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Terça, 10 de abril de 2007, 08h10

Com tanto perdão, cachaça é pouco

Cláudio Lembo

Um atributo próprio do ser humano é a capacidade de reflexão. Refletir é essencial para se evitar atos equivocados. Os animais agem por intuição. Atacam ou se defendem de acordo com sensibilidade inata. Os humanos, antes de qualquer conduta, podem proceder a uma introspecção e, só a seguir, agir.

Ações compulsivas ocorrem. Emoções podem levar a desatinos. Caracterizam-se estas situações como atitudes extremadas, não próprias do natural das pessoas.

O normal - mais do que normal, o corriqueiro - é pensar e depois agir. As conseqüências precisam ser assumidas e ônus de cada ato suportados por quem os praticou.

Desde a ida de um chefe de Estado ao leste europeu e, lá, em um campo de extermínio, ajoelhar-se e pedir perdão, o ato tornou-se corriqueiro, até banal.

Todos os dias rogos de perdão são proferidos.

Aquele ato solene, repleto de significado, vulgarizou-se, como tudo nesta sociedade de consumo sem valores intrínsecos. Antes, o perdão era concedido espontaneamente por quem sofrera uma violência moral ou física.

Hoje, ao contrário, todos pedem perdão pelos mais diversos atos. Milhares foram afastados de seus lares, injuriados e mortos pela Inquisição. Já passou. Basta pedir perdão e está tudo resolvido. Os estados totalitários de todas as ideologias praticaram crimes hediondos. Genocídios sem precedente na História.

Nada importante. Rapidamente as sociedades descerram cortinas sobre o passado e, para assegurar uma aparente respeitabilidade, fecha-se o ciclo com um pedido de perdão. Todos vão para seus lares em estado de graça. Ao inferno, valores e vítimas.

No pedido de perdão dos tempos contemporâneos, falta o ato de contrição e a consciência profunda de que se praticou efetivamente uma ofensa. Tudo é cenografia televisiva. Nada é interiorizado.

Ignora-se, nesta inflação de pedidos de perdão, que o ato de perdoar é unilateral. Cabe ao agredido agir de acordo com sua consciência e oferecer o seu esquecimento, se assim achar conveniente.

Não pode o juiz de futebol anular um gol e, depois, solicitar perdão. Agrediu milhares de torcedores. Humilhou jogadores. É exemplo chulo, mas aconteceu nestas terras tropicais na última semana.

Vai-se além. E agora em tema sério. O bandido agride, fere e mata. Depois, perante as autoridades, cinicamente pede perdão. Não sabia o que estava fazendo. Fácil, muito fácil.

A autoridade pública, em tema essencial, erra. Muitos sofrem as conseqüências de seu equívoco. Nada importa. Basta um pedido público de perdão. Tudo cessa.

Personalidades religiosas não escapam a este surto de perdões. Ferem a Lei Eterna e, depois de uma penitência, um pedido de perdão. Solene, se possível, trivial se assim exigirem as circunstâncias.

Já disseram que a ausência do perdão transformaria o mundo em uma cena amarga onde a Justiça seria fria e irrespeitosa. Pode ser. Mas não convence a quem pensa, reflete e vê a sociedade com realismo.

O último perdão vai além dos limites plausíveis. Os controladores de vôo há meses tumultuam o transporte aéreo nacional. Quando querem, param todos os aeroportos. Não se preocupam com as conseqüências. Prejudicados e prejuízos não importam.

Nas estações de embarque se encontram enfermos que se deslocam de suas cidades em busca de tratamento nos centros médicos mais avançados. Anciões cansados da vida. Profissionais de todos os setores. Santos e pecadores a caminho de novas experiências. Um mundo complexo, este segmento da sociedade em trânsito.

Nada disto foi lembrado pelos controladores de vôo. Foram agredidos, eventualmente, pelos seus superiores. Merecem respeito e a preservação da dignidade de seus cargos e de suas pessoas.

Parar, porém, todos os aeroportos, sem refletir, mostra insensibilidade. Há profissões que exigem abnegação mais do que outras. Nem todas são iguais. Alguns devem arcar com os ônus de suas opções de vida.

É esdrúxulo este perdão publicamente solicitado. Pode se configurar como um gesto de humildade, espontâneo ou provocado. Em qualquer hipótese, muito bem, obrigado. Não condiz, todavia, com a importância da missão dos controladores. Seria melhor que assumissem os ônus de seus atos. Ganhariam em honra e dignidade.

O modismo presente, por esta latitude, teve origem no espaço europeu. Chegou atrasado. O uso do expediente tornou-se excessivo a esta altura. Antes de agir é preciso pensar. Depois, digno é arcar com as conseqüências do ato.

Nestas terras tropicais, todos querem ser Raskolnikov, a personagem dostoievskiana que recobra o gosto da vida após arrependimento de seu crime. Não dá. Só com muita vodca. Cachaça é pouco.


Cláudio Lembo é advogado e professor universitário. Foi vice-governador do Estado de São Paulo de 2003 a março de 2006, quando assumiu como governador.

Fale com Cláudio Lembo: claudio.lembo@terra.com.br

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