
Maria Falcão
Quem não acredita em crendice popular, deveria. Se eu me ligasse mais nessas coisas, talvez fosse poupada de várias inconveniências, como crises de soluço intermináveis (insisto em chupar manga e tomar leite), diarréias constrangedoras (adoro tomar um solzinho na praça em frente ao escritório, sentada no chão quente) e outros problemas, por ter hábitos similares e tão ignorantes quanto esses. Ainda bem que ao menos o instinto de sobrevivência permanece inabalável em mim e me impede de fazer coisas do tipo brindar sem beber ou beber sem brindar!Mas quem diria que, aos 30 e tantos anos de meu Deus, eu seria ingênua a ponto de contar estrela! Saí com um gatinho daqueles que, digamos, têm pouco a dizer, e caí na besteira de, para quebrar o silêncio, bancar a romantiquinha. Como se não bastasse ficar horas olhando estrela cadente, tinha lá eu que inventar de contar constelação? Um torcicolo já não estava de bom tamanho para uma única noite? Agora estou aqui tendo que lidar com esse quinto elemento, essa verruga na minha pele, e bem no meu dedo indicador que vive em evidência! Só espero que não aconteça comigo como com uma amiga, que a mão mais parecia uma daquelas luvas de massagem de tantas protuberâncias que adquiriu em poucos meses.
Bom, tive que ir ao "deeerrrma". Antes de contar dessa consulta, deixa eu explicar o que seria o termo deeerrrma. Isso eu aprendi com uma amiga dermatologista ao encontrar outra da mesma especialidade. Estávamos num almoço e, quando uma avistou a outra, o seguinte diálogo se deu: "Nossa! Você está cada vez mais deeerrrma!! Cada vez mais loira, alisada e cada vez mais branca!" Ou seja, no mundo das deeerrrma, a vocação parece ter parâmetros estéticos.
Voltando à consulta, ir ao dermatologista não foi tão simples assim. Não podia pagar a fortuna que cobra um deeerrrma por causa de uma simples verruga, né? Na era dos tratamentos estéticos, será que algum deeerrrma ainda se lembra de que as verrugas existem? Por via das dúvidas, fui pela lista do meu plano de saúde.
Achei um que me tinha um nome menos deeerrrma, ou seja, com poucas consoantes, e lá fui eu, com perguntinhas básicas: Por que eu? Qual a relação entre as estrelas e as verrugas? Sou uma condenada astral?
Tive sorte, até. O médico que me atendeu foi ótimo e tinha poucos indícios de ser um deeerrrma convicto, de modo que me deixou bastante confiante em relação aos seus conhecimentos sobre verrugas.
Fiquei sabendo que, pelo menos nesse quesito, a sabedoria popular se equivocou. As verrugas têm como causa um vírus conhecido como papilomavírus humano (não as estrelas!) e é transmitido provavelmente por contato. Desde um simples apertar de mãos até uma relação sexual. Também é possível a transmissão através de objetos. Até mesmo pequenas lesões da pele permitem que o vírus penetre nas células e provoque uma alteração que estimula a reprodução celular de uma forma anormalmente acelerada. Esse efeito, por sorte, é temporário, o que explica a permanência autolimitada das verrugas e seu desaparecimento após certo tempo. O tempo compreendido entre o primeiro contato com o agente causal e o desenvolvimento de lesões visíveis a olho nu parece ser de alguns meses. Também fiquei sabendo que algumas pessoas desenvolvem verrugas dependendo da frequência a que se expõem ao vírus. Ocorrem mais facilmente caso a pele tenha sido de alguma forma danificada, o que explica a grande frequência de verrugas nas crianças que roem unhas ou ferem suas cutículas. Assim como acontece na gripe, algumas pessoas são mais propensas a contrair o vírus que causa a verruga do que outras. Essas pessoas têm geralmente um sistema imunológico mais frágil ou até, transitoriamente, debilitado.
Pra minha surpresa, existem vários tipos, mas os mais frequentes são as verrugas vulgares, as plantares, as planas e as genitais. As vulgares usualmente crescem em volta das unhas, nos dedos e no dorso das mãos. As plantares, como o nome já diz, ocorrem principalmente na sola dos pés. Essas verrugas, diferentemente dos outros tipos que em geral não apresentam sintomas, podem causar dor intensa, como se fossem pedras no sapato. As planas são menores e mais macias que os demais tipos. Elas tendem a crescer em grande número ao mesmo tempo e podem ocorrer em qualquer região do corpo. Por último, as verrugas genitais que também são chamadas de condilomas. Essas se tornaram comuns e problemáticas para a população adulta mundial, à medida que os casos de infecção pelo HPV, transmitido por via sexual, passaram a ser mais frequentes. Podem ocorrer na genitália, dentro da vagina, no colo do útero, ao redor do ânus ou no reto.
Calma que tô acabando!
A prevenção é de difícil execução, sendo raro o adulto que já não tenha apresentado algum tipo de verruga. Evitar contato com o vírus é a única forma. Com relação ao tratamento, nas crianças as verrugas geralmente desaparecem espontaneamente sem a necessidade de tratamentos, após o período de alguns meses ou anos. Entretanto, já que as verrugas podem se disseminar para outras pessoas ou para outras regiões do corpo, é uma atitude sensata a de se tratar crianças. Já nos adultos, as verrugas não costumam desaparecer tão fácil ou rapidamente, e podem ainda evoluir com complicações, como o câncer de colo de útero nas verrugas genitais em mulheres. Por razões como essa, todos os adultos com verrugas devem procurar o médico para avaliar a necessidade de tratamento. Os dermatologistas podem indicar uma grande variedade de tratamentos, dependendo da idade e do tipo de verruga do paciente.
Quando saí do consultório já era noite. Fui contando estrela pelo caminho, até chegar em casa (gente boa da cabeça que nem eu tem dessas manias de testar hipóteses até o limite!), pra ter a prova última de que eu estava em boas mãos e que eu podia confiar no tratamento indicado pelo médico. À noite, como não podia deixar de ser, tive vários sonhos. Em um eu era engolida por uma verruga gigante. No outro, eu era a verruga gigante...
Terra Magazine
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AP
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