
Maria Falcão
A evolução da medicina tem se dado de tal forma que, até para os mais caxias dos médicos e pesquisadores, se manter a par das mudanças e novidades é uma tarefa difícil. A cirurgia metabólica é uma dessas novidades das quais eu nunca tinha ouvido falar, mas que me impressionou de forma bastante positiva. Assim, cedo hoje esse espaço ao doutor Marcus Lima, cirurgião e membro associado da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica, que escreve com propriedade sobre o assunto a Terra Magazine.
Diante dessa assombrosa realidade, qual não tem sido a surpresa do mundo científico ao se deparar com novas e revolucionárias informações que vêm encontrando cada vez mais sustentação com o desenvolvimento das pesquisas.
O fato mais recente e dos mais animadores que alertou médicos e pesquisadores foi a descoberta de que pacientes obesos submetidos a cirurgia de redução de estômago e portadores de Diabetes tipo 2 apresentavam taxas impressionantes de cura do diabetes após essa cirurgia. Estudos, feitos nos mais diferentes lugares do mundo chegam a mostrar taxas de 80% a 100% de cura do Diabetes nesses pacientes, em tratamento para a obesidade, cuja cirurgia de redução de estômago envolvesse desvio do intestino.
A princípio atribuía-se a melhora à perda de peso em decorrência da cirurgia, assim como à diminuição da ingestão diária de alimentos a que esses pacientes eram submetidos após a intervenção. No entanto, essas teorias logo caíram por terra, uma vez que a melhora nas taxas de açúcar sanguíneo (glicemia) era evidente logo nos primeiros dias após a cirurgia. E não é só isso: o quadro metabólico do indivíduo, assim como taxas de colesterol e níveis de insulina no sangue, também se normalizavam.
Assim, passou-se a pensar que existia algo, além daqueles fatores, envolvido no processo de cura. Ao se comparar as técnicas que envolviam desvio no intestino com aquelas em que eram realizadas apenas reduções no estômago, pôde-se perceber que as primeiras eram muito mais efetivas no controle do diabetes, levando os pesquisadores a acreditar que era justamente no desvio intestinal que estava a solução para o enigma.
Desde o final dos anos 90, o mundo vem admitindo que o intestino não é apenas responsável pala absorção do alimento, mas é também um importante órgão para o equilíbrio dos diversos sistemas do corpo, e que possui efeitos diretos sobre o controle da glicemia e do metabolismo do indivíduo.
Mas como fazer então com aqueles indivíduos que não são obesos mórbidos e que representam cerca de 90% da população portadora de Diabetes tipo 2? Na busca dessa resposta é que, desde 2004, está se desenvolvendo uma nova técnica cirúrgica que envolve o desvio de intestino de maneira menos radical do que a que se utilizava nas cirurgias para tratamento da obesidade, e sem a redução do estômago associada. Inicialmente testada em ratos, o que se tem visto é extremamente animador. Os resultados no controle glicêmico são muito semelhantes aos vistos nos pacientes obesos, sem que ocorra perda de peso significativa, o que não seria tolerado por indivíduos não obesos.
Diversos protocolos de pesquisa estão em andamento em todo o mundo, com cirurgias sendo realizadas em um número ainda restrito de voluntários. Ao que parece, a segurança do procedimento está assegurada, pois, se nos indivíduos obesos, submetidos à intervenção de maior complexidade (e, em geral, com condições de sáude mais graves), já temos índices de complicação e mortalidade perfeitamente aceitáveis (3% a 8%, e cerca de 0,5% respectivamente), espera-se que em pacientes magros e num procedimento cirúrgico mais simples essas taxas caiam ainda mais.
As complicações a longo prazo mais freqüentes seriam relacionadas à alteração da absorção de algumas vitaminas, desnutrição protéico-calórica e osteoporose. No entanto, como o desvio intestinal é menos intenso, ainda não se sabe como se comportarão esses voluntários a longo prazo. Aqui mesmo no Brasil já existem pesquisas avançadas, inclusive com um relato de 2 pacientes operados no estado de São Paulo.
Estamos atentos!
Dr. Marcus Lima é cirurgião, membro associado da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica.
Terra Magazine
» Glaucoma leva à cegueira, explica especialista