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Sexta, 1 de junho de 2007, 08h06

Esperando George Dábliu

Vera Gonçalves de Araújo

Preparando sua maleta para a viagem oficial que fará à Itália a partir de 9 de junho, George Dábliu Bush deve se sentir como um sobrinho obrigado a visitar uma daquelas velhas tias chatas, que moram numa casa antiga, com cheiro de bolor, e que te obrigam a comer biscoitos de polvilho com gosto de armário e a beber licor de jenipapo.

Deu pra entender que o presidente norte-americano não faz questão nenhuma de visitar Roma. Nesse momento, a Itália não é um dos aliados prediletos de Washington. Será o primeiro encontro entre Bush e Romano Prodi, desde as eleições italianas em abril de 2006: sinal do desapontamento do governo dos Estados Unidos por ter perdido um aliado como Silvio Berlusconi.

Quando governava os italianos, Berlusconi se gabava de seus grandes amigos George, Tony e Vladimir, que vinham passar férias numa das suas sete mansões na Sardenha, ou o convidavam para visitar seus ranchos e suas dachas. Desde que foi eleito premiê, Prodi não foi nem uma vez aos Estados Unidos: visitou a China, o Brasil, a Índia, mas esnobou os ianques. Uma das primeiras decisões de seu governo foi retirar as tropas do Iraque. Tudo isso, para Washington, equivale à demonstração de que a esquerda italiana é profundamente anti-norteamericana.

O que não é verdade. O governo Prodi frisou sua fidelidade à Otan, e a esquerda moderada se distingue constantemente da radical, que critica o governo Bush e os EUA em geral. Washington, aliás, nada fez para conquistar corações, e continua usando seu inconfundível estilo na política exterior. As brigas entre Itália e Estados Unidos aumentaram, quase todas provocadas pela arrogância norte-americana.

Um dia antes da chegada de Bush, vai começar o processo (à revelia) a 26 agentes da CIA que raptaram em Milão o imam Abu Omar, há quatro anos atrás. Muitos italianos se irritaram diante da recusa dos EUA de extraditar os agentes. Washington afirma que pode fazer o que bem entende para defender o Ocidente na "guerra ao terror". Com a mesma lógica, nega-se a extraditar Mario Lozano, o soldado que matou o agente dos serviços secretos italianos Nicola Calipari, baleado no seu carro enquanto levava a jornalista seqüestrada Giuliana Sgrena para o aeroporto de Bagdá, depois de sua libertação.

Para não falar da questão de Vicenza. A grande maioria dos cidadãos da pequena e rica cidade perto de Veneza não gostou da decisão de transferir 2 mil soldados norte-americanos lotados na Alemanha para a base italiana de Camp Ederle. O quartel de Vicenza já abriga milhares de soldados e para acolher as novas tropas, os generais do Pentágono pretendem transformar o aeroporto Dal Molin numa base gigante. Prodi aprovou o projeto - preparado por Berlusconi - em janeiro passado, três dias antes do ultimato lançado com pouquíssima diplomacia pelo embaixador Ronald Spogli. Ninguém pediu a opinião dos habitantes da cidade, opinião que foi expressada claramente em fevereiro, quando 150 mil pessoas participaram numa passeata pacífica contra a ampliação da base. Os Estados Unidos já controlam três milhões de metros quadrados do território de Vicenza, enquanto a indústria local - uma das mais ricas e bem sucedidas da Itália - tem pouco mais de dois milhões.

Durante a visita de Bush, esse assunto não está em pauta, pelo menos oficialmente. Mas a diplomacia de Washington deveria pelo menos estudar uma maneira de relançar o diálogo com os italianos. Para evitar que os Estados Unidos tenham que se defender não só dos "países canalhas", mas também de aliados e amigos.


Vera Gonçalves de Araújo jornalista, nasceu no Rio, vive em Roma e trabalha para jornais brasileiros e italianos.


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George Dábliu Bush vai à Itália

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