
Deolinda Vilhena
Les Éphémères, ou "um espetáculo feito dos instantes que nos fizeram"O Théâtre du Soleil guarda a tradição da festa popular, vinda da Idade Média e cultivada, na década de cinqüenta, por Jean Vilar. Ariane preserva a tradição e os rituais fazem parte do espetáculo.
Prepare-se para ser recebido por Ariane em pessoa, depois você será servido pelos atores e membros da companhia, que terão preparado as maiores delícias culinárias, pelas quais você pagará menos que por um sanduíche do MacDonald's...
Enquanto uns comem, outros, através de pequenas aberturas em cortinas de voil, descobrem o mundo do ator se preparando para a cena. Outros tantos estarão envolvidos com os livros, os discos, a história da trupe oferecida em leitura... para só depois penetrar no espetáculo.
Após anos de engajamento com as dores da humanidade e com as guerras intestinas, como no espetáculo anterior Le dernier caravansérail (O último caravançarai ou A última estalagem), Ariane Mnouchkine dessa vez parte do pequeno para alcançar o universal, apostando nas facetas menos cintilantes do ser humano ou no que ela chama de um "oceano de pequenos momentos de vida".
Ariane conta que há muito desejava "fazer algo sobre a beleza e a bondade da humanidade" e para ela "toma-se consciência desta bondade, desta beleza, apenas porque a experiência humana é a da perda, do luto...". Talvez por isso a morte seja presença constante em Les éphémères, afinal o espetáculo é composto por histórias de vida. Na presença da figura materna e das crianças que perambulam pelo espetáculo, reconhece-se irresistivelmente Ariane Mnouchkine.
Traçando o retrato de vidas comuns, Ariane e seus atores tornam impossível ao espectador não se reconhecer nessas pequenas histórias, que se confundem e se completam como um interminável quebra-cabeça. Les éphémères, como a Orestia de Ésquilo, narra a vida de uma família, não mais do Átridas, mas da família dos seres humanos.
A força de Les éphémères reside exatamente no fato de fazer o público (re)descobrir o essencial: a vida. Uma vitória para Ariane, que diz se comunicar através de emoções e que acredita que só falando de vida, do percurso do ser humano, de indivíduos se pode proporcionar emoção e alegria ao público.
Quem é quem no Théâtre du Soleil
Cerca de 80 pessoas trabalham no Théâtre du Soleil. Retrato do mundo globalizado que deu certo, no Soleil convivem em harmonia pessoas de 35 nacionalidades, 22 línguas são faladas, e o francês é a língua comum, afinal essa Torre de Babel é o mais cosmopolita dos teatros sem deixar de ser francês, como indica a bandeira tricolor tremulando à entrada da sede do teatro e a divisa francesa Liberdade, igualdade e fraternidade estampada no portal de entrada.
O princípio de igualdade de salários e a divisão de tarefas não impede que a trupe aceite a existência de "primeiros e segundos violinos". Ariane considera mesmo uma injustiça que não se faça essa diferença. Ter direito ao mesmo salário não implica ter obrigatoriamente o mesmo reconhecimento.
Partindo desse princípio, e na impossibilidade de apresentar um por um dos membros da trupe, escolhi os onze titulares da minha equipe do Théâtre du Soleil: no gol, Jean-Jacques Lemêtre, representante do núcleo de criação; na defesa, Etienne Lemasson, Liliana Andreone, Maria Adroher, Naruna Andrade e Pedro Pinheiro Guimarães, representando a turma da retaguarda, que está pronta para encarar qualquer batalha. E no ataque, Duccio Bellugi Vannuccini, Eve Doe-Bruce, Juliana Carneiro da Cunha, Maurice Durozier e Shaghayegh Beheshti, representando os atores da companhia. No comando, obviamente, a técnica Ariane Mnouchkine. Na galeria de fotos vocês vão ver o rosto desses que, à sombra, fazem brilhar o Soleil...
Terra Magazine
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