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Sexta, 11 de maio de 2007, 08h05

Rio de cabo a rabo... a revista de 1979...

Deolinda Vilhena

Faço parte de uma geração que começou a fazer teatro por paixão... não é saudosismo, é pura constatação... Tudo bem, ainda existem aqueles para quem mais que uma carreira, o teatro é uma opção de vida. Mas, inegavelmente, os tempos mudaram e tudo é bem diferente do momento em que participei - de gaiata! - de um espetáculo que marcou a vida de uma turma muito especial.

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A coluna de hoje é uma declaração de amor a todos os que fizeram, em 1979 no Teatro Rival, Cinelândia, Rio de Janeiro a revista Rio de cabo a rabo... Gugu Olimecha assinava o texto, mas o argumento era do Ivanir Calado. Laerte Thomé os cenários e os figurinos. A direção musical e as músicas tinham a grife única de um dos poucos homens capazes de fazer (bem!) música para teatro no Brasil: o maestro Nelson Melim (com M no final como ele sempre faz questão de frisar!). A coreografia tinha a graça e a garra de Renato Castelo.

E o elenco? Bem, o elenco era uma delícia: Djenane Machado, Alice Viveiros de Castro, Antonio De Bonis, Doris Kelson, Fátima Valença, Gugu Olimecha, Ivanir Callado, Leda Borges, Luiz Mendonça, Mara Baraúna, Maria Cristina Gatti, Marillena Bibas, Marco Miranda, Mimi, Nádia Carvalho, Pedro Limaverde, Renato Castelo e Sílvio Froes.

A direção? Bem, a direção é um capítulo à parte pois coube a Luiz Mendonça, cujo lugar no cenário teatral brasileiro continua vago. Afinal, como conta Maria Cristina Gatti, "ninguém como ele reunia com humor e graça, teatro e ideologia. Em tempos de resistência cultural, Luiz Mendonça atuava, dirigia e botava mais de vinte pessoas em cena. Lançou talentos como Elba Ramalho e Tania Alves no lindo espetáculo Canção de Fogo. Mas bom mesmo era juntar-se a ele na galera do Pastoril da Lapa, onde ao lado de Grande Otelo, dividia o papel dos velhos dos cordões "azul" e "encarnado". Luiz Mendonça fazia parte da família que promove até hoje a Via Sacra de Nova Jerusalém. O querido Tio Lorinho, como era carinhosamente chamado pelos familiares, chegou ao Rio de Janeiro ao lado de sua companheira, e depois amiga da vida inteira, a grande Ilva Niño, com quem havia partipado do CPC da UNE, em Pernambuco."

Da turma de Rio de cabo a rabo, há os que subiram para o andar de cima e devem estar armando a maior quizumba no astral, há os que tomaram o ácido errado e a viagem tornou-se menos interessante ou saíram de órbita, mas a maioria da turma continua na luta, e se a vida se incumbiu de nos afastar, viva o orkut que fez o favor de nos reunir.

Mas por que diabos falar de um espetáculo que provavelmente nenhum dos leitores dessa coluna viu? Vocês hão de entender daqui para o final...

No Rio de Janeiro do final dos anos 70, quando as ruas começam a ser tomadas pela participação popular exigindo a queda da ditadura militar, quando o grito de Anistia Ampla, Geral e Irrestrita ecoava na garganta de mulheres e homens, estudantes, artistas, advogados, intelectuais, religiosos, operários e trabalhadores do campo, nasce Rio de Cabo a Rabo, "com a idéia de remodelar o teatro de revista, atualizando-o com piadas políticas e picantes".

O espetáculo é fruto da associação da intimidade com o teatro popular e a musicalidade à comédia de Luiz Mendonça, esse pernambucano que lutava pela existência de um teatro brasileiro popular e de um estilo brasileiro de interpretação e fazia da cultura popular nordestina sua fonte de inspiração.

