Terra Magazine

› Terra Magazine › Mundo

Domingo, 27 de maio de 2007, 13h40

Fim da concessão à TV amplia segurança em Caracas

Diego Junqueira
De Caracas, especial para Terra Magazine

A população de Caracas vive com incerteza e expectativa o fim de semana em que será concretizada a resolução do governo venezuelano contra a emissora RCTV. O temor é que ocorram, nas ruas da capital, ações violentas provocadas tanto por grupos que apóiam o governo quanto por opositores.

Na noite da última sexta-feira, 25, a sede da emissora Globovisión sofreu uma ação de um grupo de jovens chamado "Coletivo Alexis Vive", que pichou a fachada da emissora e se auto-qualificou como revolucionário, supostamente de apoio ao governo Chávez. Além da RCTV, a Globovisión também mantém uma postura de oposição ao governo venezuelano. "Quando eu vi que haviam elevado o contingente de policiais e da Guarda Nacional nas ruas de Caracas, eu me senti mais protegido. Mas isso não foi suficiente pra evitar esse ato de vandalismo", afirmou o diretor geral de Globovisión, Alberto Federico Ravell, em entrevista à RCTV. "Não vamos mudar nossa linha editorial porque nos atacam e nos ameaçam ou porque vão fechar a RCTV", avisou Ravell.

Dois dias antes, na quarta-feira, 23, a sede da Fedecamaras (Federação de Câmaras e Associações de Comércio e Produção da Venezuela, que reúne os empresários do país) sofreu ação semelhante. Além do Coletivo Alexis Vive, participaram desta ação a Frente Nacional Campesina Ezequiel Zamora, a "Frente Nacional Comunal Simón Bolívar e a Coordenação Simón Bolívar, grupos que apóiam o governo venezuelano. A Fedecamaras foi uma das instituições que, em abril de 2002, participou do Golpe de Estado que manteve Chávez fora do poder por 48 horas.

Entrevistado pelo canal estatal VTV, o ministro de Comunicação e Informação, William Lara, informou que o governo venezuelano repudia ações antidemocráticas como as que foram executadas contra a sede da Globovisón. "Não há justificativa para que alguém, por mais vanguardista e revolucionário que se declare, tome atitudes anarquistas. Na prática, essas ações coincidem com as estratégias de grupos internos e externos de extrema-direita que pretendem desestabilizar a vida política venezuelana", disse. "O resultado disso é que esses setores reforçam sua campanha midiática de promoção do temor coletivo. Ocorrem, então, compras nervosas nos supermercados, angústias nas ruas e medo na população. O temor não tem fundamento real, mas pode se propagar com esse tipo de ação", completou o ministro.

William Lara garantiu ainda que, durante este final de semana, e "até que esses grupos desestabilizadores entendam que na Venezuela predomina a paz", todas as emissoras de rádio e TV da capital, além da sede de todos os jornais, serão resguardadas por corpos policiais. Desde sexta-feira, centenas de militares e policiais podiam ser vistos nas ruas de Caracas.

Cerca de seis policiais metropolitanos estão posicionados em frente à sede da RCTV, desde a última terça-feira, 22, com um carro e um camburão. A emissora trabalha seus últimos dias de transmissão em sinal aberta com a sua porta de entrada fechada até a metade (um portão metálico que corre de cima para baixo). Segundo um dos vigilantes da RCTV, a medida "é uma ação preventiva contra um possível ataque dos chavistas". O funcionário informou ainda que, apesar da tranqüilidade que marcou os últimos dias, os seguranças da emissora vivem a expectativa de alguma ação no local durante o fim de semana.

Rebelião
O jornal caraquenho Últimas Notícias publicou no final da semana uma reportagem na qual denunciava que transmissões da Polícia Metropolitana foram interrompidas durante a última quarta-feira. De acordo com o diário, a mensagem, transmitida por trinta minutos, convocava uma rebelião e sugeria aos policiais que não atuassem contra manifestantes a favor de RCTV. A reportagem é baseada em "fontes extra-oficiais", já que o diretor da Polícia Metropolitana, general Juan Romero Figueroa, apesar de ter admitido a interferência nas transmissões, não divulgou o seu conteúdo.

"Há grupos de extrema-direita que estão publicando pela internet ameaças contra o governo, distribuindo panfletos que não reconhecem a legitimidade do presidente e que convocam uma ação violenta nesse contexto de não renovar a concessão à RCTV", disse o ministro William Lara. No último sábado, durante a marcha convocada pela oposição contra a medida do presidente Chávez, foram distribuídos panfletos que convocavam uma rebelião, assinados pelo grupo "Junta Patriótica".

A mensagem do panfleto - que além de ser entregue em mãos era também lançado para o alto - era: "Na presidência da República há um usurpador, ilegal e ilegítimo. Na Venezuela ameaçada não há saída eleitoral!!!". E mais adiante: "a saída é a rebelião. Preparem-se para a luta. No dia 26 arranca a definição: ditadura ou democracia?". Na manhã do sábado anunciado, 26, ocorreu, nas ruas de Caracas, mais uma das marchas a favor da RCTV. O destino do protesto foi a sede da emissora, onde um palco estava montado para discursos de artistas e jornalistas. Concluída por volta das três horas da tarde, a RCTV e a Globovisón informaram que nenhum incidente foi registrado durante a manifestação. Já a Agência Bolivariana de Notícias informou que um cinegrafista do canal estatal VTV foi agredido com "um chute no traseiro" por algum dos manifestantes, além de uma tentativa de tomar o microfone da emissora.

Em um discurso transmitido na sexta-feira em cadeia nacional de rádio e TV, o presidente venezuelano Hugo Chávez afirmou que, se houver qualquer tentativa da oposição de promover a desordem na capital venezuelana, ocorrerá "uma contundente e rápida resposta da força militar venezuelana". Chávez afirmou também que dificilmente existe um país no mundo com maior liberdade de expressão que a Venezuela.

Com traje militar, o discurso foi realizado em uma base áerea na cidade de Barcelona, na região oriental do país, com desfile dos novos aviões que a Venezuela comprou do governo russo. De acordo com a Agência Bolivariana de Notícias, o governo venezuelano concretizou em julho passado a compra de 24 aviões e 53 helicópteros, num investimento próximo de US$ 3 bilhões.

 
Diego Junqueira/Terra Magazine
Concentração de venezuelanos em frente à emissora RCTV: temendo um conflito, o policiamento nas ruas de Caracas aumentou

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol