiras na rota da turnê do espetáculo Les éphémères, mais recente criação de Ariane cuja estréia mundial aconteceu dia 27 de dezembro de 2006 em Paris, e que comemora amanhã, dia 7 de abril, sua centésima apresentação e ultrapassa a marca de 60 mil pessoas.
A estréia brasileira será dia 26 de setembro, em Porto Alegre. Antes dos brasileiros, apenas franceses, gregos e argentinos terão tido o privilégio de aplaudir o espetáculo, que sairá de São Paulo diretamente para Taiwan.
Ariane Mnouchkine, meu ídolo e o Théâtre du Soleil, meu sonho: entre a descoberta e o encontro 25 anos de espera
Duas mulheres mudaram os rumos da minha vida. Aos 12 anos, após assistir Bibi Ferreira em O Homem de la Mancha, no Teatro Manchete, no Rio de Janeiro, desisiti da medicina e decidi ser produtora de teatro. Aos 15 anos ouvi pela primeira vez falar em Ariane Mnouchkine, por ela eu deixei de ser produtora de Bibi Ferreira para fazer um Doutorado em Teatro na França.
Entre o dia em que ouvi falar de L'Âge d'or e o dia da minha chegada ao Théâtre du Soleil, em maio de 2000, 25 anos se passaram. Ao longo desses anos, acompanhei discretamente a trajetória dessa companhia. Afinal Internet, fax, correio eletrônico não faziam parte nem da vida dos Jetsons, que dirá da minha, e muito pouco chegava ao Brasil sobre a revolução feita por ela no teatro contemporâneo francês e mundial. Mas o pouco que lia me fez entender muito cedo que Ariane era mais do que a maior animadora do teatro francês - ela realizava todos os meus sonhos de produtora, cultuando "um teatro que eleva a alma e o coração" e nas palavras de Sábato Magaldi "se orienta pela mais exigente visão da arte e da cultura".
Foi essa certeza que me levou a mudar de vida, trocando o prestígio adquirido ao longo de anos de trabalho como assessora de imprensa e produtora de Bibi Ferreira pela aventura de ser bolsista do governo brasileiro, leia-se CAPES, e viver com 1.100 euros por mês em Paris para realizar meu sonho: encontrar Ariane e fazer do Théâtre du Soleil meu objeto de estudo.
Mais do que uma tese e um título de Doutor em Estudos Teatrais pela Sorbonne, eu trouxe na bagagem a realização de um sonho: conheci Ariane e vivi cinco anos e meio o dia-a-dia do Soleil. Ora como pesquisadora, Ariane me abriu os arquivos da companhia. Ora como público, vi mais de quarenta vezes Le Dernier caravansérail. Ora como espectadora mais do que privilegiada, pois Ariane me concedeu a graça de assistir a um ensaio de Les éphémères, a uma semana da estréia do espetáculo.
Mas sempre, independente das situações citadas, como uma apaixonada admiradora do trabalho realizado por essa criatura e todos os que a cercam. Foi, talvez, por esta postura que pude contar com o apoio da companhia ao longo dos meus anos de pesquisa. Sébastien Brottet-Michel, um dos jovens atores do grupo, quando da minha volta ao Brasil. confessou-me que ele tinha a impressão de que eu sempre estivera no Soleil, ao lado deles, como "un fantôme bienveillant". Confesso que me senti o próprio Gasparzinho, o fantasma camarada...
É com imenso prazer que após as 847 páginas da minha tese, escrevo esse artigo e divido com os leitores de Terra Magazine um pouco do que aprendi estudando e observando um gênio, pois não tenham dúvidas que Ariane Mnouchkine é um dos últimos gênios em atividade numa época em que impera a mediocridade.
Théâtre du Soleil ou a eterna "busca da beleza para alcançar a perfeição"
Para os mais afoitos, ou não aficionados, vale lembrar que o Théâtre du Soleil não é o Cirque du Soleil. Enquanto o Théâtre du Soleil é uma trupe no sentido nobre do termo, que pode se orgulhar de ser a única companhia de teatro francesa, exceção feita à Comédie-Française, em atividade ininterrupta há exatos 43 anos, precursora e não herdeira do movimento de Maio de 68, onde não existe a figura do primeiro ator e a divisão de tarefas é cláusula de um contrato de honra, na qual trabalham cerca de 80 pessoas recebendo todas o mesmo salário, o Cirque du Soleil, fundado por Guy Laliberté em 1984, é uma empresa de diversões, com cerca de três mil empregados, dos quais novecentos artistas, funcionando entre "grife" e "franquia" com vários elencos e diferentes espetáculos percorrendo o mundo. A única semelhança está no nome que, diga-se de passagem, é uma homenagem a trupe francesa.
O Théâtre du Soleil foi fundado no dia 29 de maio de 1964, por um grupo de nove amigos, reunidos em torno da pessoa de Ariane Mnouchkine, como uma Sociedade Cooperativa Operária de Produção, ou seja uma empresa coletiva baseada na associação voluntária de pessoas dispostas a exercer uma atividade econômica que responda às necessidades do grupo, cuja gestão é feita por todos os membros e os lucros são divididos equitativamente.
O grupo é movido pela vontade de fazer um teatro diferente. Para Ariane não se pode separar o teatro da forma como ele é produzido, logo explica-se a cooperativa como alternativa à forma de organização econômica e social e como forma de questionamento ao modelo capitalista.
Em 1970, a trupe se instala no Bosque de Vincennes, na Cartoucherie - antiga fábrica de munição do exército francês. Grande parte da autonomia da trupe vem do fato de ter encontrado sua "casa própria", que proporciona à trupe o seu único grande luxo: a possibilidade de manter um período de ensaios que oscila entre seis e doze meses de trabalho.
A título de exemplo da seriedade do trabalho realizado por Ariane e seu grupo, conto uma experiência vivida no dia 2 de abril de 2003, quando da estréia de Le Dernier caravansérail. Havia comprados ingressos para alguns amigos, todos ávidos para ver pela primeira vez uma estréia na Cartoucherie.
Ao chegarmos ao teatro, as portas abertas sagradamente por Ariane, após as batidas repetindo as "pancadas de Molière", fomos encaminhados a uma mesa. Para nossa surpresa nossos ingressos foram trocados por "convites" e nosso dinheiro devolvido. A explicação: Ariane considerava que o espetáculo ainda não estava totalmente pronto e o que seria estréia transformou-se em ensaio e o público - quando é respeitado - não paga para ver ensaio...
Em 30 anos de profissão, jamais vi ou vivi uma cena parecida. E vocês, já presenciaram algo parecido? Pois quando se sabe, como eu sei, que a situação financeira da companhia é precária e que a subvenção outorgada anualmente pelo ministério da Cultura e das Comunicações da França cobre apenas cerca de 30% das despesas anuais do grupo, e que Ariane empenha seus bens pessoais para manter vivo o seu sonho, isso é o que chamo de Dignidade escrita com D maiúsculo, quando a maioria das pessoas preferiria escrever com D de Dior...
Quatro décadas e vinte e seis espetáculos depois, amparada por um público que ultrapassa a marca de dois milhões de espectadores, sem jamais ceder às tentações de institucionalizar o Théâtre du Soleil, Ariane continua fiel aos seus princípios e à sua trupe, sem a qual jamais trabalhou. A busca de Ariane une ética e estética e passa pela restituição da "beleza ao espetáculo cênico", na linha de Jacques Copeau, pelo fazer um teatro ao mesmo tempo elitista e popular e na defesa do teatro serviço público, "como a eletricidade e o gás", em digna herdeira de Jean Vilar.
Ariane preserva assim seu papel de artista, denunciando, resistindo e tendo como única arma sua arte, consciente e acima de tudo responsável. Usando a beleza, o humor, fazendo do teatro uma festa para o espírito e para os sentidos, sem que ele perca seu conteúdo político, pois a própria Ariane afirma que "todo teatro, digno desse nome, é político".
Ariane Mnouchkine e o Théâtre du Soleil no Brasil
Muitas vezes anunciada, tantas vezes cancelada, a vinda do grupo ao Brasil é fruto de longas negociações. Danilo Miranda, diretor regional do SESC-São Paulo, e nosso ministro informal da cultura, há mais de dez anos se empenha pessoalmente pela vinda da companhia.
Dessa vez, a concretização da turnê extrapolou o eixo Rio-São Paulo para ser articulada entre Porto Alegre e Buenos Aires, iniciadas que foram, há dois anos por Graciela Casabé, diretora do Festival Internacional de Buenos Aires, e por Luciano Alabarse, diretor do Festival Porto Alegre em Cena.
Luciano Alabarse e Rodrigo Lopes, Graciela Casabé, Danilo Miranda e Fábio Ferreira, diretor do riocenacontemporânea, estiveram em Paris em fevereiro último, recebidos por Elaine Méric, responsável pela organização das turnês do grupo, Liliana Andreone, assessora de imprensa da companhia, Pierre Salesne, administrador, Etienne Lemasson, diretor técnico, e pela própria Ariane, para acertarem os últimos detalhes.
O Rio de Janeiro, para tristeza dos membros da companhia, ficou fora do roteiro pela impossibilidade de adiar as apresentações, há muito agendadas em Taiwan. A logística de uma viagem do Soleil é extremamente difícil. Para se ter uma idéia, o transporte de onze contêineres entre Brasil e Taiwan é feito de navio e são necessárias sete semanas. Isso deixa a companhia sem margem de manobra de datas, tendo muitas vezes que negar convites.
Na tese que escrevi sobre o Soleil, dediquei um capítulo de cerca de 130 páginas às turnês do grupo. Só quem conhece sabe a envergadura da empreitada. A vinda ao Brasil só foi possível graças ao acordo Buenos Aires/Porto Alegre, que viabilizou, por meio das respectivas Embaixadas da França nos dois países, dos serviços culturais e consulares, do apoio da agência Culturesfrance - criada há menos de um ano em substituição à quase centenária AFAA, Associação Francesa de Ação Artística -, órgão subordinado aos ministérios des Affaires étrangères e da Cultura e da Comunicações da França, encarregado da política cultural externa do país - responsável pelas 70 passagens aéreas e pelo transporte dos onze contêineres.
Some-se a isso os apoios locais que, no caso do Porto Alegre em Cena, passam pela Prefeitura de Porto Alegre, leia-se José Fogaça, pela secretaria municipal de cultura, leia-se Sérgius Gonzaga, pela Braskem e pela Petrobras, apenas para citar os principais envolvidos.
A trupe de Ariane Mnouchkine é a maior das atrações da 14ª edição do Porto Alegre em Cena, ainda que o programa seja de alto nível, com as presenças de Ute Lemper, de Julio Bocca, da companhia Sankai Juku e, last but not least, do nosso Antunes Filho. Minha experiência indica que os ingressos para Les éphémères esgotar-se-ão em poucas horas...
Detalhe importante: são apenas sete apresentações, entre 26 e 30 de setembro. O público máximo por sessão é de 600 pessoas - para Ariane, a partir do momento que o espectador perde de vista o olho do ator não existe mais teatro. Isso significa que somente 4.200 ingressos serão colocados à venda.
Em São Paulo, as negociações passam obviamente pelo SESC, que tem Danilo Miranda, e que há anos é um dos maiores parceiros na difusão da política cultural francesa no mundo e certamente o maior no Brasil. Sem o SESC, dificilmente a cultura francesa no que ela produz de melhor chegaria até nós. A César o que é de César.
Os paulistas terão direito a 14 apresentações, no começo de outubro, em datas ainda não definidas, em espaço a ser instalado na unidade Belenzinho, do SESC. Danilo Miranda me disse que está atento a todos os detalhes, "não só para respeitar as inúmeras necessidades técnicas da companhia e as exigências artísticas do espetáculo, tão caras a Ariane, mas pelo prazer e pela tradição de fazer bem feito e receber comme il faut essa companhia fora do comum".
Mas com cerca de 8.400 ingressos à venda, os paulistas devem correr para garantir um lugar ao "sol"...
Terra Magazine
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