
Deolinda Vilhena
Numa dedicatória feita por Bibi Ferreira a esta colunista no encarte do CD de Piaf, "A vida de uma estrela da canção", lançado pela Som Livre em 1994, ela escreve: "À minha filhinha Deolinda, minha poeta, produtora e acima de tudo amiga, obrigada de coração por tudo e principalmente pelo entusiasmo que sai de seus olhinhos e de suas palavras e de seus gestos comoventes..." e assina : "Mamãe Bibi".Escrever sobre um ícone da cultura de um país é sempre delicado, mas depois de ler essa dedicatória vocês podem imaginar que no meu caso escrever sobre Bibi Ferreira é muito mais delicado, pois a relação que nos une extrapola a amizade e o profissionalismo, é mesmo uma relação de mãe e filha, com todos os conflitos que essa relação normalmente envolve... Bibi é parte da minha vida, e ouso dizer que sou parte da vida dela. São mais de 25 anos de amizade, dos quais mais da metade trabalhando juntas. Ou seja, para escrever esse artigo - e aproveitando o título da peça que ela está ensaiando - decidi mandar às favas todos os escrúpulos e falar de uma maneira bastante pessoal dessa que é, para muitos, uma das maiores atrizes brasileiras, e para mim, obviamente, a maior.
Espero por Bibi Ferreira no hall do Maksoud Plaza, temos um jantar marcado para às 20h, é nosso primeiro encontro desde que cheguei ao Brasil após cinco anos e meio morando em Paris, embora eu tenha passado duas semanas hospedada em seu apartamento no Rio de Janeiro durante o mês de fevereiro. Mas Bibi já estava em São Paulo.
Bibi chega quinze minutos depois da hora marcada - os quinze minutos da politesse, diriam meus amigos franceses - ela está radiante, posso ver por trás dos óculos escuros os olhinhos que brilham, o corpo esbelto, gourmande e gourmet ela luta contra a balança desde a mais tenra idade, mas andou dando uma passadinha na clínica do Dr. Ivo Pitanguy para uma "lipo básica" e está muito, muito bem fisicamente. O reencontro é uma festa. Muitos beijos, muitos abraços e tenho que me controlar para não apertá-la tal e qual a gente tem vontade de fazer com as bochechas um bebê fofinho.
Esse bem-estar tem a ver com o trabalho atual. Bibi Ferreira se prepara para mais uma estréia. Mas, quando no dia 10 de maio, subir à cena do teatro da Fecomércio - que mudará de nome para homenagear Raul Cortez - com a peça "Às favas com os escrúpulos", o teatro brasileiro estará recuperando sua maior atriz - Bibi estará fazendo as pazes com a comédia. Ao seu lado, no palco, Juca de Oliveira, autor do texto, e Adriane Galisteu. Na direção, Jô Soares, o primeiro a "dirigir" Bibi Ferreira desde que Flávio Rangel a dirigiu em "Piaf - A vida de uma estrela da canção", em 1983.
Às vésperas de completar 85 anos - ela nasceu dia 1° de junho de 1922 - dos quais 66 dedicados ao teatro, Bibi fez as contas e concluiu que, desde a temporada com sua companhia em Portugal, em meados da década de 50, não fazia comédia. Em Lisboa, ela apresentou o repertório da Companhia de Comédias Bibi Ferreira, em seguida dirigiu e atuou ao lado de seu pai, Procópio Ferreira, mas seus maiores sucessos em terras lusitanas foram as oito revistas que fez na Companhia Eugênio Salvador. Na volta ao Brasil, estrelou "Festival", um show de Carlos Machado na boite Night and Day e entrou para a televisão onde fez carreira como apresentadora e marcou época com os teleteatros.