Fazer Rio de cabo a rabo em 1979 parece confirmar as palavras de Neyde Veneziano, "revisteira" de primeira hora, quando ela resume a alma e a importância do teatro de revista dizendo que, ao falarmos dele, devem nos vir "as idéias de vedetes, de bananas, de tropicália, de irreverência e, principalmente, de humor e de música, muita música. Mas que venha também a consciência de um teatro que contribuiu para a nossa descolonização cultural, que fixou nossos tipos, nossos costumes, nosso modo genuíno do 'falar à brasileira'. Pode-se dizer, sem muito exagero, que a revista foi o prisma em que se refletiram as nossas formas de divertimento, a música, a dança, o carnaval, a folia, integrando-os com os gostos e os costumes de toda uma sociedade bem como as várias faces do anedotário nacional combinadas ao (antigo) sonho popular de que Deus é brasileiro e de que o Brasil é o melhor país que há". Ou seja, no momento em que o país lutava para reconquistar sua liberdade e sua auto-estima, Rio de cabo a rabo tinha tudo a ver.

Afinal, Décio de Almeida Prado dizia que o espetáculo na revista, mudava subitamente o tom, passava do cômico ao sério, do galhofeiro ao solene, do satírico ao comemorativo, para se despedir do público, fazendo-o sair do teatro com uma carga renovada de energia. Quem não precisava renovar as energias após quinze anos de ditadura, de linha dura? Renová-las era preciso... e como renovamos...

E em grupo, porque "o povo unido jamais será vencido!". Sim, a renovação se fazia em grupo... e em todos os sentidos! Lembro-me que Macksen Luiz queria fazer uma reportagem de página inteira com a Maria Cristina Gatti no Jornal do Brasil. Gatti achava um certo exagero e cedeu o espaço a ela dedicado a toda a sua geração. Naquela época, havia toda uma nova geração invadindo os palcos cariocas. Exemplos de uma geração que se queria socialista... Além do mais, Gatti nunca teve vocação para celebridade, mas sim para trabalhadora das Artes Cênicas.

Esses detalhes demonstram a força da química que se instalou entre a turma que fez Rio de cabo a rabo. Afinal de contas, tinha um pouco de tudo, "babies Benett", intelectuais, politizados, gente que transitava entre a Zona Norte e a Zona Sul e, que freqüentando a Gayfieira, onde "casais hetero caretas e estivadores com meio metro de bíceps dançando de rosto colado" constituíam um público especial.

Juntos encarávamos as boates da Praça Mauá e os inferninhos de Copacabana. O Rio do final dos anos 70 permitia que circulássemos por toda a cidade a qualquer hora do dia, da noite ou da madrugada. Uns jantavam com o dia amanhecendo, no Nova Capela, na companhia das "moças de vida difícil recuperando as forças antes de voltar pra casa".

A turma que morava em Niterói saía do Amarelinho - tradicional reduto da boemia carioca - por volta das quatro da manhã e caminhava até a Praça XV. Trajeto que hoje ao meio-dia é de alto risco... E muito antes do forró ser moda entre a garotada da Zona Sul, já éramos habitués do Forró Forrado, no Catete!!!

Gatti relembra nossas visitas aos inferninhos da Lapa e de Copacabana. Diz ela que "éramos presença VIP no lado B da noite carioca". Quem nos abria as portas era Gugu Olimecha. Ele escrevia quadros para os humoristas das boates, e deve ter nos levado para sujar um pouco a jeunesse dorée do Bennett e do Sion, afinal éramos mocinhas de família. Às vezes, diz Gatti, "ele arrumava um troco para Elba Ramalho cantar e garantir o jantar. Éramos tratadas como princesas pela turma do meretrício, e pode-se dizer que aprendi a fazer strip com a lendária Rose Rossi, que me pegou num canto e disse: 'menina, toma um uisquinho e mete bronca, se não tomar o whisky, eles te jantam'. De certa forma, era verdade. O whisky trazia o despudor e auto-confiança necessários. Nunca esqueci dessa lição, mesmo não gostando de whisky. Então tomava as bombas coloridas preparadas pelos garçons do Teatro Rival." E pelo visto funcionava mesmo, pois a cena do strip-tease da Suzette Françoise era um dos pontos altos do espetáculo.

