
Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa
"Volapuque, Esperanto, Ido, Novial etc. etc., estão mortos, muito mais mortos do que antigas línguas sem uso, porque seus autores jamais criaram lendas para acompanhá-las", escreveu em 1956 J. R. R. Tolkien, escritor, filólogo e inventor de línguas. Essa frase contém uma intuição profunda e verdadeira, mas também uma injustiça, principalmente no que se refere ao segundo desses idiomas.O Esperanto, apesar de nunca ter alcançado a difusão sonhada pelo seu inventor, vai muito bem de saúde. Tem vários periódicos e edições regulares de traduções de obras literárias - inclusive La Mastro de l' Ringoj, ou seja, O Senhor dos Anéis. Os falantes fluentes de Esperanto no mundo são estimados em mais de um milhão. Esse número é comparável ao de conhecedores do latim - só que a língua de Virgílio ainda é obrigatória no currículo de boa parte do ensino médio e superior na Europa, enquanto o aprendizado do Esperanto é totalmente voluntário.
Mesmo as outras três línguas citadas por Tolkien, cuja própria existência é ignorada da grande maioria, bem como algumas das outras relegadas aos etcéteras, como a Interlíngua e o Occidental, continuam a ser usadas por pequenos, mas fiéis, círculos de seguidores. Além de grupos de discussão na internet, cada uma tem sua Wikipédia. A versão em Novial, língua com menos de cem usuários, é previsivelmente a mais pobre, mas conta quase dois mil artigos, mais que versões em idiomas naturais como o bielo-russo, o maltês e o iorubá.
O Ido é só um pouco menos obscuro, mas há mais artigos nessa língua - quase vinte mil - do que em albanês ou em latim. Quanto à Vikipedio em Esperanto, com mais de oitenta mil artigos, supera as de línguas tão vivas quanto o turco, o tcheco, o romeno e o húngaro. Seja qual for a qualidade do conteúdo - desconfiança válida também para wikipédias em línguas e dialetos naturais - isso revela, no mínimo, um interesse sincero em manter tais línguas vivas.
Claro, Tolkien não as considerava "mortas" no sentido de terem sido completamente abandonadas, o que seria apenas um erro banal. Certamente, quis dizer que tais línguas careciam de uma verdadeira vida espiritual. Aí está a injustiça, pois pelo menos algumas dessas línguas a têm e justamente porque seus autores criaram uma lenda para acompanhá-las: um mito de paz e fraternidade universal.
Na época em que Bacon e Comenius sonharam com línguas universais e Lodwick, Dalgarno e Wilkins fizeram as primeiras tentativas de criá-las na prática (leia A segunda Torre de Babel e Lodwick, Dalgarno e Wilkins: uma língua filosófica, havia uma língua que, se não chegava a ser verdadeiramente universal, ao menos era pan-européia: o latim, conhecido de todas as pessoas cultas. O que os inventores de novos idiomas propunham era um veículo alternativo para o debate erudito, livre das inconsistências lógicas e gramaticais do latim, da tradição da Igreja Católica e do ranço da filosofia tomista e escolástica, que facilitasse a constituição de um novo consenso baseado na nova razão iluminista.
Ao longo dos séculos XVIII e XIX, porém, a educação pública das massas, sua participação crescente no debate público e a difusão do jornalismo e da literatura combinaram-se com a decadência da antiga ordem feudal, a ascensão da burguesia e a constituição de Estados de base nacional para esvaziar tanto o latim quanto as línguas e dialetos minoritários.
Seguindo o modelo da França, os principais estados europeus constituíram-se em torno da idéia de nação, identificada em boa parte com a comunidade de usuários de uma mesma língua. Com base apenas no fato de aprenderem a ler um mesmo idioma, os súditos das dezenas de reinos e principados de língua alemã passaram a reivindicar um grande estado nacional que os unisse a todos. O mesmo se deu na Itália. Nas décadas de 1860 e 1870, ambas as línguas subitamente criaram grandes Estados em regiões que haviam permanecido politicamente fragmentadas por séculos.
Nesse processo, como Tolkien bem apontou, a criação de mitos nacionais teve um papel crucial. Da Antiguidade clássica ao início da Idade Moderna, os personagens de ficção tendiam a se mover por todo o mundo conhecido ou imaginado de seu tempo, ou pelo menos por toda a Europa. As fronteiras eram irrelevantes para Odisseu e Jasão, assim como para o Cândido de Voltaire ou o Gulliver de Jonathan Swift. Entretanto, à medida que avançava o século XIX, os personagens de romances (com exceção dos vilões que, sobretudo na Inglaterra, são de preferência estrangeiros) deixam de cruzar mares ou fronteiras. Os cenários exóticos são reservados a obras de terror, fantasia e ficção científica, à margem da literatura "séria".
Como mostra o crítico literário italiano Franco Moretti no Atlas do Romance Europeu, este gênero identificou-se totalmente com a imaginação do Estado nacional. Nos romances históricos, tratam de sua construção - às vezes de forma direta, com personagens que agem em nome do rei para impor o monopólio da violência legítima, como os Três Mosqueteiros de Alexandre Dumas.
No bildungsroman ou romance de formação, como Ilusões Perdidas de Honoré de Balzac ou David Copperfield de Charles Dickens, um jovem provinciano realiza ou frustra na capital nacional os sonhos que não cabem na aldeia natal, sem cogitar de conhecer outros países. Onde ainda não há uma capital, como na Alemanha e na Itália da primeira metade do século XIX, o tal jovem perambula irresolutamente entre os centros culturais de sua nacionalidade, como a tentar unificar uma nação que ainda não existe - como em O aprendizado de Wilhem Meister, de Goethe.
Assim é que cada nação da Europa veio a formar-se em torno de uma literatura e esta ao redor de um punhado de obras fundadoras, cruciais para a definição de uma linguagem e uma cultura, como Os Lusíadas em Portugal, Dom Quixote na Espanha, A Divina Comédia na Itália ou a obra de Shakespeare na Inglaterra. Aqueles que falavam línguas e dialetos de longa tradição cultural, mas sem o patrocínio de um Estado nacional, como o provençal, o basco, o napolitano ou o galês, tinham agora de aprender a língua nacional se quisessem se dirigir a seu governo ou à justiça, fazer negócios, informar-se sobre os acontecimentos ou simplesmente não serem ridicularizados. Por outro lado, Estados sem uma maioria lingüística definida e incapazes de impor o ensino de uma mesma língua à maioria de seus súditos ou cidadãos enfrentaram dificuldades para conservar sua unidade, como era o caso do Império Austro-Húngaro e do Império Russo.
Nessa realidade, a idéia de que uma língua comum para toda a humanidade seria uma forma de relativizar o nacionalismo e construir uma fraternidade que atravessasse as fronteiras não soava absurda, ainda que fosse inegavelmente ingênua. É o desenvolvimento dessa idéia que abordaremos nos próximos artigos.
Terra Magazine
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Divulgação
Para Tolkien, uma língua vive das lendas que a acompanham. Talvez por isso, o Esperanto seja a mais viva das línguas artificiais.
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