Terra Magazine

 

Sexta, 6 de abril de 2007, 07h39

IPCC: 90% de mudanças são causadas pelo homem

Raphael Prado

O IPCC (sigla em inglês para Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas), divulga hoje a segunda parte do relatório sobre as mudanças climáticas na Terra. O estudo constata algo que até 10 anos atrás era impossível de afirmar com certeza: 90% das alterações no meio ambiente são antropogênicas, ou seja, causadas pelo próprio homem.

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Paulo Artaxo, professor titular do Instituto de Física da USP e membro do IPCC, confirma ainda que o relatório admite, no pior dos cenários, o fim de grande parte da Floresta Amazônica até 2080, se nada for feito até lá. Mas é cauteloso quando trata do assunto:

- Digamos que este é um cenário possível. Eu não faço parte da turma que acha que isto é o fim do mundo, que as alterações são irreversíveis, que o mundo está acabando... não. Para mim não é nada disso.

Artaxo espera que os países mudem suas políticas ambientais e acredita que a divulgação do primeiro relatório, em 2 de fevereiro desse ano, já mudou a maneira como os cidadãos pensam o meio ambiente:

- A Humanidade, com o relatório do Grupo de Trabalho 1 do IPCC, realmente acordou para o perigo que essas alterações climáticas podem ter, com as fortes implicações sócio-econômicas que elas devem ter.

O professor acredita que, graças a essa mudança de mentalidade, novos acordos serão feitos entre os países, de modo que seja possível reduzir de 30% a 60% as emissões de gases de efeito estufa. Leia a íntegra da entrevista com o membro do IPCC:

Terra Magazine - Quais as novidades que temos nesse novo relatório?
Paulo Artaxo - A maior novidade é que o primeiro relatório trata das bases físicas das mudanças climáticas. Este segundo trata mais das bases ecológicas. Ou seja, os efeitos nos ecossistemas que já estão ocorrendo devido às mudanças climáticas. E a novidade é que em 90% das observações realizadas em relação à mudança de relacionamento de ecossistemas, já é possível atribuir univocamente as emissões antropogênicas (produzidas pela atividade humana). Há 10 anos, isso era difícil de dizer. Mas hoje já se tem uma estatística bastante robusta para afirmar não só que a temperatura está aumentando e o padrão de chuva está sendo alterado, como estava no primeiro relatório do Grupo de Trabalho. Este segundo estudo coloca que estão acontecendo alterações fortes no funcionamento dos sistemas terrestres.

E que conseqüências práticas nós temos, além das que já foram faladas de aquecimento global, derretimento das calotas polares?
A principal conseqüência deste segundo relatório é, principalmente, que os serviços que a maior parte dos ecossistemas fornecem para a Humanidade, como a emissão de vapor de água, trabalho nas partes de nutrientes, já estão sendo reduzidos ou prejudicados pelas alterações na temperatura e na quantidade de precipitação. Então, do ponto de vista de funcionamento ecológico do nosso planeta, que é o tema do segundo relatório, já estão sendo observadas alterações importantes.

Um dos itens do relatório diz que grande parte da Floresta Amazônica pode desaparecer até 2080...
Exatamente.

Esse é realmente o cenário na pior das hipóteses?
Digamos assim que este é um cenário possível. Eu não faço parte da turma que acha que isto é o fim do mundo, que as alterações são irreversíveis, que o mundo está acabando... não. Para mim não é nada disso. Esse é um cenário realmente possível de acordo com todos os modelos, mas eu queria levantar dois pontos. Primeiro: os modelos ainda são bastante incompletos e não incluem uma série de processos de funcionamento dos ecossistemas que poderiam atenuar essas alterações. Segundo lugar: esses cenários não prevêem que vá haver mudança drástica no perfil de emissão de gases de efeito estufa e alterações drásticas na maneira de a população consumir e utilizar energia. Eu acho que esse segundo aspecto já está sofrendo profundas alterações. A Humanidade, com o relatório do Grupo de Trabalho 1 do IPCC, realmente acordou para o perigo que essas alterações climáticas podem ter, com as fortes implicações sócio-econômicas que elas devem ter e eu acho que, sem dúvida, novos acordos, em um futuro muito próximo, vão ser feitos no sentido de reduzir de 30% a 60% as emissões de gases de efeito estufa.

Isso muda a política dos países em relação à questão ambiental, não?
Sem dúvida alguma. E inclusive nos Estados Unidos. Agora, obviamente, parte das alterações climáticas já são irreversíveis.

Como por exemplo...
Derretimento de uma fração importante do Ártico, alterações em algumas espécies ecológicas, que por causa do aumento da temperatura até o momento, sofreram alterações no seu período de maturação...

E esse derretimento de parte do Ártico, que é irreversível, é suficiente para inundar cidades litorâneas?
Não. É importante dizer isso. Esse cenário, por exemplo, que está na revista Época dessa semana, é completamente impossível (diz, enfático). Ele é errado, na verdade. Assumir que é possível que haja, até o ano de 2100, um aumento do nível do mar de 12 metros é absolutamente incorreto.

Mesmo se continuar no ritmo em que está?
Mesmo se continuar tudo nesse ritmo, o aumento do nível do mar vai ser da ordem de 50 a 70 centímetros. O que faz com que o cenário colocado pela revista seja completamente errado. Ele não é possível do ponto de vista físico, químico e biológico. Por exemplo, a calota de gelo que tem na Finlândia, tem uma certa dinâmica corporal que vai demorar de 300 a 500 anos para derreter. Então não é viável, nem possível, do ponto de vista físico, o cenário de alteração do nível do mar para o final deste século. Embora, evidentemente, se absolutamente nada for feito - o que eu acho que é um cenário irrealista - isso pode se concretizar, numa realidade temporal, de 300 a 500 anos.

 

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