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Sábado, 19 de maio de 2007, 05h34

Guerreiros de Darinka: fantasia do Brasil

Roberto de Sousa Causo

Guerreiros de Darinka, Renata Cantanhede. Osasco: Novo Século Editora, Coleção Novos Talentos da Literatura Brasileira, 2005, 453 páginas.

No Brasil, a explosão que foi a trilogia O Senhor dos Anéis, de J. R. R. Tolkien, adaptada para o cinema por Peter Jackson, provocou uma pequena revolução editorial. O tipo de fantasia criado por Tolkien, a chamada "alta fantasia", passou a ser publicado em grande escala por um bom número de editoras brasileiras, com trabalhos vindos de todo canto, para serem traduzidos e publicados aqui: dos Estados Unidos, Austrália, França, Inglaterra, Itália e até da Alemanha.

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Os escritores brasileiros também encontraram espaço com alta fantasia em várias editoras, algumas concentradas no campo juvenil, mas outras dirigidas ao público adulto.

Diante do aumento na ocorrência desse tipo de literatura entre nós, parece que já é hora de começarmos a procurar o primeiro marco da alta fantasia nacional. A Novo Século Editora tem publicado muitos desses novos escritores que se aventuram nessa área, e por alguma razão achei que o romance de Renata Cantanhede, Guerreiros de Darinka, poderia ser um candidato. Afinal, a autora, que foi mencionada em artigo publicado em O Globo, parece possuir uma qualificação superior, em se tratando de escritores novos.

Seu romance começa bem. Thekai é um mercenário desertor, com um passado sombrio e violento, filho da aristocracia clerical de sua terra. Ferido depois de vagar por dois anos pelos sertões do Império Alushari, acaba sendo recolhido pela família de Shalla, jovem princesa por quem logo se interessa. A família fora importante em Bramont, antes que seu país fosse invadido pelos alusharis.

Os problemas da narrativa logo se apresentam também. Embora o texto seja bem realizado como emprego da língua e do fluxo do contar, ele carece daquela substância maior que é o que realmente faz uma leitura interessante: o povo de Shalla é dominado pelo império, e Thekai é feito escravo por ele - mas o leitor não sente o peso da escravidão. Quando Shalla se muda para o castelo de Darro, o Senhor de Bramont, e Thekai, lá trabalhando como escravo, dorme com ela antes de Darro, fala-se de terríveis repercussões - mas o leitor não sente o peso de qualquer coerção. Antes, os encontros furtivos de Shalla e Thekai têm a qualidade, hoje quase que casual, de dois adolescentes escapando da vigilância dos pais.

Quando o casal, acompanhado dos irmãos de Shalla, fogem para Darinka, perseguidos pelas tropas de Darro e encontrando soldados pelo caminho, o leitor não sente a sua aflição nem a precariedade da situação que vivenciam.

Em Darinka, são vistos com desconfiança pelo rei local, e vítimas do conservadorismo extremo dos seus hábitos religiosos, mas o leitor também não sente que eles pularam do fogo para a frigideira.

A falsa economia da linguagem - "falsa" porque são centenas de páginas que se desenrolam com o mesmo tom e com as mesmas dificuldades, que vão pesando mais e mais na leitura - cria situações que são meramente rascunhadas, e não aproveitadas em sua plenitude. Para um livro que tem a palavra "guerreiros" no título, este é o tipo de descrição de combate que podemos esperar: "Já quase anoitecia quando os borenis vieram. Foi uma luta terrível, mas mais uma vez os novos rebeldes se saíram bem. Os soldados foram derrotados."

Parte do problema está justamente em concentrar nos diálogos o principal meio de fazer avançar a narrativa, o que parece uma decisão de bom-senso, mas que só atrapalha, se os diálogos não estão no núcleo de cenas bem construídas. A sucessão de nomes exóticos sem que os personagens que os detém possuam traços distintivos salientes só confunde as coisas.

Outro aspecto é que se trata de um romance de fantasia, mas a magia dita só é aludida na página 181 - e vindo como um sonho. Toques mínimos como este prosseguem até os momentos finais do livro, quando a jovem alushari Anisha, também vivendo entre os heróis exilados, mostra-se capaz de paralisar pessoas à distância, com uma imposição de mãos.

É claro que o romance tem qualidades. Ocasionalmente há algum humor ou alguma reflexão moral pertinente. Um toque interessante e moderno está em Darien, uma mulher-soldado, um artifício feminista muito comum na fantasia internacional. Mas Guerreiros de Darinka se ressente de contar demais, e mostrar de menos. Inclusive, muitos dos fatos e eventos mais interessantes e dramáticos não são mostrados, mas referidos pelos personagens em seus diálogos. Falta portanto uma linha narrativa consistente e tensa, em torno de uma trama envolvente. Alguma ação que captura o leitor surge nas últimas 20 páginas! O tempo todo o leitor parece esperar que, após muita preparação, o texto vai enfim entrar no que interessa. Isso é postergado indefinidamente, porém, e a porta escancarada para uma seqüência, no final, sugere que ação pra valer vai ficar para o próximo volume.

É de se perguntar igualmente qual é o interesse da autora em produzir um romance de fantasia tão volumoso. Em certos momentos, parece ser o de envolver o leitor em uma intriga militar - a questão da formação de exércitos e do seu adestramento é constante da segunda metade do livro, mas métodos e objetivos são por demais vagos. Questões morais são levantadas, e elas poderiam ser centrais, não fosse o fato de que o leitor não sente o peso das decisões ou das coerções morais que cercam os personagens. Parte da intriga parece ser casamenteira - quem vai ficar com quem, quem se submeterá ou não aos arranjos matrimoniais -, o que aponta para o cruzamento da alta fantasia com a história romântica. Não tenho problema com isso, tendo até lido uns Harlequins de fantasia histórica, mas o fato é que nesse campo também o romance não é consistente.

Sobra talvez apenas o desejo de estar no mundo secundário da alta fantasia, na terra romântica e maravilhosa, na geografia exótica da imaginação. É um problema que o tradutor Carlos Angelo localizou, junto aos autores atuais, ao dizer que hoje em dia os escritores não parecem estar escrevendo literatura, mas sim argumentos de RPGs.

O que faz uma boa narrativa, o que torna uma obra marcante e o seu autor competente é a combinação de voz, visão e controle. "Voz" é o estilo, ou a dicção que o leitor associa à presença implícita do narrador. "Visão" é o que o premiado escritor João Silvério Trevisan chama, em suas oficinas, de "projeto" - a sugestão, que surge da leitura, de que o autor possui uma imagem clara dos objetivos e efeitos que deseja alcançar. E "controle" é a sugestão da habilidade que o autor dispõe para alcançar todo o potencial da sua visão.

Parece óbvio que, apesar de ser um texto correto, às vezes com alguma graça e interesse, Guerreiros de Darinka carece dessas qualidades.

Ficamos à procura de outro candidato à marco da crescente alta fantasia nacional.


Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance A Corrida do Rinoceronte.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br
 
Reprodução
Guerreiros de Darinka da brasileira Renata Cantanhede

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