Terra Magazine

 

Sexta, 27 de abril de 2007, 08h02

José Rainha entra na onda do biodiesel

Daniel Bramatti

Em vez de Abril Vermelho, energia verde. Em vez de invasão de terra, seqüestro de carbono. Em vez de protestos furiosos, pinhão manso. José Rainha, considerado um dos mais radicais líderes sem-terra, deixou momentaneamente o confronto de lado e participa de uma maratona de negociações com órgãos dos governos federal e paulista. Ele busca um financiamento de cerca de R$ 50 milhões para implantar um pólo de biodiesel no Pontal do Paranapanema, no oeste de São Paulo.

Segundo a edição de quinta-feira do jornal "O Estado de S. Paulo", a dedicação ao projeto foi o principal motivo para a ausência de Rainha nos atos do chamado Abril Vermelho, nome que os sem-terra dão à tradicional mobilização que fazem nesta época do ano.

No simbólico dia primeiro de maio, Rainha estará à frente de um seminário para cerca de 3.000 assentados sobre as vantagens do plantio do pinhão manso em pequenas propriedades. A planta nunca mecereu muita atenção até a explosão da onda da bioenergia: seus frutos são os que mais rendem óleo por hectare.

Segundo o líder sem-terra, o cultivo, mesmo em uma pequena fração de cada assentamento, geraria uma renda mensal de R$ 1.200 para cada família. E isso com um financiamento que, dividido por todos, não chegaria a R$ 7.500 por família. É essa matemática que está sendo analisada por bancos e órgãos federais.

Leia a seguir trechos de entrevista de Rainha a Terra Magazine, concedida por telefone no final da tarde de quinta-feira.


Vocês estão encarando o biodiesel como saída para viabilizar a pequena propriedade?
O Pontal do Paranapanema tem 6.800 famílias assentadas e não tem projeto de desenvolvimento nos assentamentos. Apostamos no pinhão manso como matéria-prima de uma agroindústria futura de biodiesel. Discutimos esse projeto com o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, a Petrobras, o Ministério do Desenvolvimento Agrário, o Ministério do Meio Ambiente, o Incra, o Instituto de Terras. Buscamos parcerias em todos os sentidos para conseguir do governo federal um aval definitivo e para que, com os recursos, comecemos o plantio de pinhão manso ainda neste ano. Mas é um projeto para 10 anos, de aproximadamente R$ 50 milhões.


E o pinhão manso foi escolhido por quê?
Porque é uma das melhores opções. Tem um cliclo que dura 40, 50 anos. A quantidade de óleo dele é muito maior que a da mamona e de outras culturas. Ele devolve nutrientes ao solo. Ele serve para seqüestrar carbono da atmosfera. E tem que colher com a mão. Não é uma cultura para grandes empresas, que colocam máquinas. É uma cultura adequada à agricultura familiar.


Que retorno isso pode trazer, segundo o projeto de vocês?
Leva três anos para começar a produção. Em três anos, vai dar em média R$ 1.200 por mês por família, num alqueire de terra, ou dois hectares. Cada assentamento tem 18 hectares. No restante da área, vamos continuar com o leite, a mandioca, o milho e o feijão. Vamos usar só dois hectares por família para o pinhão manso. Não será uma monocultura, vamos trabalhar com o pinhão manso dentro da questão da biodiversidade.


Quem vai participar do seminário?
Esperamos 3.000 pessoas ou mais. Teremos a presença do pessoal das universidades, da Petrobras, pessoas que podem explicar as vantagens do biodiesel para a gente. E também teremos prefeitos, vereadores e deputados da região.

 
Agência Brasil
A idéia de José Rainha Jr., segundo ele próprio, poderia gerar renda mensal de R$ 1.200 a cerca de 6.800 famílias assentadas

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