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Sexta, 1 de junho de 2007, 08h05

Fazendo as pazes com o teatro brasileiro...

Deolinda Vilhena

Ninguém mora cinco anos em Paris impunemente. Sobretudo quando a temporada vivida na Cidade Luz está diretamente relacionada ao estudo. Estudantes e pesquisadores em Paris são privilegiados, e mais ainda se a aréa de atuação é o teatro. Aí chega a ser covardia pois, segundo Emmanuel Wallon, a Cidade Luz como capital da região Île-de-France é a primeira metrópole do espetáculo mundial pela variedade e pela oferta, com 259 teatros do setor público - sem contar as salas de concertos - e 156 teatros do setor privado, deixando para trás aglomerações como Londres ou Nova York, Shangai ou Bombaim, que dispõem de um bom número de salas mas um cardápio com escolhas em número reduzido.

Logo, ainda que me mantivesse atualizada sobre o teatro brasileiro durante meu exílio mais do que voluntário, ter consagrado cinco anos da minha vida ao estudo e análise do modelo francês de produzir teatro me levou a assistir a mais de 200 espetáculos e de uma certa maneira a me afastar do teatro feito no Brasil.

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Até porque, antes mesmo de partir eu já fazia parte de uma turma de teatro que não condizia com a faixa etária da minha geração... Ao escolher trabalhar com nomes como Bibi Ferreira, Maria Della Costa, Nathalia Timberg, Paulo Gracindo, Gracindo Júnior, Rosamaria Murtinho, Paulo Goulart, Nicette Bruno, Tônia Carrero e tantos outros, eu havia, ainda que inconscientemente, escolhido o meu modelo de teatro: o bom e velho teatrão, e não há aqui preconceito algum, apenas constato os fatos.

Lembro-me dos meus tempos de faculdade de jornalismo no Rio de Janeiro... Colega de turma de jovens atores como Laurinho Corona, Tetê Pritzl e Romeu Evaristo. Sem falar das irmãs Mesquita, Cristiana e Leonora, irmãs do Evandro... Na época membro da trupe, Asdrúbal trouxe o trombone, todos só tinham olhos para a montagem do Trate-me leão... Ao lado deles, eu parecia uma jovem-velha pois aos 17 anos de idade era assistente de produção de Sandro Polônio, na Companhia Maria Della Costa, na época a própria companhia tinha mais de o dobro da minha idade... Maria e Sandro o triplo certamente... Enquanto o Evandro estourava na Blitz eu assessorava Clara Nunes... Ou seja, mesmo na música eu andava na contramão da minha geração!

Construí uma bela carreira trabalhando ao lado de grandes nomes, personalidades que escreveram a história do teatro brasileiro mas ao mesmo tempo ao entrar para o teatro pela porta da frente, ou seja sem jamais ter feito teatro amador, universitário ou de grupo, perdi contato não só com a minha geração, como desconheço grande parte do teatro feito no Brasil nos últimos 30 anos, tempo que tenho de profissão. Estranha contradição para quem sempre teve Mnouchkine e o Théâtre du Soleil como ideal...

Entretanto, entre os dias 21 e 26 de maio, graças ao Itaú Cultural, ao Consulado Geral da França, ao British Council, ao Instituto Goethe e a Agência Espanhola de Cooperação Internacional - com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura e da Oficina Cultural Oswald de Andrade - que promoveram a quinta edição do Próximo Ato - Encontro Internacional de Teatro Contemporâneo, pude reavaliar minhas posições e reencontrar o "outro" lado do teatro brasileiro, aquele que eu mal conhecia...

E logo vi que os que ali estavam contradiziam meu bom e velho Procópio. Para ele, "teatro é uma arte que todos discutem, poucos entendem, e pouquíssimos realizam...", mas nesses dias de Próximo Ato, muito se discutiu e se, infelizmente, não haviam espetáculos previstos na programação, os representantes dos 50 grupos brasileiros que ali estavam, fazem sim teatro e de boa qualidade a julgar o elevado nível do discurso.

A começar pelo texto assinado pelos três curadores dessa edição, Antonio Araújo (Teatro da Vertigem), José Fernando Azevedo (Teatro de Narradores) e Maria Tendlau (Companhia Coisa Boa), que reproduzo aqui por incapacidade de escrever outro melhor : "teatro de grupo: relações que nos definem ou circunstância que nos organiza? Se por um lado busca-se no reconhecimento de relações não hierárquicas ou colaborativas de trabalho uma definição do que seja teatro de grupo, talvez não seja demais, por outro lado, supor nesse empenho a marca de um processo de organização ainda mais diverso e complexo do trabalho teatral, no qual o teatro de grupo fosse um aspecto ou até mesmo um momento.

