
Daniel Bramatti
O FMI misturou alhos com bugalhos ao divulgar, ontem, o relatório Panorama Econômico Mundial. Os dados sobre a renda dos brasileiros estão errados - foram "puxados para baixo" por conta de uma falha metodológica, apontada por Terra Magazine e reconhecida ontem mesmo pelo Fundo Monetário Internacional. "Vamos revisar nossos procedimentos em futuras edições do Panorama Econômico Mundial", disse o economista Bennet Sutton, em e-mail a este repórter.
Para entender a confusão, vamos por passos. O relatório divulgado ontem pelo Fundo é o primeiro desde a revisão do PIB brasileiro, anunciada no mês passado pelo IBGE, que revelou um país 10,9% mais rico do que o previamente estimado (leia aqui).
O FMI atualizou, com o "novo PIB", sua base de dados e sua previsão de crescimento do Brasil em 2007, que passou de 4% para 4,4%. Mas continuou usando o "velho PIB" na estimativa da renda per capita dos brasileiros com base na Paridade de Poder de Compra (PPC) - indicador que é usado, por exemplo, no cálculo do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).
O Panorama Econômico Mundial é lançado semestralmente, mas algumas estatísticas só são atualizadas uma vez por ano - caso do chamado PIB PPC, cujos números ainda são de setembro do ano passado, segundo explicou o Fundo.
Mas não há, no relatório, nenhum alerta sobre o uso dos dois PIBs. O erro teria provavelmente passado em branco se Terra Magazine não tivesse, recentemente, recalculado o IDH do Brasil com os novos dados do IBGE (leia aqui).
Ao detectar uma inconsistência entre seus cálculos e a estatística do FMI, pedimos, por escrito, esclarecimentos ao órgão. "O último Panorama Econômico Mundial mostra no Brasil um PIB per capita 10,85% maior em 2005, mas um crescimento de apenas 1,27% no PIB per capita baseado na Paridade de Poder de Compra (Nota: pela lógica, os dois indicadores deveriam crescer juntos). Estou procurando alguém que possa explicar este fenômeno. Pode ser um erro?" - dizia um e-mail enviado ao setor de mídia do órgão, em Washington, às 14h09 de ontem.
A resposta veio duas horas e vinte minutos depois. Bennet Sutton, um dos economistas que trabalham na elaboração do relatório, informou que o cálculo do item em questão foi feito "com base no PIB em moeda local, atualizado pelo IBGE, e no PIB PPC, não atualizado". Ou seja, o Fundo misturou dois PIBs diferentes no mesmo cálculo - algo como somar centímetros e polegadas e dar o resultado em quilos. Não pode.
A renda per capita com base na Paridade de Poder de Compra leva em conta não apenas a riqueza de cada cidadão, em média, mas o custo de vida de cada país. Por exemplo, uma pessoa que ganha US$ 100 na Bolívia compra, com essa renda, o mesmo que alguém com salário de cerca de US$ 300 nos Estados Unidos. O PIB PPC em dólares da Bolívia é, portanto, o triplo do PIB "real".
Pelas contas do FMI, a renda anual per capita PPC dos brasileiros era de US$ 8.657 em 2005. Mas, com a revisão feita pelo IBGE, esse valor deve ter superado os US$ 9.500 naquele ano.
Quando esses novos números forem incorporados à base de dados da ONU, o Brasil entrará oficialmente no grupo de países de "alto desenvolvimento humano" - espécie de primeiro mundo da área social. Na prática, isso já ocorreu, conforme Terra Magazine antecipou.
A revisão do PIB feita pelo IBGE tem provocado polêmica - há quem acuse o instituto de ter manipulado dados para mostrar uma economia mais robusta no governo Lula. Os ataques, porém, costumam vir de quem não está familiarizado com o assunto. Entre os especialistas, é praticamente consensual a avaliação de que a metodologia do instituto foi aprimorada.
O IBGE também tem sido acusado de mudar o PIB "de um dia para o outro", o que não faz sentido. A mudança no cálculo resulta de um trabalho de anos, e nunca foi segredo. Terra Magazine, por exemplo, escreveu sobre o "chacoalhão estatístico" que abalaria o país mais de um mês antes do anúncio oficial do novo Produto Interno Bruto (leia aqui).
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