
Antonio Luiz M. C. Costa
Mencionamos algumas teorias sobre a origem das línguas hoje faladas pela humanidade em um artigo anterior, As Superfamílias Linguísticas. Deixamos, porém, de abordar um grupo de linguagens menos conhecidas, mas muito interessantes: as línguas artificiais, cuja invenção e desenvolvimento é um fenômeno característico da modernidade e pós-modernidade.Como seria de se esperar, a história dessas línguas está muito relacionada à evolução da cultura ocidental desde fim da Idade Média. Muito esquematicamente, pode-se dividi-la em três épocas. A primeira, chamaremos de Idade Clássica ou da Razão, na qual se quis criar um idioma que, como a simbologia matemática, expressaria com precisão uma racionalidade universal que, isenta de paixões, substituiria as línguas naturais para por em acordo toda a humanidade, dividida desde o episódio mítico da Torre de Babel. O sonho de demoli-la esboçou-se nos primórdios da Renascença, culminou no século XVII e inspirou a maioria das línguas artificiais propostas até o início do século XIX. Foi acarinhado, ou pelo menos considerado, por alguns dos maiores pensadores do seu tempo, inclusive Francis Bacon, Comenius e Gottfried Leibniz.
A segunda poderia ser Idade Moderna, do Cosmopolitismo ou do Internacionalismo: o ideal de uma língua perfeitamente lógica foi deixado de lado, assim como a pretensão de substituir inteiramente as línguas internacionais. Queria-se apenas uma "língua auxiliar" para facilitar a comunicação e o entendimento entre as diferentes nações que disputavam o domínio do mundo de maneira cada vez mais violenta - um elevador para subir e descer a Torre com facilidade. Embora tenha havido alguns precursores, o primeiro marco importante é a invenção do Volapuque em 1879 e seu ponto alto foi a criação do Esperanto, em 1887. Como veremos, muitos desses projetos continuaram a ser desenvolvidos nas décadas seguintes, mas o movimento perdeu ímpeto na segunda metade do século XX.
A terceira pode ser chamada Idade da Fantasia ou Pós-Moderna, cujos primórdios talvez possas ser datados de 1954, ano da publicação de O Senhor dos Anéis. O filólogo J. R. R. Tolkien recheou seu romance de palavras e alusões a idiomas fantásticos, dois dos quais - o Quenya e o Sindarin, falados por elfos - foram dotados de vocabulário e gramática bem desenvolvidos.
Agora não se trata de demolir a velha Torre de Babel, mas de construir a seu lado mais uma, se possível mais bonita ou curiosa. Com a valorização da diversidade e o abandono do projeto de uma racionalidade universal pelo pensamento pós-moderno, a maior parte do trabalho de criação de línguas artificiais ganhou caráter artístico ou lúdico. Procurou expressar o ponto de vista de uma cultura específica, freqüentemente imaginária e tão exótica quanto possível, ou tornou-se um hobby sofisticado, assim como construir aeromodelos ou decifrar problemas de xadrez.
Comecemos, porém, pela pré-história da construção de línguas artificiais. No ocidente da Idade Média e início da Idade Moderna a maioria daqueles que refletiam sobre o tema pensavam ser o hebraico a mais perfeita das línguas, pois sua leitura literal do Gênesis implicava que essa fora a língua falada entre Deus e Adão no Paraíso (e, claro, entre Eva e a serpente) e vários tentaram demonstrar que todas as outras línguas derivavam do hebraico.
Até que, com a ascensão do nacionalismo e do protestantismo - Martinho Lutero, anti-semita, já afirmava ser o alemão a língua mais próxima de Deus -, cada um começou a se esforçar para provar que a sua própria língua havia sido a de Adão: o flamengo de Antuérpia, segundo Jan van Gorp em 1569, alemão para Georg Philipp Harshörffer em 1641, sueco na opinião de Georg Stiernhielm em 1671, o inglês de acordo com Rowland Jones em 1771. Houve também partidários do húngaro, do bretão e do polonês, até que a descoberta pelos europeus do sânscrito e sua comparação com as línguas ocidentais levou às hipóteses mais científicas sobre a origem das línguas, cujo desenvolvimento abordamos em A Genealogia das Línguas.