Nesse sentido, partindo dessa experiência, talvez pudéssemos iniciar efetivamente uma discussão que nos fizesse ver na fisionomia de nossa cena as marcas de tais relações. Se assim é, que dramaturgia essa instância colaborativa tem efetivamente produzido? Que ator os processos não-hierárquicos têm reclamado? Como os diretores vêem seu papel redimensionado? Que artistas esse teatro tem mobilizado? Quais as questões propostas por essa cena? Que riscos ela corre? Que relações têm sido estabelecidas com o público? Ou mesmo: que público tem sido formado à medida que essa cena se forma? Face à circunstância econômica, como os espaços têm determinado essas relações, fazendo radicalizar as opções poéticas? Se na disputa de um fundo público o teatro tem sugerido formas novas de mobilização, qual, de fato, é sua capacidade para o combate, já que, sendo um 'campo público' por definição, não é demais afirmar que seu alcance desde sempre tem exatamente o tamanho da "esfera pública" entre nós."

Representando os grupos de São Paulo e região: As Graças; Barracão Teatro; Bendita Trupe; Boa Companhia; Casa da Comédia; Cia. de Teatro Paidéia; Cia. do Feijão; Cia. Coisa Boa, Cia. de Teatro Balagan; Cia. Os Satyros; Cia. dos Dramaturgos; Cia. Elevador de Teatro Panorâmico; Cia. Estável; Cia. Livre; Cia. Nova Dança; Cia. Ocamorana; Cia. Razões Inversas; Cia. São Jorge de Variedades; Círculo de Comediantes; Folias D'Arte; Fraternal Cia. de Artes e Malasartes; Grupo dos 7; Grupo Parlapatões; Grupo XIX de Teatro; Ivo 60; Lume; Núcleo Argonautas; Núcleo Bartolomeu de Depoimentos; Núcleo Cênico Arion; Os Fofos Encenam; Pia Fraus; Tablado de Arruar; Teatro da Conspiração; Teatro da Vertigem; Teatro de Narradores; Teatro Fábrica; Teatro Oficina Uzyna Uzona; Teatro União e Olho Vivo; Teatro Ventoforte. De outros estados, graças ao subsídio do Itaú Cultural, vieram representantes do Bando de Teatro Olodum (Salvador); Cia. Brasileira de Teatro (Curitiba); Cia. dos Atores (Rio de Janeiro); Grupo de Teatro Clowns de Shakespeare (Natal); Grupo Falos & Stercus (Porto Alegre); Grupo Galpão (Belo Horizonte); Grupo de Teatro Imbuaça (Aracaju); Grupo Piollim (João Pessoa); Teatro do Seraphim (Recife); Cia Carona (Blumenau); Cia Os Dezequilibrados (Rio de Janeiro).

Verdadeira cereja sobre o bolo, como dizem meus amigos franceses, foi a presença dos integrantes do grupo inglês Improbable para os trabalhos realizados nos dois primeiros dias do encontro no belo espaço da Oficina Oswald de Andrade, ali pertinho do teatro Taib... que eu também desconhecia... vou acabar tendo que fazer um novo doutorado e dessa vez em teatro brasileiro contemporâneo para compreender porque há pouco mais de seis décadas do início da moderna fase da produção teatral brasileira, o bom teatro produzido hoje no Brasil é produzido por grupos.

Com a ajuda da Paula Lopez, da Contemporânea Companhia de Teatro, os que não dominam a língua do bardo puderam se deliciar com as propostas apresentadas no Espaço Aberto...todos os que tinham uma idéia a apresentar, uma proposta de debate, eram convidados a escrevê-la numa folha de papel e depois colocá-la num grande painel colocado no final da sala. Maneira democrática de articular os debates das tardes de segunda e terça. Ao lado de Philippe Ariagno, adido cultural francês e de Béatrice Picon-Vallin, professora do Instituto de Estudos Teatrais da Sorbonne e diretora do laboratório de teatro do CNRS (Conselho Nacional da Pesquisa Científica na França), integrei dois debates: um sobre a necessidade/importância de um espaço para os grupos e outro sobre teatro de grupo ideologia, moda ou necessidade de sobrevivência?

