Terra Magazine

 

Quarta, 2 de maio de 2007, 14h14

Crônica de uma revolução: Digg se curva às massas

Daniel Bramatti

Uma revolução virtual ocorrida neste 1º de maio já tem lugar garantido na história da liberdade de expressão na internet. O Digg, site de notícias cujo combustível principal é a chamada "sabedoria das massas", se transformou em alvo da ira das massas - e teve de se render a ela - ao tentar evitar a publicação de uma informação.

Antes de mais nada, uma pequena introdução. Espécie de símbolo da chamada web participativa, o Digg é inteiramente editado por sua comunidade de usuários registrados - que reúne nada menos que 1 milhão de pessoas. Funciona assim: um leitor encontra ou escreve algo interessante e publica no site. O texto entra em uma "fila" de notícias, onde passa pelo crivo de milhares de olhos e vai galgando lugares à medida em que recebe votos. A "primeira página" do site é a ponta desse funil virtual, à qual só chegam os itens considerados mais relevantes pela comunidade. Nada mais democrático, certo?

Pois todo esse sistema foi colocado em xeque quando um usuário publicou um texto com o título "Espalhe este número. Agora." O número em questão é um código, descoberto por algum hacker, que permite a quebra do sistema de criptografia do HD-DVD, novo formato de mídia que tenta se firmar como o sucessor do DVD. O sistema antipirataria do HD-DVD impede que ele seja copiado ou tocado por computadores que usam o sistema operacional Linux. Ou melhor, impedia, até que o código começasse a circular pela internet.

Em pânico, os fabricantes procuraram impedir a disseminação dos polêmicos números. Vários sites receberam notificações sobre possíveis processos judiciais em caso de divulgação. O Digg foi um deles.

Ao detectar o texto com o código, os administradores do site decidiram apagá-lo. A medida detonou uma rebelião de usuários, inconformados com a interferência da "cúpula" e com a quebra da regra número 1 da comunidade: o leitor é quem decide. A polêmica se disseminou e acabou provocando a manifestação, via voto, de pelo menos 50 mil usuários - sem contar os que acompanharam o quebra-pau sem se pronunciar. Uma assembléia sobre censura e liberdade de expressão que, se ocorresse no mundo real, lotaria o estádio do Pacaembu e ainda deixaria milhares do lado de fora.

Minutos depois de retirado do ar, o texto foi republicado por outro usuário, com o título "Espalhe esse número. De novo", com a observação "faça essa notícia chegar à primeira página - na primeira vez, ela foi removida". A enxurrada de votos não demorou - eles já estavam em quase 16 mil quando os administradores, de novo, apagaram a mensagem e os comentários relacionados a ela. E algo mais: bloquearam também a conta do usuário responsável, impedindo-o de publicar novos textos.

A revolta chegou ao ponto de fervura. Mensagens atestando a "morte" do Digg naquele dia recebiam milhares de votos. Centenas de textos com o polêmico código pipocaram por toda parte - dezenas burlaram a vigilância dos administradores e chegaram à primeira página, antes de serem apagadas.

No início da tarde, o Digg se manifestou oficialmente. "Fomos notificados pelos detentores dessa propriedade intelectual (a proteção antipirataria do HD-DVD) de que a disseminação da chave criptográfica viola seus direitos. A fim de respeitar esses direitos e cumprir a lei, removemos as mensagens com o código. Concordando ou não com as políticas dos detentores da propriedade intelectual, o Digg, para sobreviver, precisa respeitar a lei."

Não adiantou nada. Os criadores do site, cultuados como heróis por grande parte da comunidade, passaram a ser acusados de se render a pressões corporativas por interesses financeiros - o Digg, fenômeno de audiência, é uma mina de dinheiro.

A batalha virtual durou mais oito horas até a vitória dos revoltosos, à noite. Em uma segunda mensagem, assinada por Kevin Rose, fundador do Digg, o site levantou a bandeira branca. Ou melhor, trocou de lado.

Numa atitude desafiadora - praticamente um convite a um processo judicial -, Rose exibiu o polêmico código de 32 caracteres no próprio título de sua nota e convocou os leitores a votar nela.

"Hoje foi um dia insano", escreveu o criador do site. "Tivemos que tomar uma decisão, e, para evitar um cenário em que o Digg pudesse ser interrompido ou desativado, decidimos obedecer e remover todas as notas com o código. Mas agora, depois de ver centenas de notas e milhares de comentários, vocês deixaram tudo claro. Vocês preferem cair lutando do que se curvar a uma companhia maior. Nós ouvimos vocês, e não vamos mais apagar textos ou comentários com o código e vamos enfrentar as conseqüências. Se perdermos, que diabos, pelo menos vamos morrer tentando."

Até o início desta tarde, o texto de Kevin Rose havia recebido os votos de 25.006 usuários - recorde dos últimos 365 dias. E, claro, havia chegado à primeira página.

(Atualização em 3 de maio: a revolução ganhou um hino - leia aqui)

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Reprodução
Três "posts" no site Digg sobre a polêmica em torno da decisão de impedir a publicação de um código

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