
Paulo Scott
É muito difícil passar por um debate sem admitir rótulos de "simbólicos" e "diabólicos" aos que confrontam idéias, expectativas, senso de justiça.Nesse contexto, o ideal é referência necessária, mas que atraiçoa porque é sempre construção única na cabeça de cada indivíduo, de cada debatedor. Por isso a relevância do convencimento, da retórica, das alianças.
Sob diversos critérios, o debate em torno do aborto é um dos mais árduos, pois contrapõe não só valores, mas ideais incomunicáveis, expondo a quase ausência de fronteira entre o público e o privado.
Com relação a isso, preocupa-me não o radicalismo de uma ou outra posição, mas a hipocrisia de não se admitir que há danos em ambas soluções e que a pauta não pode ser ditada pelas aparências de civilidade - coisa muito parecida ocorre com o que se vê em nossa legislação penal, que nas suas ênfases humanistas/humanitárias recusa compromissos maiores na medida em que é paliativo e desculpa social, promessa de civilidade.
A comunicabilidade esbarra no temor e na ignorância, mas sobretudo na dificuldade que temos de assumir a impossibilidade da regra única, geral, eterna.
Toda solução ou inovação resolve um problema ao mesmo tempo em que gera novos riscos - e tudo se resume a colocar ou não o que se deliberou em prática.
Esse é para mim o ponto mais significativo: avançando ou não no caminho de um respeito maior à individualidade de cada mulher, conseguiremos instalar um processo racional e eficiente para garanti-lo?
Compromisso sempre há, e o peso de cada decisão sempre nos condenará. Podemos ser mais justos e sábios no papel e até no improvável consenso, mas no cotidiano dos desesperados será que nosso altruísmo de elite estará presente? Nisso, infelizmente, penso que falhamos sempre.
Terra Magazine