Roberto de Sousa Causo
André Carneiro é o decano dos escritores brasileiros de ficção científica. Começou a escrever poesia na segunda metade da década de 1940, inserindo-se como um dos poetas mais respeitados da chamada "Geração de 45", e contos de FC a partir do final da década de 1950. Foi um dos destaques da Geração GRD, na ficção científica brasileira durante a década de 1960, ao lado de Rubens Teixeira Scavone, Fausto Cunha, Jerônymo Monteiro e Dinah Silveira de Queiroz, e é o autor do gênero com maior destaque internacional, entre nós, tendo publicado em mais de dez países.
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Terra Magazine - O que o livro representa, neste momento em particular?
André Carneiro - Representa seis anos de apaixonada criação literária. Depois que tive o acidente que diminuiu minha visão, mudei-me para Curitiba. Todos os contos foram lá escritos. Só me importei com sua profundidade, sua qualidade literária. Acredito que são os melhores de minha obra.
Como você avalia a importância da narrativa em prosa, na sua carreira?
Embora o poema seja a forma mais ambiciosa da criação literária, essa mesma ambição de recriar o mundo, tentar penetrar no mistério da existência, envolve também a minha criação em prosa. Nos meus romances e nos contos e novelas, a minha paixão e dedicação é a mesma, como se fossem filhos gêmeos.
Confissões do Inexplicável contém histórias que parecem ser mais pessoais, mais autobiográficas, do que outros livros de sua autoria.
Sim, isso é verdadeiro. Há mesmo dois contos nos quais essa verdade é explicita: metalinguagem onde o autor acaba aparecendo sem disfarces. Também em alguns contos, como em "Sem Memória", todo o clima de perigo e angústia foi uma transposição do que passei e sofri durante o golpe militar. No conto "Syrene", invento uma hipotética explicação do que aconteceu, durante o golpe, com o patriótico desfalque dado pelo apelidado "bom burguês", em nosso banco principal.
Um dos aspectos que se destacam em Confissões do Inexplicável é o impacto do período da ditadura militar, nas vidas de vários protagonistas. Comente isso e o impacto pessoal da sua atividade de resistência contra o regime militar em sua literatura.
Minha atuação pessoal (embora o perigo de morte fosse o mesmo) foi insignificante se comparada com a de uma pessoa com a qual havia uma ligação e que foi baleada, seqüestrou um embaixador, se apossou do célebre cofre do governador Ademar de Barros com três milhões de dólares por ele desviados etc.
A ética proíbe mais detalhes.
Em meu livro Crônicas do André, organizado por Carlos André Mores e Rogério Amaral Vasconcellos (ainda sem editor), descrevo alguns episódios, como o quarto secreto abaixo do nível do solo, em minha casa de pedra em Atibaia etc.
Muitos personagens em suas histórias buscam afastar uma identidade anterior e assumir uma outra. Isso parece estar melhor simbolizado pela recorrência dos personagens assumindo outros nomes.
Tenho certeza que essas circunstâncias foram inspiradas pela minha vivência no golpe. Avisado por um promotor, fujo uma tarde, levado por um amigo para a casa de um revolucionário espanhol condenado à morte na Espanha de Franco. Era um perito na guerrilha urbana, líder na revolução da Argélia. Nessa mesma tarde, tiro meu bigode, mudo nome e acabo em um apartamento de três velhas senhoras francesas.
Falando somente francês, sendo chamado de Augusto (bem mais tarde mudei para Joachim), longe dos filhos e da família, com a minha loja sendo conduzida por uma irmã que nada sabia do negócio, eu perdera o passado e o futuro, era algo vazio e assustador. Vai por aí adiante...
Também se percebe em certas histórias um componente "metaficcional", na reflexão sobre o ato da criação literária e no comentário da incapacidade da ficção trazer todas as respostas.
Já vai muito longe o século 19, quando os romancistas contavam histórias lineares, eram oniscientes, sabiam exatamente se os personagens eram bons ou maus. Freud mudou tudo isso. Lacan põe um significante em cada trocadilho, Dali pinta quadros cuja explicação transcende meia-dúzia de palavras. Reich acha outros significados no sexo, a física quântica torna-se hermética para a mente simples dos que julgam bastar o senso comum para se entender o porquê do inexplicável. A literatura moderna recria, projeta, salta para fora deste insignificante planeta e descreve, antecipadamente, o choque terrível que será o encontro com uma civilização alienígena. Muitos ignoram...de medo, mas o artista, muito antes dos cientistas, sempre foi a antena investigando o futuro, projetando o caminho fantástico desta humanidade violenta, jogando bombas para convencer adversários, voando mais rápido do que o som, enquanto os satélites artificiais vão anotando línguas diversas e os pássaros continuam clamando inutilmente sua linguagem sonora para os duros ouvidos dos insensíveis seres humanos.
Outro elemento recorrente nos contos é a psicanálise.
Estudei psicanálise desde muito jovem, quando Freud era vivo. Tornei-me um analista eventual, mesmo em Curitiba. Eu conhecia e aplicava a hipnose científica como auxiliar analítica. (Escrevi dois livros sobre o assunto.) A penetração das teorias de Freud abalaram o mundo e, até hoje, nenhum outro cientista pode ignorar o mestre vienense, nem outra teoria eliminar o impressionante edifício que Sigmund construiu.
Muitas das suas histórias são celebrações do indivíduo "estranho" ou "diferente", dentro das definições estreitas da sociedade.
Afinal, a sociedade, como definiu Lobato, é um bando de ignorantes. O capitalismo, triunfante em quase todo o mundo, põe como alvo superior o dinheiro, o poder econômico. Somente a inteligência, hoje, pouco consegue. A cultura torna-se indispensável para circular com eficiência nos caminhos complicados da vida. Pessoas cultas são diferentes, obrigatoriamente, pois pensam e procedem de maneira diversa da multidão virtualmente acorrentada.
Qual é o legado de André Carneiro para a ficção científica brasileira?
Acho meio pretensiosa essa palavra. Talvez meu legado seja apenas uma informação: Ficção Científica, nome absolutamente desapropriado, é simplesmente um gênero literário. Pode ser de boa ou de má qualidade (e seus intermediários) como em todos os outros gêneros. Os preconceitos que ainda cercam a FC são apenas fruto da ignorância. Imitando meu velho amigo Oswald de Andrade: Não li e não gostei. Sobre isso, escrevi o primeiro ensaio sobre o assunto em toda a América do Sul: Introdução ao Estudo da "Science-Fiction".
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Reprodução
Confissões do Inexplicável, rica coletânea de contos de André Carneiro
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