Exceto para os cabalistas, que continuaram fascinados pelo hebraico como língua mágica e divina, a língua do Antigo Testamento gradualmente perdeu seu encanto. Esoteristas e pretensos magos como John Dee julgaram-se capazes de criar ou descobrir alfabetos e palavras mais próximas da essência da realidade e supostamente dominá-la. A essência da magia consistiria em descobrir e usar o "verdadeiro nome" das coisas, que não necessariamente seria seu nome em hebraico. Na Monas Hieroglyphica (1564), Dee apresentou um alfabeto visual-geométrico totalmente inventado a partir de transformações de uma "mônada" primordial. Também mencionou em seus diários uma língua oculta que lhe teria sido revelada por anjos. O último a conhecê-la antes de Dee teria sido o profeta hebreu Enoque, razão pela qual essa língua - que soava um pouco semita, mas com gramática parecida com o inglês - veio a ser conhecida como "enoquiano".
A versão racionalista do mesmo sonho, porém, parece ter sido cogitada com clareza pela primeira vez pelo filósofo Francis Bacon, um dos inventores do método científico. Foi o primeiro a especular sobre uma língua capaz de substituir as línguas naturais - não porque fosse mais "natural" que as outras e suas palavras de alguma maneira correspondessem à essência das coisas, como pensavam os cabalistas que era o caso do hebraico ou Dee o de sua língua mágica, mas por simples convenção.
Segundo o filósofo e lingüista Umberto Eco, em A Procura da Língua Perfeita, não é por acaso que a idéia partiu das Ilhas Britânicas: havia nisso também uma motivação religiosa, a da recusa do latim, que ainda era a língua geral dos eruditos de toda a Europa Ocidental, mas também era a língua da Igreja Católica - além de ser particularmente difícil para os ingleses.
Um dos eixos do Novum Organum, a obra mais importante de Bacon, é a destruição dos idola, idéias falsas que resultam da nossa natureza como espécie ou indivíduo, dos dogmas da tradição ou, como importa mais ao tema deste artigo, da língua. A linguagem induz a idéias falsas ao dar nomes a coisas que não existem ou mal definidas, de sentido impreciso. Pensava em alguma maneira de criar signos mais precisos, capazes de classificar a realidade de maneira mais exata independentemente da mediação de uma língua falada, como fazem os signos matemáticos e como, acreditava (erroneamente) Bacon, faziam também os ideogramas usados por chineses e japoneses. Em 1622, ele compôs um Abecedarium Novum Naturae no qual tentava compor um índice de todo o saber de seu tempo, uma espécie de dicionário de idéias que classificava princípios elementares e seus movimentos pelas letras do alfabeto grego: alfa para "denso e raro", épsilon para "volátil e fixo", e assim por diante.
Tido como fundador da didática moderna, certamente um dos maiores educadores do século XVII, o tcheco Jan Amos Komenský, mais conhecido como Comenius, fez uma dura crítica dos defeitos das línguas naturais no seu Pansophiae Christianae liber III (1640) e propôs uma reforma lingüística para eliminar os adornos retóricos e ambigüidades e fixar com clareza o sentido das palavras, dando um só nome para cada coisa. Na Via lucis, escrita por volta de 1641, quando fugia das lutas fratricidas da Guerra dos Trinta Anos para Londres, esse sonho evoluiu para uma utopia de um Estado mundial perfeito no qual se falaria uma língua filosófica universal, a Panglóssia. A idéia de língua universal recebia seu primeiro nome, mas não mais que isso: Comenius não tentou criá-la de fato. No próximo artigo, trataremos das primeiras tentativas de tornar esse sonho real.
Terra Magazine
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Reprodução
Pintura de Pieter Bruegel simboliza o sonho de recuperar a unidade perdida em Babel
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