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Quarta, 30 de maio de 2007, 08h01

Diversificação na moda

Maria Alice Rocha

Já não é novidade ler a respeito de celebridades lançando coleções de moda. Bom gosto, faro apurado, personalidade forte e estilo sofisticado são sempre as razões apontadas para o sucesso de uma nova marca assinada.

Os exemplos são incontáveis e a fórmula tem feito muito sucesso e lucro. A linha Kate Moss para a Topshop continua causando furor entre fashionistas e já há a promessa de uma nova coleção da topmodel para próxima estação.

Madonna, Liz Hurley, John Malkovich, Milla Jovovich, Tiger Woods, Penélope Cruz, Sarah Jessica Parker, Ronaldinho Gaúcho, Victoria Beckham entre outros famosos já são considerados talentosos "estilistas". Todos, é claro, em parcerias milionárias com grandes marcas de moda, esportes e bens de consumo.

Talvez como uma natural reação a essa tendência em "simplificar" o método de criação, ou não dar o crédito devido aos profissionais da equipe como um todo que grandes nomes da moda estão diversificando sua atuação e encarando novos desafios.

A decoração de interiores têm representado um ótimo filão para muitos estilistas, que atuam no segmento moda lar. É certo que para os criadores há uma facilidade no manuseio e definição de produtos ligados a têxteis como os produtos de cama, mesa e banho, mas já há algum tempo é possível adquirir tapetes, papéis de parede, objetos, móveis, e até eletrodomésticos.

Há casos em que os produtos são apenas endossados por uma personalidade, mas há outros em que a concepção e execução do projeto foram acompanhados de perto pelo profissional.

A diversificação de atividades têm levado nomes como Armani, Versace, Missoni e Pucci, todos italianos, a se tornarem referência em feiras e exposições relacionadas com arquitetura e interiores. Bares e hotéis já fazem parte do portifólio desses profissionais e ambos os caminhos indicam levar, em pouquíssimo tempo, a um encontro proveitoso com a gastronomia.

Enquanto a maioria dos profissionais mantêm, apesar da diversificação de atividades, os seus projetos voltados para uma camada privilegiada ou restrita, alguns têm feito parcerias significativas com o poder público e obras de caráter popular.

O desafio provavelmente mais árduo, embora não menos glamuroso, está nas mãos do renomado estilista da alta costura francesa Christian Lacroix, por meio de um projeto em desenvolvimento para o governo de Montpellier, na França, desde o final do ano passado.

Ganhador de um concurso público concorridíssimo, Lacroix e equipe são responsáveis pelo design da Linha 3 do bonde (tramway) da cidade francesa. De antemão, o estilista fez modificações no formato do "nariz" da cabine do condutor. Mais que isso, concebeu uma decoração de interiores para os vagões em consonância total com os seus vestidos que colorem as passarelas.

Segundo Lacroix, ex-aluno de história da arte em Montpellier e filho da região de Arles, no sul da França, a inspiração foi fruto da passagem da montanha para o mar, que corresponde ao traçado norte-sul da futura linha. As cores frias vão se tornando quentes, e a natureza rural vai dando lugar a elementos marinhos.

O orçamento para a realização desse projeto de transporte urbano gira em torno de 450 milhões de euros (cerca de 1 bilhão e 250 milhões de reais), incluindo custos de terraplenagem, obras de engenharia, trilhos, equipamentos, identidade visual e contratação de mão-de-obra. Certamente é o projeto de maior vulto já colocado sob a responsabilidade de um estilista.

Mesmo sabendo que a linha 3 do bonde tem o início de operação previsto somente para 2012, a população local aguarda a novidade com muita expectativa, pois Christian Lacroix tem mostrado seu flexível talento em outras obras de dimensão pública. São criações suas a decoração de um cinema em Amiens, de um anfiteatro em Arles, dos uniformes dos funcionários da empresa francesa de trens e de pelo menos dois hotéis em Paris.

Com esse tipo de iniciativa, a França demonstra que a moda transcende as passarelas e cabe com bastante propriedade na malha urbana das cidades do século 21. Mais que isso, que a moda apesar da sua origem excludente, pode ser parceira em projetos includentes.


Maria Alice Rocha é doutoranda em moda na University for the Creative Arts de Rochester, Inglaterra, e professora e pesquisadora de moda, vestuário e consumo na Universidade Federal Rural/PE.

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Montpellier Agglomération/Divulgação
Design da Linha 3 do bonde (tramway) em Montpellier feito por Christian Lacroix

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