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Terça, 8 de maio de 2007, 08h15

Lodwick, Dalgarno e Wilkins: uma língua filosófica

Antonio Luiz M. C. Costa

A primeira tentativa de concretizar as idéias de Bacon e Comenius partiu em 1647 de Francis Lodwick, comerciante holandês estabelecido em Londres e chamou-se Common Writing. Tratava-se de uma escrita que usava um ideograma convencional para cada radical - por exemplo, um sinal parecido com a letra grega delta (δ) para drink, "beber" e uma série de pequenos traços que indicam os derivados dessa ação: o ator (o que bebe); o ato (beber); o objeto (bebida); a inclinação (o bêbado); o abstrato (bebedeira); o lugar (a taverna). Entretanto, Lodwick chegou a listar apenas 16 radicais.

As tentativas seguintes partiram de dois eruditos, o mestre-escola escocês George Dalgarno e o bispo inglês John Wilkins, que apresentaram seus projetos, respectivamente Ars Signorum (1661) e Philosophical Language (1668). Os dois projetos são semelhantes e Dalgarno acusou o rival de plágio, mas é provável que simplesmente sejam produtos da mesma lógica. Ao contrário de Dalgarno, era membro da universidade de Oxford, tinha à disposição colaboradores e a atenção dos pares e fez um trabalho mais completo.

Dalgarno, professor de gramática, limitou-se a indicar os princípios de classificação, com a esperança de que outros completassem seu projeto. Classificou toda a realidade em 17 gêneros fundamentais, cada um deles designado por uma letra: entidade (a), concreto (i), acidente (e), substância (h), espiritual (y), corpóreo (o), homem (u), acidente matemático (b), físico (d), sensitivo (p), comum (s), político (k), qualidades sensíveis (g), racional (t), físico (n), artefatos (f) e "corpos matemáticos", ou seja, entidades geométricas (m).

Cada gênero se divide em gêneros intermediários assinalados por uma segunda letra - uma consoante se a primeira fosse vogal e vice-versa, pois Dalgarno queria sua língua pronunciável. Por exemplo, os "sensitivos" (p) subdividem-se em "gênero" (a), "movimento animado" (letra grega eta ou η)), "paixões principais" (o), "sentido interno" (e), "inclinações" (i), "paixões secundárias" (y) e "paixões afins" (u). Cada um desses dividia-se, por sua vez, em espécies, indicadas por consoantes. Assim, por exemplo, os sensitivos tidos como paixões principais, designados por po, incluem pod (ira), pog (pudor), pot (animosidade), pom (admiração), pon (amor), pof (esperança), pop (estima), pok (liberalidade) e pob (gáudio).

Sua língua também permite a formação de compostos e a derivação por sufixos: se pon é amor, pone é amante, pono amado e ponomp, amável. A sintaxe é simples, só conta a ordem das palavras: por exemplo, o sujeito deve preceder o verbo e ser seguido pelo objeto.

O projeto de Wilkins é análogo, mas mais complicado. Classificou a realidade em 40 gêneros maiores, 251 diferenças peculiares e 2.030 espécies, dispostos numa seqüência de tabelas. A cada um dos gêneros atribuiu uma sílaba e um ideograma simples, a cada diferença, uma consoante adicional e um traço a ser ligado à esquerda do ideograma básico e a cada espécie uma vogal ou ditongo e outro traço para ser ligado à direita. O resultado é, para cada espécie, um ideograma mais ou menos complexo, que chamou de Real Character, em tese passível de ser lido em qualquer língua, mas também uma palavra de quatro letras para cada espécie, a ser usada na Philosophical Language propriamente dita, esta parecida com a de Dalgarno. Segundo o próprio Wilkins:

"Se 'De' significa 'elemento', então 'Deb' deve significar a primeira diferença; a qual (segundo as tabelas) é 'fogo' e 'Debα', a primeira espécie, que é 'chama'. 'Det' será a quinta diferença sob o gênero, que é 'meteoro que aparece'; 'Detα', a primeira espécie, ou seja 'arco-íris' e 'Deta' a segunda, ou seja, 'halo'."

