
Deolinda Vilhena
O teatro brasileiro no século XX é a história de um matriarcado. Esta afirmação me acompanha ao longo desses meus 30 anos de teatro atuando como produtora, assessora de imprensa e administradora. Na vida profissional ou nos bancos da antiga sede da UNE, na Praia do Flamengo, onde estudava teatro na Fefierj - hoje Unirio - os nomes de Conchita de Moraes, Itália Fausta, Dulcina de Moraes, Dercy Gonçalves, Virgínia Lane, Eva Todor, Bibi Ferreira, Cacilda Becker, Tônia Carrero, Maria Della Costa, Fernanda Montenegro, Nathalia Timberg, Cleide Yáconis, Glauce Rocha, Nicette Bruno, Eva Wilma, Marília Pêra, Maria Jacintha, Maria Clara Machado, Consuelo de Castro, Leilah Assunção, Ísis Baião e Maria Adelaide Amaral contribuíam para tornar verdadeira a lendária frase. Atrizes, diretoras, dramaturgas, donas de companhias, produtoras e quase sempre acumulando funções.Engraçado é que de uns tempos para cá, a música popular brasileira tem despertado interesse por conta desses mesmos sintomas de feminização, um grande número de cantoras, que não implica entretanto no aumento do número de compositoras e/ou instrumentistas.
Muitas vezes, usando minha própria experiência como parâmetro, constatei a veracidade da frase em questão ao perceber que minha trajetória profissional foi marcada por forte presença feminina.
Comecei na Companhia Maria Della Costa, cresci com a ajuda de Rosamaria Murtinho, Beyla Genauer, Tônia Carrero, Nicette Bruno, Nathalia Timberg, para ser modelada por Bibi Ferreira. Mas daí a concluir que a lenda é verdadeira apenas a partir da minha trajetória é um tanto quanto pretensioso...
Entretanto, nessa travessia de pontes entre o sacro (o mundo acadêmico) e o profano (o lado prático) que se transformou a minha vida recebi um convite para escrever um artigo sobre Bibi Ferreira, para um livro intitulado A mulher e o teatro brasileiro do século XX.
Convite irrecusável por vários motivos e de cara cito três : sou especialista em Bibi na prática e na teoria, a publicação conta pontos importantíssimos para os novatos na vida acadêmica e principalmente porque, segundo a organizadora do livro, Ana Lúcia Vieira de Andrade, ele é parte de um projeto desenvolvido sob a supervisão de Ana Maria Bulhões Carvalho, no departamento de teatro da Unirio que busca "investigar o lugar da mulher como produtora, atriz, empresária e dramaturga no teatro brasileiro do século XX para refletir sobre a idéia, tão comum tanto no meio artístico quanto no universo acadêmico, de que o teatro brasileiro, principalmente o do século XX, é um matriarcado".
Ou seja, o que me atraiu mesmo foi a possibilidade de participar da confirmação da lenda do "teatro matriarcal brasileiro".
Na verdade, já no artigo introdutório, Ana Lúcia Vieira de Andrade discute diretamente a questão do matriarcado e a sua posição é de que as mulheres realmente ocupam, no espaço visível da cena, lugar privilegiado.
Mas de forma paradoxal, apesar da intensa participação feminina o teatro brasileiro do século XX não é "um teatro muito aberto às questões femininas ou feministas, pois as mulheres do Brasil em geral e, por conseguinte, as atrizes, pouco se identificavam com as lutas das européias e norte-americanas por uma sociedade mais igualitária em termos de relações de gênero. Tais considerações não faziam parte da agenda delas, mais voltada, muitas vezes, para questões relacionadas à própria sobrevivência."
Segundo Ana Lúcia, as nossas atrizes ocupam um espaço na cena pública, mas apesar do número de personalidades femininas estelares, o discurso que atravessa o século não demonstra preocupação em pensar de maneira mais profunda o lugar da mulher. A trajetória dos ícones femininos de nosso teatro, relatadas no livro, comprova que, mesmo sem o discurso, essas mulheres contribuíram, através da qualidade e do rigor de seus trabalhos, para que o público pudesse apreciar uma imagem positiva, de êxito, do chamado sexo frágil no espaço público. Tomando como exemplo essas histórias de coragem, luta e sucesso, as mulheres brasileiras sentiram-se mais fortalecidas a reivindicar para si mesmas uma parcela desse êxito adquirido fora do universo da família e do lar.
Para falar de mulheres, Ana Lúcia recorreu a mulheres: Flora Sussekind, Tania Brandão, Maria Thereza Vargas, Maria Helena Kühner, esta colunista aqui e outras mais. E não hesitou em pedir a colaboração de alguns homens. Sérgio Fonta, Sérgio Britto e André Valli marcam presença no livro... Com a contribuição de todos, ela conseguiu traçar um perfil da trajetória de Bárbara Heliodora, Bibi Ferreira, Dercy Gonçalves, Dulcina de Moraes, Fernanda Montenegro, Marília Pêra, Maria Clara Machado, Maria Della Costa, Maria Jacintha, Eva Todor, Júlia Lopes de Almeida, Tônia Carrero, Virgínia Lane, Lúcia Coelho, Maria Adelaide Amaral, Consuelo de Castro, Leilah Assunção, Ísis Baião, Maria Helena Kühner e Bia Lessa.
Tudo isso me fez lembrar de uma entrevista de Bibi Ferreira, datada de outubro de 1976, concedida ao Jornal do Brasil e não publicada, onde ela dizia que ninguém contribuiu mais para a evolução do nosso teatro do que a atriz brasileira. Diretores, autores, cenógrafos podem ter dado contribuição igual; maior, não. E ela cita alguns nomes de mulheres com as quais ela conviveu, e que viu trabalhar e lutar: Cacilda Becker, Dulcina, Mme. Morineau, Fernanda Montenegro, Dercy Gonçalves, Alda Garrido, Tônia Carrero, Glauce Rocha, Maria Della Costa, Tereza Rachel, Eva, Marília Pêra...
Segundo Bibi, cada uma dessas mulheres contraiu dívidas, responsabilidades sociais, andou o Brasil inteiro com suas companhias e tem colocado no palco, nas últimas décadas, os problemas da condição feminina em geral e da mulher brasileira, em particular.
Penso em Dulcina de Moraes, mambembeira de primeira hora, que não pensou duas vezes em aplicar tudo o que ganhou na vida na construção de uma escola de teatro, por acreditar que o futuro da profissão de ator passava pelo exercício e aprendizado da técnica. Dulcina foi mais longe, trocou os palcos do Rio de Janeiro pelas terras vermelhas de Brasília no início dos anos 70 e a Fundação Brasileira de Teatro que abriga a Faculdade de Artes Dulcina de Moraes a duras penas mantém vivos os ideais de Dulcina, cujo centenário de nascimento em 2008 espero não ver passar em branco.
Penso em Bibi Ferreira e Tônia Carrero. Às vésperas de completar 85 anos, as duas ainda estão em plena atividade. Bibi estréia dia 10 de maio Às favas com os escrúpulos e Tônia está em fase de "captação de recursos" para montar Um barco para o sonho...
Penso em Maria Della Costa que após perder seu companheiro de vida e de teatro, meu primeiro grande mestre Sandro Polloni, encontrou em Paraty o seu refúgio, e fez do Hotel Coxixo o palco para expor parte da sua vida e de sua obra, uma vida dedicada ao teatro brasileiro... Maria que aos 18 anos, se dizia cansada de ser bonita, continua linda, mas cansou das batalhas para estar em cima de um palco...
Penso em Nair Bello que se despediu dos palcos da vida essa semana...
Essas mulheres, e tantas outras, não têm sido, apenas, artistas. Têm sido, também, líderes, mulheres de iniciativa; ajudaram a inovar o espetáculo brasileiro, revelaram tendências. Num teatro descapitalizado, sem empresários, nenhuma delas se deu ao luxo de ser a star, deitada num sofá, tomando champagne. Acho que num país mais civilizado, qualquer uma dessas atrizes seria tratada como pioneira, como heroína.
Mas Bibi diz que aqui no Brasil "se ficarem um ano sem fazer papagaio em banco para montar seu espetáculo, simplesmente deixam de existir. Com a responsabilidade que elas têm, são obrigadas a fazer uma grande interpretação por ano, quer chova ou faça sol."
Trinta anos depois, na era do patrocínio, com a instauração das leis de incentivo e da política teatral subsidiada pela iniciativa privada, o idealismo do depoimento de Bibi Ferreira perdeu um pouco a sua força.
Mas a história dessas mulheres reunidas num só livro é motivo de orgulho para todas as mulheres desse Brasil terceiro mundista e machista, afinal, mesmo na França, Ariane Mnouchkine ao se impor como diretora, e que diretora, ainda é considerada como "o maior homem vivo do teatro francês".
Terra Magazine
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Arquivo pessoal Tônia Carrero/Reprodução
Tônia Carrero e Nicette Bruno no filme Querida Suzana...
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» A influência francesa em nossas mesas