Além disso tudo, diz Gatti, "a convivência com Gugu e Luiz Mendonça revelou um mundo que eu não conhecia, pois era uma baby Bennett. Mas transitei muito bem nele, onde fiz amigos que perduram até hoje. Tambem me orgulho de nossa coragem política, de nossa resistência cultural, atitude que mantive minha vida inteira. E de Oba em Oba, cheguei até aqui, fazendo quadros de humor como na revista. Faço há cinco anos Zorra Totoal e Turma do Didi. E agora desfruto de nossas boas memórias, e do reencontro agradável com nossos parceiros, mas fico triste ao perceber que muitos daqueles sonhos não tiveram prosseguimento para alguns, que se tornaram profissionais de outras áreas."

Alice Viveiros de Castro, responsável pelo número de platéia, onde, encarnando a Inflação 1979, esbanjava talento, beleza e simpatia, conta que Renato Castello, ensaiando a mulherada do elenco, estava à beira de um ataque de nervos, gritava: "cadê as vedetes? Vocês não sabem nem andar de salto alto!"

E era a mais pura verdade. Alice confessa que nunca tinha usado um salto alto na vida!!! Eram todas meio hippies... sandália de pneu... e o Renato enlouquecendo com a falta de jeito do mulherio... Até que um rato imenso, quase um gato, passa correndo pelo palco e a mulherada enlouquece, grita, sobe pelas paredes... E Renato grita: 'Isso! Agora vocês viraram vedete! Toda mulher vira vedete quando vê um rato!!!' E durante toda a temporada, na entrada de apresentação da inflação, durante a cena dos mendigos na Central do Brasil, ele me olhava e dizia baixinho: 'Um rato!' e eu abria a capa e fazia a pose mais vedetística para o amigo querido que me fez descobrir que eu podia ser linda, feminina..."

Ronaldo Grivet e Mara Baraúna relembram do campeonato de futebol disputado no Aterro do Flamengo às 3 horas da manhã: "jogamos contra o time do Rasga Coração que levava a sério o campeonato. Treinavam nas coxias, nos camarins, e a gente tinha como treinadores, os garçons do Rival, que levavam garrafas e garrafas de cachaça para esquentar."

Fafá Valença conta que levou a sério a partida contra o Rasga Coração e ficou furiosa com sua equipe, "que só bebia enquanto fingia se aquecer com os técnicos (garçons do Rival que, em vez de água, davam a droga lícita do álcool). Já tínhamos levado uns belos gols, quando alguém do time adversário fez penalti. A goleira Elke começou a fazer pose pra bater. Eu vi que não ia dar certo, já que, no gol, ela gritava e se afastava correndo da bola toda vez que alguém chutava na direção dela. Então, furiosa, falei: 'Deixa que eu bato!' Tomei distância, me concentrei, corri na direção da pelota e chutei. Vera Holtz agarrou. Meu time estava tão embriagado que umas garotas que faziam parte da turma agregada, da geral, tudo faixa preta, pisando forte, entraram no lugar das atrizes. Débora Bloch, novinha, olhou assustada: 'Mas quem são essas?!' ou algo do gênero. Nem assim fizemos um gol." E até hoje ninguém sabe quanto foi a partida...

De uns vinte anos para cá, tudo mudou... Outro dia, Maria Cristina Gatti escreveu: "Bons tempos onde a classe (artística!) tinha onde se encontrar!" E eu respondi: "Problema não é falta de lugar para classe se encontrar, o problema é saber por onde anda a classe"... Na verdade, antes tínhamos esse espírito de classe, era meio como se fôssemos uma família, ainda que fosse os Átridas...

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Deolinda Vilhena é jornalista, produtora cultural, mestre em Artes pela ECA-USP, mestre e Doutora em Estudos Teatrais pela Sorbonne Nouvelle-Paris III
 
Pessoal/Reprodução
Djenane Machado a frente do grande elenco de Rio de cabo a rabo, Teatro Rival, outubro 1979

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