
Pablo E. Chacón
De Buenos Aires, Argentina
Juan Goytisolo nasceu em Barcelona e publicou obras importantes (Reivindicación del Conde don Julian, En los reinos de Taifa, Las virtudes del pajaro solitario, El bosque de las letras, De la Ceca a la Meca, Coto vedado) e crônicas de viagem e testemunhos como correspondente de guerra (Cuaderno de Sarajevo, Argelia en el vendaval, Paisajes de guerra con Chechenia al fondo). Seu irmão mais velho, José Agustín, poeta, se suicidou em meados dos anos 90. O mais novo, Luis, por outro lado, é um contista de relevância e está bem vivo.
Juan deixou a Espanha aos 26 anos e nunca mais voltou. Era, como dizia Luis Cernuda, um desses "espanhóis desapegados". E podendo adotar a França como sua segunda pátria - ali se casou com Monique e viveu intermitentemente desde que cruzou a fronteira -, encontrou seu lar em Marrocos: pelas mãos de Jean Genet se atreveu a dar um passo duplo: casamento aberto, heterossexualidade e homossexualidade, exercida sem pudor e com uma coragem que na época, tão liberal, não era fácil de absorver.
Instalado em uma casa logo atrás da praça Djemaa el Fna, abomina o e-mail e aos 76 anos se declara "profundamente pessimista" diante do atual estado de coisas, muito mais depois da Bósnia, Argélia, Palestina, Tchetchênia, Afeganistão e Iraque, e das mortes de Monique e de seus amigos "de coração", a escritora Susan Sontag e Guillermo Cabrera Infante.
Goytisolo fala árabe e foi quem conseguiu o título de Patrimônio Histórico da Humanidade para a praça mais famosa de Marrakesh, de todo o norte da África. Pergunta por Buenos Aires. Digo que é uma cidade dividida, um sul pobre, um norte rico. "Como todas", diz. Esteve por aqui em 89.
Terra Magazine - Já não viaja mais, ou viaja muito menos? É isso?
Juan Goytisolo - É isso. Não tenho muita necessidade de me locomover. Tudo que amo de verdade está aqui. Só de tempos em tempos vou a Paris. É uma cidade linda, com um caráter muito aberto e com um clima perfeito. Fica um pouco atribulada no verão, quando chegam os aventureiros da indústria turística. Os exploradores de design - diz, e dá risada - Sim, batem o pé. Discutem aos berros, pechincham. Simulam rigidez, sobretudo os espanhóis, com essa atitude complacente, condescendente que têm para com os aborígenes. Desde a entrada na União Européia, a arrogância dos espanhóis não tem nada que invejar à dos alemães ou ingleses.
Que valores unem a sociedade árabe?
Bem, é um erro falar de sociedade árabe, porque cada país é diferente. A Tunísia é mais avançada economicamente que a Argélia ou o Marrocos, com um nível de vida e escolarização aceitáveis; e a condição da mulher é quase a mesma de uma européia. Mas existem ditaduras sinistras. Marrocos tem um nível de vida mais baixo, mas com uma relativa liberdade. Isso enquanto você não se meter com o rei. Da mesma forma, não é um estado policial.
A imprensa ocidental não deixa de falar em terrorismo também no Marrocos.
(Longo silêncio) É uma visão clássica. O filme "Babel", por exemplo, nada fez para desmentir o estereótipo. De toda forma, convém esclarecer que, hoje, com o desastre que vive o Oriente Médio, as palavras do Corão transmitem a alguns uma mensagem de violência, o que é um problema. Há trinta e poucos anos, ele não existia, e agora existe, ainda que o Corão não tenha mudado. Por isso, é preciso procurar as razões internas e externas desse islamismo radical.
E quais seriam?
Já escrevi que a doutrina de Bin Laden conquista adeptos nas faixas mais desamparadas da população. A maioria dos terroristas suicidas provém dos bairros mais pobres do país. Mas a origem do atual confronto pode ser traçada a 1967, quando o exército israelense ocupou os territórios palestinos. Depois disso, muitos outros fatores influenciaram o processo: o assassinato de milhares e milhares de bósnios em Kosovo, a ocupação russa do território tchetcheno, os conflitos na Argélia e Afeganistão, a situação que os iraquianos vivem. Tudo isso abriu caminho para a expansão do fundamentalismo religioso no mundo árabe, um fenômeno que, até os anos 60, era completamente marginal. E se somarmos a isso o peso de uma tradição opressiva - os povos árabes foram e são governados por teocracias feudais ou ditaduras -, o subdesenvolvimento, o analfabetismo, as cenas de violência transmitidas dos territórios palestinos ocupados, se pode entender algo sobre o beco sem saída em que vivem esses povos. A única via de escape é a religião. Entre isso e a violência radical, restam poucas portas a cruzar.
A violência não é exclusividade do Islã.
Obviamente. As coisas são claras. Do pecado original da mulher à destruição de Sodoma e Gomorra, passando pelas ameaças, o inferno, as visões apocalípticas: o Deus das três religiões monoteístas é terrível. E eu o declaro porque meu agnosticismo não será modificado.
E quanto ao futuro?
Não tenho nada de adivinho, nem disponho de uma bola de cristal, de jeito algum. Mas creio que não haverá estabilidade nos países árabes até que o conflito entre os árabes e Israel seja resolvido de maneira justa. É preciso um retorno às fronteiras reconhecidas internacionalmente. Tenho respeito e simpatia pela cultura judaica, mas o que eles estão fazendo agora é pura barbárie. O fato de que tenham sofrido como sofreram não lhes confere o direito de se comportar de maneira diferenciada. Fui três vezes aos territórios ocupados: é pura barbárie. E enquanto isso não for resolvido, o ódio e o rancor continuarão aumentando.
O senhor imagina como será o Iraque depois da invasão e da retirada dos norte-americanos?
É imprevisível, mas o mundo está menos seguro e mais incerto. No Iraque, existia uma ditadura, que eu classificaria como pior que a de Pinochet, a de Videla ou a de Fujimori. Mas agora há a desordem total. Os norte-americanos conquistaram o ódio de toda a população. E é incrível a ignorância deles, dos assessores que cercam os líderes do país. Isso ficou demonstrado no primeiro dia em que entraram em Bagdá e permitiram que fossem saqueados o museu arqueológico e a biblioteca da cidade, duas jóias culturais, parte do patrimônio histórico da humanidade, mas defenderam a sede do ministério do Petróleo. Isso expõe a ignorância e desprezo que sentem pela milenar cultura iraquiana, que remonta à Mesopotâmia e à Babilônia.
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