Nos palcos, a carreira de Bibi foi marcada pelos musicais: "My fair lady" (1962), "Alô, Dolly!" (1965), "O Homem de la Mancha" (1972), "Gota d'água" (1975), "Piaf - A vida de uma estrela da canção" (1983), "Bibi in concert" (1991), "Bibi in concert 2 - Entertainer" (1994), "Bibi canta e conta Piaf" (1995), "Brasileiro, profissão, esperança" (1997), "Bibi vive Amália" (2001), "Bibi in concert 3" (2004)...
Logo, a estréia de "Às favas com os escrúpulos" é em si só um acontecimento, e o teatro brasileiro deverá ser grato a Juca de Oliveira, cujo texto proporciona a volta de Bibi ao "teatro".
Bibi está animada, o clima dos ensaios, no apartamento de Jô Soares, é dos mais agradáveis, só tem elogios para os colegas de trabalho. Os horários de ensaio a obrigam a uma dura rotina. Desde o dia 6 de fevereiro fora de sua casa no Rio, Bibi passa dias e noites num quarto de hotel - o Maksoud, onde se sente em casa e todos a tratam como uma rainha - decorando as setenta páginas de texto, "tenho tanto texto quanto tinha na Gota d¿água". E quem viu o espetáculo, na minha opinião o maior papel de Bibi no teatro, sabe como a Joana de Bibi falava...
"Às favas com os escrúpulos", diz Bibi, "traz outra novidade na minha carreira. É a primeira vez que eu abro uma peça". Como assim, pergunto? E ela conta que nunca estava em cena na hora da abertura da cortina, seus personagens entravam sempre depois... Num instante revejo "Gota d¿água" e constato a veracidade de sua afirmação: no texto de Paulo Pontes e Chico Buarque, Joana entra após 38 páginas de texto... Diz que tem uma cena "excepcional" e explica: "é uma cena de bebedeira, dez páginas de texto". Fico imaginando o que ela poderá fazer...
Falamos do Théâtre du Soleil - os que leram a coluna da semana passada já sabem que é impossível falar comigo e não tocar nesse assunto - ela está curiosa para ver. Nunca viu. Quando esteve em Paris estava pronta para assistir "Tambours sur la digue" quando foi surpreendida no hotel Raphael por uma visita inesperada, teve que cancelar sua ida, e, voltando ao Brasil no dia seguinte, não teve oportunidade de ver o trabalho de Mnouchkine e sua trupe.
Nessa época, maio de 2000, em Paris, ela me disse que sua idéia, ao montar "Escândalos de 50", uma revista grandiosa, era abastecer o caixa da sua iniciante companhia e poder partir para um repertório mais ousado, pensou em organizar uma trupe nos moldes da de Ariane e montar Brecht... Mas o incêndio que destruiu o teatro a obrigou a mudar de planos.
Ela pergunta sobre a vida no Soleil. E eu me lembro de uma frase dita por ela quando das minhas pesquisas sobre a sua carreira - escrevi uma dissertação de mestrado na ECA/USP intitulada Bibi Ferreira - A trajetória solitária de uma atriz por seis décadas do teatro brasileiro -: "O teatro de equipe só deve existir quando ele é experimental. Uma companhia de repertório é um grupo - uma equipe - com responsabilidades não experimentais. A equipe, da qual tanto falam, não pode existir quando você tem astros. Dei oportunidade a muita gente na minha Companhia e posso citar dois grandes nomes - Maria Della Costa e Cacilda Becker - mas num determinado momento elas também quiseram ser estrelas e foram em busca do que era melhor para o seu futuro. Como dizia papai: leão não anda em bando." Discordo e o Théâtre du Soleil é a prova de que se pode fazer um teatro popular, baseado na pesquisa permanente, dependendo a 70% da sua própria bilheteria, e preservando o espírito de trupe ainda que existam grandes talentos individuais...Isso só prova que nem sempre concordamos...
