
Paquito
O disco Canto geral, de Geraldo Vandré, é relançado em CD quase quarenta anos depois. O disco é de 1968, que correspondeu ao auge de um período fértil para a música urbana brasileira, que explodia em criatividade nos festivais da canção popular. Vandré foi um artista intrinsecamente ligado a esta era dos festivais, e quando a mesma teve fim, ele não mais retornaria à vida pública, por motivos ainda hoje controversos.O primeiro festival importante, o de 1966 da TV Record, teve dois ganhadores: Chico Buarque, com A banda, defendida por Nara Leão, e Vandré e Theo de Barros, com Disparada, defendida por Jair Rodrigues. A contagem de votos dava a vitória a Chico, mas a produção do festival e o próprio Chico acharam por bem dividir o primeiro prêmio, pois a disputa foi acirrada e o público torcia ativamente.
Enquanto a canção de Chico revelava um Brasil lírico e nostálgico, a de Vandré primava por uma linguagem que mesclava viola e violência, o que abria novos caminhos na estética da 2ª fase da bossa-nova. Vandré, em parceria com Fernando Lona, neste mesmo ano, também ganhou o Festival da Tv Excelsior, com Porta estandarte. No ano seguinte (1967), com a apresentação de Alegria, alegria, de Caetano Veloso, e Domingo no parque, de Gilberto Gil, o tropicalismo assumia a música de festival como um fenômeno comercial, e abolia as fronteiras entre o iê iê iê (música de massa) e o que começava a se chamar MPB, colocando a discussão sobre a identidade cultural num nível mais amplo.
A canção de Vandré para este festival, Ventania, não ficou entre as primeiras classificadas, mas em 68, ele ficaria em segundo no Festival Internacional da Canção com a famosa Caminhando (Pra não dizer que não falei de flores), só atrás de, de novo, Chico e Tom Jobim, com Sabiá. Dessa vez, pela preferência do público, Caminhando teria ganhado, o que rendeu uma vaia a Sabiá, e fez Vandré dizer ao público que a vida não se resumia a festivais.
Caminhando, por falar em "soldados, armados ou não/ quase sempre perdidos de armas na mão" que morriam sem razão pela pátria, criou uma tensão entre Vandré e os militares, então no poder, e o cantor fugiu do país. Ao mesmo tempo, findava a fase áurea dos festivais, implodida pelos tropicalistas Caetano e Gil, por sua vez, também presos e exilados por motivos análogos aos que levaram Vandré a sair do Brasil. Mas a música "engajada" representada por Vandré teria que ser repensada, não mais sob a tutela de um nacionalismo primário e aprisionador.
O Canto geral foi lançado justamente no momento qual os nacionalistas estavam sendo neutralizados pela estética da Tropicália, bem menos ingênua. O disco de Vandré, portanto, hoje soa panfletário, com canções anunciando "o dia que já vem vindo/ que esse mundo vai virar" e "que um dia se mude a vida/ em tudo e em todo lugar". No texto da contracapa, o cantor opõe comunicação - "objetivo de qualquer trabalho em arte" - à massificação, uma oposição questionada e também neutralizada pelos tropicalistas.
O que valoriza o disco, no entanto, é uma sonoridade caipira e nordestina, que não tem nada a ver com a bossa-nova que o antecede. As canções falam de terreiro, aroeira, plantadores, etc, como se estivesse sendo tramada uma revolução camponesa. Porém nada soa postiço: os arranjos do Trio Marayá são densos e os vocais elaborados e orgânicos, tudo guiado pelo canto e pelo timbre especial de Vandré, que expressa dor e coragem.
Passado todo esse tempo no qual ele se manteve em silêncio, e no qual a canção popular trilhou caminhos bem diversos, a sua voz faz a diferença, indo além do discurso que tornaria o disco datado. A melhor canção do disco, Cantiga brava, fez parte da trilha do filme de Roberto Santos baseado no conto de Guimarães Rosa A hora e a vez de Augusto Matraga, e contém versos fortes, retirados da epígrafe do conto: "o terreiro lá de casa/ não se varre com vassoura/ varre com ponta de sabre/ bala de metralhadora", muito brasileiro e atual no que toca à violência urbana.
Em 1979, com os ventos da abertura política soprando, Vandré e Caminhando viraram uma lenda, o que fez com que Simone gravasse a canção num disco ao vivo, trazendo-a de novo ao sucesso. A cantora quase sempre ia às lágrimas ao cantar a música e o disco vendeu muitas cópias, mas Geraldo Vandré não quis voltar a se apresentar, nem ao menos aparecer publicamente, o que gerou mais lendas: ele teria sofrido torturas dos militares e estaria maluco ou com medo.
Bem mais tarde, no ano 2000, Vandré negou que tivesse sido torturado, mas não demonstrou muito interesse pela própria história e pela música que fazia, tendo passado a exercer a advocacia.
A julgar pelos acontecimentos, historiografia do período em que atuou e entrevistas esparsas, Vandré se recolheu, em parte porque não apreendeu a lição tropicalista da diversidade de estilos convivendo ao mesmo tempo. Por outro lado, é esta mesma lição que torna oportuno o relançamento de discos como este Canto Geral, representante de um período saudável da nossa canção popular, propenso ao debate e ao combate.
Terra Magazine
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Divulgação
Capa do disco de Vandré, relançado pela EMI
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