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Segunda, 23 de abril de 2007, 08h03

Para o bem ou para o mal

Fernando Eichenberg

Domingo de sol na França, céu azul, 25°C. Parques, margens do rio Sena e terraços de cafés repletos. E filas nos locais de votação. Por vezes, cerca de 45 minutos de espera. O índice de participação no primeiro turno da eleição presidencial francesa atingiu 84,8% (o mais alto desde 1974). Depois da irresponsabilidade no pleito de 2002 - quando colocaram o mandarim da extrema-direita Jean-Marie Le Pen no segundo turno contra Jacques Chirac -, de muitos debates existenciais sobre o declinismo do país e a desconfiança nos políticos, os eleitores franceses retornaram em massa às urnas. Já era hora.

Pela primeira vez é disponibilizado em uma eleição presidencial o voto eletrônico. Na France profonde, muitos prefeitos recusaram o aparelho, com medo de fraude. Um eleitor diz que se enganou de botão. Na hora, a mão escorregou e apertou o de baixo. Philippe de Villiers, candidato do "patriotismo popular", também não gostou da maquininha, que definiu como "voto do acaso". Nada como a velha e boa cédula, que se vê descendo pela urna transparente. Um voto eletrônico tragado por chips de última geração quem vai saber aonde vai parar? A guilhotina era mais eficiente, devem pensar alguns mais nostálgicos e saudosistas.

Às 18h, já se sabe quem vai disputar o segundo turno. Mas, por lei, a mídia está impedida de divulgar qualquer resultado até as 20h, horário final da eleição. Multa de até 75 mil euros para quem desrespeitar a regra. Blogueiros rebeldes que pretendiam burlar o rígido controle e anunciar as primeiras estimativas voltaram atrás. A desistência saturou o tráfico de acesso aos sites de mídia e blogs estrangeiros que prometeram ignorar o embargo.

"Nós já sabemos quem venceu as eleições na França, mas não podemos informar", diz, às 18h30, cheio de si, Patrick Poivre d'Arvor, apresentador vedete do canal TF1. No momento tão esperado, os principais canais de tevê fazem a contagem regressiva dos segundos: "15, 10, 5, 4, 3, 2, 1, 0!". E aparecem na tela os retratos sorridentes de Nicolas Sarkozy e Ségolène Royal, os duelistas do segundo turno. O primeiro, da União por um Movimento Popular (UMP), da direita. A segunda, do Partido Socialista (PS), de esquerda.

Quem esperava a surpresa do tertius centrista François Bayrou ou o repeteco extremista de Jean-Marie Le Pen se decepcionou. A França voltou ao velho e bom debate direita-esquerda, mesmo que, por vezes, os candidatos de um e outro campo se confundam nos seus discursos. Mas, enfim, há diferenças.

Sarkozy prega a ruptura radical com o modelo do Estado de Bem-Estar Social francês e se diz um liberal a favor da "moralização do capitalismo", da flexibilização no emprego, do corte de impostos e contra a lei de 35 horas de trabalho semanais, bandeira dos socialistas. Nas questões de segurança, defende a tolerância zero com a delinqüência e a criminalidade. Promete rigor no combate à imigração e na expulsão de imigrantes ilegais.

Ségolène defende reformas no Estado assistencialista francês, mas sem o radicalismo proposto por seu adversário. Contra o "capitalismo moderno" de Sarkozy, se diz partidária de um "socialismo do real", capaz de manter a "ordem justa" sem cair em um "liberalismo desenfreado", mas também liberto de dogmas e tradições da esquerda. Prefere falar em "justiça" e "democracia social" do que em práticas repressivas para combater a delinqüência e a criminalidade. E promete estudar caso a caso a expulsão de imigrantes clandestinos.

"On va gagner, on va gagner" (vamos ganhar, vamos ganhar), gritam os militantes de Sarkozy, imitando o canto da seleção francesa campeã no Mundial de 1998. "Ségolène presidente", bradam os partidários socialistas diante de sua sorridente candidata. O militantes de Nicolas Sarkozy utilizarão todos os argumentos para conquistar os votos de François Bayrou e de Jean-Marie Le Pen. Os partidários de Ségolène, certamente, repetirão a exaustão o slogan "tout sauf Sarkozy" (tudo menos Sarkozy) até o embate final.

Na largada, segundo a pesquisa Ipsos feita no domingo, dia da votação, o candidato da centro-direita está em vantagem: venceria por 54% a 46% no segundo turno. A pesquisa revela ainda que os votos do eleitorado de François Bayrou seriam partilhados entre os dois candidatos, enquanto 75% dos eleitores de Jean-Marie Le Pen votariam em Sarkozy.

Entre 12 candidatos, os franceses escolheram dois. No próximo dia 6 de maio, restará apenas um. Seja qual for o eleito, será o fim do chiraquismo e o começo de uma nova era política para a França. Para o bem ou para o mal.


Fernando Eichenberg, jornalista, vive há dez anos em Paris, de onde colabora para diversos veículos jornalísticos brasileiros, e é autor do livro "Entre Aspas - diálogos contemporâneos", uma coletânea de entrevistas com 27 personalidades européias.

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Cristophe Ena/AP
Eleitor vota no primeiro turno da França

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