Falamos das dificuldades do Brasil, fazer teatro ficou difícil, lembramos da comemoração do seu Jubileu de Ouro em 1991, quando para a estréia de "Bibi in concert", ela contratou uma equipe de mais de 100 pessoas sem ter um tostão no bolso. Todas as empresas procuradas negaram patrocínio, mas ela quis comemorar seus 50 anos de palco "com uma missa ao meu jeito". Ela tinha uma única certeza: se o espetáculo não desse certo teria que hipotecar seu único apartamento. Não foi preciso. O sucesso veio, retumbante e com ele os patrocinadores. E durante um ano e meio essas cem pessoas tiveram trabalho e ao longo desse período mas de 1.000 músicos brasileiros tocaram na orquestra que acompanhava Bibi.
Mas hoje, fazer teatro nem mesmo hipotecando apartamento... Tivemos a era dos grandes atores, a era dos diretores e atravessamos a era dos patrocinadores. Falamos de Miguel Falabella e a situação calamitosa de Império, no Teatro Carlos Gomes no Rio de Janeiro. Não posso me impedir de pensar no espanto de Stella Miranda, diretora do Carlos Gomes e atriz do msuical Império - quando eu disse que a Comédie-Française recebia uma dotação anual de mais de 20 milhões de euros por ano - cerca de 55 milhões de reais - do ministério da Cultura e das Comunicações da França, sem contar as receitas da bilheteria, que nos teatros muicipais e/ou estaduais brasileiros reverte para os cofres públicos e não para os próprios teatros.
A diferença é que na França a cultura é responsabilidade do Estado, seja ele de direita ou de esquerda...e no Brasil convivemos há mais de 500 anos com a ausência de uma política voluntarista na área da cultura e da educação.
Digo a Bibi que nos falta tradição. Foi a "deixa" para mais uma de suas frases maravilhosas : "dizem que no Brasil falta tradição nos musicais. Não é só no musical que falta tradição no Brasil. Aqui no Brasil temos uma única tradição que é a de acabar com todas as tradições."
Lembro de outra frase citada pelo Juca de Oliveira no texto de abertura do programa de "Bibi in concert 2 - Entertainer", em que ele dizia que "numa comovente biografia de Bibi Ferreira, ainda não publicada, e à qual tive acesso por um desses raros golpes de sorte, ela se considera não uma estrela, mas um cometa que faz incursões esporádicas pela ribalta. Achei a observação algo despropositada, quem sabe saída das dimensões cósmicas da sua modéstia". E pergunto porque ela passou, em diversos momentos, tanto tempo longe dos palcos. A resposta é clara, objetiva: "Quando estive fora do palco estive me alimentando. Não vivo das paixões. Vivo na simplicidade da minha que eu levo para o teatro. É por isso que dizem que sou moderna. Porque sou simples. Sou o hoje, sou o cotidiano. Programar a posteridade é muita pretensão."
As horas passam, não resistimos à tentação da sobremesa e encaramos "une crème brûlée", saudades de Paris. O jantar chega ao fim e eu devo voltar a Santos. Do Maksoud ao Terminal Rodoviário do Jabaquara é um longo caminho. Bibi não pensa duas vezes, chama Neyde, sua fiel escudeira, e diz: vamos levar a Deolinda ao Jabaquara. No início dos anos 60 foi no Jabaquara que Bibi comprou sua primeira casa. Entramos as três no táxi e continuamos o papo... Aproveitei para fazer uma última pergunta, da qual eu conhecia a resposta: Bibi, o que foi que você ainda não fez? E ela: "fortuna". Mas esqueceu de dizer que nunca fez novelas..."É verdade, no meu curriculum ainda faltam as novelas..."
Na despedida marcamos o próximo encontro, na estréia de "Às favas com os escrúpulos..." E nas curvas da estrada de Santos, menos perigosas e menos românticas que na época da música do Rei, decidi que a coluna de hoje seria sobre esse papo com Bibi, que num chuvoso sábado de aleluia, começou no Maksoud e acabou no Jabaquara...
Terra Magazine
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Sophie Preveyraud/Reprodução
Bibi Ferreira, no Théâtre Déjazet em Paris, maio de 2000
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» A influência francesa em nossas mesas