Terra Magazine

 

Sexta, 4 de maio de 2007, 08h16

Os 80 anos de um homem "imortal": Sábato Magaldi

Deolinda Vilhena

Na coluna anterior, A construção do matriarcado no teatro brasileiro, falei sobre a importância da mulher no teatro brasileiro no século passado. Na de hoje, provando imparcialidade, rendo homenagem a um homem, Sábato Magaldi. Esse "imortal", nascido dia 9 de maio de 1927, em Belo Horizonte, há anos ocupa a posição de mais importante crítico e historiador, verdadeira memória viva do nosso teatro, ao qual está direta ou indiretamente ligado há mais de cinco décadas.

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Há poucos meses presenciei uma cena familiar envolvendo Sábato Magaldi e sua neta Bianca, de 12 anos... Estávamos todos em Paris, num belo apartamento na esquina da rua de Rennes com o boulevard Saint-Germain, coração do Quartier Latin, em frente à igreja de Saint-Germain-des-Près...O assunto eram os ex-alunos famosos da Escola de Arte Dramática...Francisco Cuoco, Juca de Oliveira e Tarcísio Meira...Num canto da sala, Bianca "navegava" diante do laptop, aparentemente alheia à conversa. De repente virou-se e sem conter a admiração, perguntou: "Vô, você deu aula para o Francisco Cuoco?" Sábato responde positivamente. "Para o Juca de Oliveira?" e mais uma vez ele acena com um sim. "Para o Tarcísio Meira?" e ele gentilmente, sim... Ao que responde a neta, na linguagem de sua geração, "pô vô, cê tá podendo..." Foi uma gargalhada geral...

Na sua ainda inocente adolescência, Bianca avaliava a importância do avô amado, sem no entanto compreender a extensão de sua importância na história das nossas artes cênicas...

Esse apaixonado por teatro é na origem bacharel em Direito pela Universidade de Minas Gerais, da turma de 1949. Deixa Belo Horizonte para se instalar no Rio de Janeiro, onde ingressa na administração pública. É companheiro de trabalho de Cyros dos Anjos - quase meio século depois será eleito para a Academia Brasileira de Letras justamente para a cadeira por ele antes ocupada - no Departamento de Assistência do Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado. Inicia em seguida, e de forma simultânea, sua carreira de crítico teatral no Diário Carioca, entre 1950 e 1953.

Sábato recebe uma bolsa do governo francês e parte para uma temporada de dois anos em Paris, onde obtém o Certificado em Estética na Sorbonne, sendo aluno, entre outros, do grande Étienne Souriau.

Os anos 50 em Paris são marcados pela efervescência dos pequenos teatros da rive gauche. Neles, Sábato assiste à estréia de Esperando Godot e, em sua crítica para o Diário Carioca, reconhece a obra-prima de Samuel Beckett e assinala que acabara de presenciar um evento maior na literatura dramática mundial. Assiste às primeiras montagens dos textos de Eugène Ionesco e acompanha o nascimento do Teatro Nacional Popular de Jean Vilar. Usa sua responsabilidade intelectual não só para registrar a importância do momento vivido mas para torná-lo acessível ao leitor médio brasileiro.

Como disse Miguel Almeida, "usando como armas a lógica e o verbo, Sábato também fazia história, porque muitos críticos não perceberam em seu tempo o valor de certas obras, tratando assim de adiar um pouco a melhoria do tempo dos homens".

Ao voltar da França, aceita o convite de Alfredo Mesquita para vir atuar profissionalmente em São Paulo. Surge aí um detalhe importante na trajetória de Sábato. O fato de ter conquistado trânsito livre no Rio de Janeiro e em São Paulo, as duas praças mais importantes do teatro brasileiro, fez com que Sábato criasse uma ponte entre essas duas capitais. Entre elas se divide ainda hoje. Ponte essa que facilitou sua atuante participação na história pois ele sempre foi muito mais que mero observador.

Ocupando as atividades de repórter, crítico de teatro, historiador, ensaísta e professor, Sábato tornou-se referência e autor de obras fundamentais da historiografia teatral nacional, incentivando sua estabilização e suas transformações. Sua obra é leitura obrigatória para a compreensão dos fatos que marcaram a renovação e a consolidação do teatro nesse país.

Aproveito a ocasião para deixar um aviso aos alunos de artes cênicas: se na bibliografia de referência do seu curso de Teatro brasileiro não constar o nome de Sábato Magaldi, mude de escola... No mínimo exija uma revisão na bibliografia, até porque Sábato é a prova que didático e teórico podem não ser sinônimos de chato...

O que sempre me atraiu nos textos do Sábato foi o fato de conseguir entendê-los... Sábato me permitiu, desde os 12 anos de idade, entrar no mundo dos signos cênicos através de seus escritos e isso só foi possível porque, unindo rigor conceitual e ausência de pedantismo, ele estabelece perfeita fusão entre profundidade e simplicidade.

O que confirma Mariangela Alves de Lima em recente artigo onde ela explica o quê diferencia a obra de Sábato "nos livros de Sábato Magaldi, não existe aquela lassidão digressiva que prejudica boa parte da nossa (de outro modo valiosa) produção acadêmica". Talvez, por isso, eu o tenha eleito há 35 anos meu guru... Muito antes de sonhar em seguir uma carreira acadêmica!

Poderia tecer mil loas a Sábato Magaldi, meu grande e eterno Mestre, com M maiúsculo. Poderia transcrever seu curriculum vitae, a lista de prêmios e honrarias recebidas ao longo dessas oito décadas de vida, enumerar seus livros, artigos, ensaios mas na era da Internet uma simples busca no Google torna tudo disponível em minutos, basta dar uma olhada no site da Academia Brasileira de Letras, http://www.academia.org.br. O que eu queria mesmo com essa coluna de hoje é homenagear de forma carinhosa esse homem de inúmeras qualidades, falando daquela que mais me toca: a generosidade, sem a qual jamais se alcança a posição de Mestre dos mestres. Impossível ser um bom professor sem ser generoso.