(Note-se que Detα se escreve com um alfa grego no final e Deta com um "a" latino: o primeiro soaria entre "a" e "o", como no inglês box; o segundo, entre "a" e "e", como no inglês hat)

Como no projeto de Dalgarno, também se recorre a composição e derivação para ampliar o vocabulário da língua além das noções básicas e muitas vezes faz associações mais ou menos arbitrárias ou metafóricas, que comprometem parcialmente o objetivo de pureza racional e filosófico. Por exemplo, o prefixo i- forma antônimos e "Dα" é "Deus". O que seria, então, "idα"? Não "diabo", como se poderia razoavelmente pensar: Wilkins queria que significasse "ídolo".

Lodwick, não sendo versado em filosofia, partiu simplesmente da estrutura verbal do inglês, no qual as palavras são muito versáteis e um verbo facilmente origina derivados com facilidade. Aparentemente, não pensou em criar uma linguagem falada: como símbolos matemáticos, seus ideogramas deveriam ser lidos e entendidos em qualquer linguagem.

Dalgarno e Wilkins, eruditos, criaram línguas mais completas, escritas e faladas, mas apegaram-se à tradição filosófica aristotélica, partindo de substantivos analisados em gêneros e espécies. A maioria das "línguas filosóficas" propostas pelas gerações seguintes (algumas continuam a ser propostas até hoje) baseiam-se neste segundo modelo e na tradição escolástica de mais de dois milênios que tem por trás e compartilham de problemas semelhantes.

O mais evidente, desde os inúmeros erros na publicação de seus trabalhos (tipográficos ou dos próprios autores), é que é extremamente difícil memorizar os termos de uma língua deste tipo e extremamente fácil confundi-los. Como cada letra tem um significado e os nomes de entes do mesmo gênero são também parecidos, o contexto não ajuda a evitar a confusão.

Pode parecer ilógico que "pena", em português, signifique tanto "punição" quanto "pluma". Ou mesmo que conceitos tão diferentes quanto "acento" e "assento", "comprimento" e "cumprimento", "eminência" e "iminência", "delatar" e "dilatar", sejam expressos por palavras semelhantes. Mas o risco de confundir os sentidos costuma ser pequeno (ao menos para quem tem um domínio razoável da língua) porque tais homônimos e parônimos são usados em contextos diferentes.

Só há problema quando duas palavras de sentidos pertinentes ao mesmo contexto (mesmo que antônimas) são semelhantes: "emergir" e "imergir", "esotérico" e "exotérico", por exemplo. Quem ouvir a frase "o submarino emergiu", sem ver o submarino nem a frase escrita, pode ficar na dúvida se ele veio à tona ou mergulhou. E se todas as palavras tivessem parônimos passíveis desse tipo de confusão?

Esse é o resultado inevitável do esquema usado por Dalgarno e Wilkins. Não há como entender "ira" onde está escrito "amor", nem "arco-íris" no lugar de "halo", mas seria fácil confundir 'pom' com 'pon' ("Ele tem muito pom por ela") ou 'Detα' com 'Deta' ("Vi um Deta no céu").

Outro problema ainda mais sério, mas talvez menos óbvio no século XVII do que hoje, é que o esquema depende de um sistema de classificação mais ou menos arbitrário, que depende de ponto de vista e do estado do conhecimento. Há algumas décadas, os fungos ainda eram classificados dentro do reino vegetal, hoje formam um "reino" biológico à parte. Novas entidades podem ser descobertas ou inventadas e novas maneiras de pensar e classificar a realidade serem formuladas a cada momento.

Mesmo em uma mesma época, a mesma realidade pode ser definida de maneiras diferentes: dependendo do enfoque, aquilo que chamamos de "humano" poderia ser definido como "animal racional" ou "primata bípede". "Estado" (em um contexto político), pode ser "realização do Espírito objetivo", "associação de indivíduos", "monopólio do uso da força" ou "domínio de uma classe sobre outra", conforme se seja hegeliano, liberal, hobbesiano ou marxista.

Nesse caso, manter o caráter "filosófico" da língua implicaria reformular totalmente o vocabulário a cada mudança importante na cultura ou no conhecimento, tornando-a instável a ponto de impossibilitar a comunicação entre uma geração e a seguinte, ou entre duas escolas de pensamento. Apesar desses problemas, o sonho continuou a ser perseguido e não se mostrou totalmente estéril, como veremos no próximo artigo.


Antonio Luiz M. C. Costa formou-se em engenharia de produção e filosofia, fez pós-graduação em economia e é um entusiasta das ciências sociais e naturais. Ex-analista de investimentos, atua no jornalismo desde 1996.

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Os ideogramas de Wilkins classificam o Universo

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