Terra Magazine

 

Terça, 24 de abril de 2007, 08h07

Neonazistas voltam a atacar pela internet

Felipe Corazza Barreto

Os defensores da "supremacia branca" no Brasil - sim, eles existem - estão de volta à ativa pela rede mundial de computadores. Com dois sites no ar e uma loja virtual de produtos que pregam a intolerância, os neonazistas tupiniquins voltaram a ameaçar o diretor da agência de notícias Afropress, Dojival Vieira.

A agência, que segue as Resoluções da III Conferência Mundial contra o Racismo a Xenofobia e a Intolerância da ONU, denunciou em 2005 os ataques de Marcelo Vale Silveira Melo, que se escondia por trás do pseudônimo "DR0K3D, o justiceiro" para espalhar mensagens de racismo e xenofobia pela rede.

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A Afropress recebe, desde então, seguidas ameaças e sofre com ataques de "hackers" que tiram o site do ar. "Hoje mesmo recebi mais uma ameaça em meu email", afirmou Dojival, em entrevista a Terra Magazine na segunda-feira. Leia aqui a íntegra da entrevista.

A mensagem: "Macaco sujo, quando é que você volta para a África?". Remetente: volta@prafloresta.org. Os emails, segundo Dojival, são freqüentes. Ameaça recebida em 2005: "Vou mostrar do que sou capaz. Você tem até o próximo sábado para tirar a agência do ar". Outra mensagem: "Você e sua ONG são negróides que necessitam ser urgentemente exterminados. Lugar de negro é no presídio, não na Universidade. Eu sou o skinhead que vai te matar, seu crioulo de merda. Vais morrer, macaco".

Hoje, Marcelo está no banco dos réus. O Ministério Público Federal acatou denúncia contra o rapaz baseado na lei 7.716, que, em 1989, tirou o racismo da categoria de "contravenção" e o transformou em crime inafiançável. É crime, segundo o artigo 20: "Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Pena: reclusão de um a três anos e multa".

Insistindo no crime

Pelo menos dois sites que fazem apologia à "supremacia branca" e outros absurdos dos neonazistas brasileiros continuam no ar na internet.

Um dos portais é o Valhalla88. O nome faz referência a um castelo da mitologia nórdica - Valhalla - para onde iriam os guerreiros mortos em combate. O número, 88, é referência dos neonazistas do mundo todo para a repetição da oitava letra do alfabeto, o "H". HH, acrônimo para "Heil Hitler".

A apresentação define o site como "O mais ativo site NS da América do Sul!". "NS", nacional-socialista, nazista: "Procuramos ser arianos honrados e virtuosos e, além da propaganda política, lutamos dia a dia para alcançar, pelo mérito, postos-chave na sociedade. Somos só a semente. Nosso dia chegará".

O site White Power São Paulo oferece material semelhante ao do Valhalla88. Além disso, tem uma loja virtual para vender camisetas, filmes, livros e outros itens com temática nazista.

O registro do endereço, em um servidor norte-americano, está sob o número E1C356C79CF0F0FD e em nome de um certo Richard Sammoel Schnauzer. O email e o endereço fornecidos para o registro são falsos.

A loja também oferece uma assinatura do "Der Stürm", jornal nazista em português, que tem o mesmo nome do principal periódico do III° Reich na Alemanha. Em fevereiro deste ano, o White Power São Paulo também promoveu um "concurso de cartoons anti-semitas".

A loja usa o sistema de vendas online oferecido pela osCommerce - servidor de código aberto. A reportagem de Terra Magazine perguntou ao responsável pela osCommerce sobre a venda de material nazista por meio do sistema. Quatro mensagens foram enviadas para o administrador do endereço. Não houve resposta.

Clientes

Um dos supostos compradores da loja virtual neonazista é um adolescente de São João do Oeste, em Santa Catarina. Uma rápida busca na rede mostra o usuário como dono de um fotolog - site pessoal de imagens. Na página principal, uma cruz celta - símbolo de origem antiga, mas usada posteriormente por grupos de extrema direita. Uma das mensagens, datada de 18/09/2005, é encerrada com a assinatura WPWW, que pode ser o acrônimo de White Power World Wide, organização que prega supremacia branca no mundo.

No site de relacionamentos Orkut, um perfil do rapaz, que comprou uma camiseta com o símbolo e os dizeres do "White Power World Wide", está inscrito nas comunidades "Revisionismo histórico", "Holocausto, judeu ou alemão?". A comunidade em homenagem ao rapaz pergunta: "Você gosta dele por quê?". Uma das opções: "Porque ele é nacional-socialista".

O jovem também faz parte das comunidades "Ervalzinho comanda" e "Os CDF's também amam". É a "raça-pura" tupiniquim. A lei 7.716 também enquadra esses sites. Primeiro parágrafo do artigo 20: "Fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo. Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa". Parágrafo segundo: "Se qualquer dos crimes previstos no caput é cometido por intermédio dos meios de comunicação social ou publicação de qualquer natureza: reclusão de dois a cinco anos e multa".

 
Reprodução
Site White Power: Ódio e crime "made in Brazil"

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