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Sexta, 18 de maio de 2007, 08h02

A brasileira que inventou o "selinho do amor"

Vera Gonçalves de Araújo

O prefeito de Pádua, Flavio Zanonato, está se revelando um dos políticos mais badalados da Itália. Eleito pelos Democratas de Esquerda, ex-PCI, ele é hoje considerado um dos prefeitos mais direitistas do país. Por culpa do muro que mandou construir para proteger um bairro da cidade dos vendedores africanos de drogas. E agora, por culpa da guerra contra as putas.

Zanonato decidiu reprimir a prostituição multando os clientes das prostitutas locais. Como revide, as moças decidiram criar o "selinho do amor": um botãozinho cor-de-rosa que indica que as garotas estão dispostas a fornecer programa grátis ao cliente que for multado.

A líder do movimento - que convocou na quarta-feira uma passeata no centro da cidade, à sombra da basílica de Santo Antonio, é a brasileira Kristal, travesti que está se revelando uma ótima porta-voz das garotas de programa de Pádua. Kristal fez comício, ontem, depois da passeata - tinha mais olheiros e jornalistas do que garotas, na praça. Kristal não poupou críticas a Zanonato: "eles nos usam para cobrir os verdadeiros problemas. Toda vez que uma cidade tem problemas, falam de nós. Para não falar de transporte, roubos, mortos no trabalho".

Carioca de 43 anos, Kristal mora na Itália, com todos os papéis em ordem, desde 1996. Foi ela quem teve a idéia do selinho. Com um elegante conjunto vermelho com broche combinando e sandálias douradas com 10 cm de salto, ela acha que os problemas podem ser resolvidos só com muito diálogo, e se declara contrária a todos os tipos de violência, lembrando que também nas famílias, os casos de mulheres violentadas são freqüentes.

A passeata terminou sem brigas no fim da tarde; não foi um grande sucesso, pois faltou a participação das "sex workers" (definição oficial das garotas) de toda a Itália. Foi um desfile colorido, com muita bola de ar, muita peruca e roupa colorida, mas sem nudez e exageros. Pelo contrário, as moças fizeram questão de escolher vestidos sóbrios, sem decotes nem minissaias. "Claro que não usamos as roupas do ofício, não queremos provocar nem ser provocadas - explicou a líder brasileira em seu comício. Estamos manifestando pelos nossos direitos de cidadãs, contra essa lei, contra essa multa. Nada mais".

O movimento contou com o apoio de algumas ONGs. Os partidos de centro-esquerda preferiram ficar de fora: já têm muito motivo para brigar, melhor deixar as polêmicas sobre Zanonato de lado.

Á noite, de volta ao trabalho, as garotas - que os italianos gostam de definir poeticamente "lucciole", vaga-lumes - encontraram a polícia já em plena atividade, multando clientes e controlando os documentos das trabalhadoras brasileiras, húngaras, russas, romenas, nigerianas e italianas. Ao todo, segundo a prefeitura, as garotas de programa em Pádua são 1.500. Um grupo de engraçadinhos lançou a proposta de ampliar o selinho cor-de-rosa também em outras situações: "em caso de chuva, granizo, calor demais, temperatura agradável, quando o Nasdaq sobe, quando o Inter ganha... Para assinar a petição, é só ir ao bar do Mario".


Vera Gonçalves de Araújo jornalista, nasceu no Rio, vive em Roma e trabalha para jornais brasileiros e italianos.


 

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