Quando em 1997 decidi voltar aos bancos escolares fui procurar Sábato... Não o conhecia da universidade e sim da vida, porque embora pertença aos dois universos acadêmicos, Sábato não se confina, nem se amofina, ele vive... Nossos encontros se deram em estréias de amigos comuns, finais de noite nos bares da moda no Rio de Janeiro. Uma vez nos encontramos num show de Angela Ro Ro - minha comadre! - e confesso minha surpresa em vê-lo ao lado de Edla van Steen, dois intelectuais brasileiros de boa cepa assistindo a show da rainha do underground carioca no palco do Jazzmania... Eles moravam na mesma Rainha Elizabeth e pensei eu que, atraídos pela curiosidade, foram ver Ro Ro, que diga-se de passagem, comportou-se lindamente, registrando a presença do "nosso acadêmico". Sábato e Edla num gesto de delicadeza, desses que o tempo apagou na maioria das pessoas mas que eles cultivam como ninguém, passaram no camarim no final do show para parabenizar e confraternizar com a "maluquete de plantão", como muitos se referiam a Angela na época...

Lembro-me da audácia de ligar para a casa dele, num domingo à tarde... Ser produtora de Bibi Ferreira ajudava bastante determinados contatos. Fui recebida com carinho e respeito. Expliquei-lhe a minha "necessidade" de preparar um mestrado, visando um futuro doutorado na França, e disse que meu tema era inédito: a análise crítica da trajetória de Bibi.

Entusiasmado com o tema, Sábato disse-me exatamente como fazer para entrar no Departamento de Teatro da Escola de Comunicações e Artes da USP, mas declinou do convite para ser meu orientador. Como professor aposentado, ele não poderia receber novos orientandos. Mas, gentilmente, encaminhou-me à Fausto Fuser, que ao me receber disse que me aceitava pelo meu projeto, pela minha perseverança mas também pelas "mil ligações feitas por Sábato Magaldi" intercedendo a meu favor...

No momento de escolher minha banca de exame de qualificação, os funcionários da secretaria do departamento riram da minha cara ao ler o nome do Sábato entre os professores escolhidos. Achavam pretensão minha, me alertaram para o vexame: o professor Sábato não faz banca de qualificação. Não perdi a pose. Peguei o telefone, na própria secretaria, liguei para Sábato e fiz o convite. Ele aceitou. E deixei Anísio e Rob de queixo caído... Meses depois ele estava na minha banca de defesa de Mestrado... Elogiou o trabalho e destruiu meus erros de português... Quase morri de vergonha e penso que o revisor presente também.

Ao chegar em Paris, para o meu doutorado, jurei a mim mesma que o teria na minha banca da Sorbonne. Sábato é respeitadíssimo na França, considerado o maior pensador do teatro brasileiro, tendo sido professor na Sorbonne Nouvelle e na universidade de Aix-en-Provence.

Sábato e Edla estiveram por três vezes em Paris nos anos que lá vivi, o que nos aproximou ainda mais e me deu coragem para fazer o convite. Mas ele não quis aceitar. Nem o entusiasmo com o qual falávamos de Ariane Mnouchkine e o Théâtre du Soleil pareceu ser suficiente para conquistá-lo. Alegou muito trabalho. Dois livros a preparar... Tinha quase desistido.

No dia de imprimir os exemplares da minha tese para entregar oficialmente na universidade, ao imprimir as páginas de rosto, onde obrigatoriamente deveria constar o nome de cada um dos membros do júri, compreendi que ali estava a última oportunidade de contar com a presença de Sábato entre os "papas" dos teóricos de teatro que julgariam meu trabalho.

Apostei na minha cara de pau, na minha sorte e na generosidade de Sábato... Liguei para o Brasil, Edla atendeu, disse à ela o que estava pensando e ela me disse: "vou te passar pra ele, parece que ele está num bom dia..."

Ela tinha razão. Após consultá-la e confirmar que estariam em Paris na época da minha defesa, Sábato me disse "sim". Foi assim que eu tive a honra de recebê-lo na Sorbonne, onde 54 anos antes, ele também havia se diplomado, como membro do júri de defesa da minha tese de doutorado.

O caminho da Amazônia à Sorbonne foi longo. Não é todo dia que uma paraora lá defende uma tese. Não é todo dia que homens como Sábato Magaldi completam 80 anos. Mas no meu caso, estando diante de intelectuais brilhantes vi meu trabalho reconhecido. Meu Mestre tem menos sorte. Os homens que aqui governam não sabendo separar o joio do trigo, ainda não decretaram feriado no dia 9 de maio de 2007 e nem lançaram o selo comemorativo dos 80 anos de Sábato Magaldi. Meu consolo é que governos e governantes passam e Sábato Magaldi fica, seu nome está inscrito no panteão brasileiro. Falta agora que um dos meus futuros alunos escreva o trabalho definitivo sobre a sua obra que, para total espanto, ainda não mereceu um trabalho acadêmico. Coisas de um país que mais parece ficção...

Parabéns, Sábato e perdoai-os, eles continuam sem saber o que fazem...

Deolinda Vilhena é jornalista, produtora cultural, mestre em Artes pela ECA-USP, mestre e Doutora em Estudos Teatrais pela Sorbonne Nouvelle-Paris III
 
Pessoal/Reprodução
Sabato Magaldi, crítico e historiador de teatro há mais de 50 anos

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