Confesso que fiquei impressionada com o nível de discussão. Vi Béatrice Picon-Vallin boquiaberta com a organização dos debates, não houve lugar para o bate-boca, todos puderam argumentar, ouvir, ser ouvidos. Pouco habituada a esse tipo de encontro no Brasil, posso dizer que tomei um banho de imersão na realidade do teatro desse meu país às vezes por demais altaneiro...

Pude conversar alguns poucos minutos com gente como Cibele Forjaz, que conheci menina, iluminando Viagem a Forli de Mauro Rasi no Teatro Copacabana, no início dos anos 90 no Rio... com Fernando Kinas, um "sorbonnard" como eu... com Márcio Abreu da Companhia Brasileira de Teatro, com Chica Carelli, do Olodum, que fez a famosa oficina de Maurice Durozier e Georges Bigot, organizada por Violeta Arraes nos idos 1988... Sem falar nos meus ex-professores e em breve, espero eu, colegas de departamento, que prazer rever Maria Lúcia Pupo e Silvinha Fernandes, de quem sou tutelada nessa minha fase de recém-doutora.

As palestras e os mini-cursos de Oscar Cornago, da Espanha e da Helga Finter, da Alemanha foram verdadeiras aulas para alguém que pouco se interessou ao longo da vida pelo teatro desses dois países... Sem falar da palestra e do mini-curso de Béatrice Picon-Vallin, minha amada mestra francesa, que tornou pública a existência do meu trabalho sobre o Théâtre du Soleil e com a qual partilho tantas idéias no modo de analisar essa trupe que é referência mundial de teatro de grupo. Mas quando ela falou do teatro russo, de Stanislavski, de Vakhtangov e Meyerhold, conclui que nem fazendo um doutorado por ano a gente pode saber e/ou conhecer tudo... por isso a importância de encontros como o Próximo Ato.

Aliás, anotem nas agendas a programação de Maria Thaís, diretora do TUSP - Teatro da USP que organiza entre 13 de junho a 30 de julho de 2007 a 4ª Mostra de Teatro - Experimentos "dando continuidade à atuação como órgão de extensão universitária, através da divulgação das pesquisas realizadas nos espaços de formação teatral da Universidade de São Paulo (Departamento de Artes Cênicas - CAC e Escola de Arte Dramática - EAD). A Mostra também propiciará o diálogo com outras instituições públicas de ensino das artes cênicas como o Departamento de Artes Cênicas da Unicamp e a Escola Livre de Teatro de Santo André."

Essa colunista foi convidada - e honrada, aceitou o convite - para integrar uma mesa debatedora "Indagações: Como os meios de produção dialogam e expressam o pensamento artístico?" no dia 03 de julho às 19h, no próprio TUSP.

Todas essas atividades, todo esse encontro da prática com a teoria, esse questionamento constante renova minhas esperanças no teatro brasileiro. Lógico, que ele não é perfeito mas a desprorpocionalidade entre o apoio do poder público e o talento existente é gritante.

Não, o teatro brasileiro não está em crise. Pelo menos, não crise de talentos a crer nas discussões e nas palestras do Próximo ato. A crise do nosso teatro é provocada pela ausência de políticas públicas, de investimento público adequado à manutenção e aprimoramento de nossos talentos permitindo, por exemplo, que o Tó, como chamamos carinhosamente o Antonio Araújo, possa se dedicar única e exclusivamente à criação e não aos problemas de produção e de captação de recursos. E que o público brasileiro seja brindado com espetáculos como BR-3 que poderá ser realizado no Tiête, no São Francisco ou no Amazonas porque rio é o que não nos falta... já vergonha na cara... Afinal "quando os que mandam perdem a vergonha, os que obedecem perdem o respeito", como diz Lucila, personagem de Bibi Ferreira em Às favas com os escrúpulos...

Por falar em Bibi, não poderia terminar a coluna sem lembrar que ela completa hoje, dia 1° de junho, 85 anos. Minha amiga querida, durante uma semana fui hóspede dela, chiquérrima no Maksoud Plaza, o que me permitiu participar do Próximo Ato e ao mesmo tempo acompanhar de perto o sucesso dos últimos ensaios e das primeiras apresentações de Às favas com os escrúpulos.

Se vocês ainda não tiveram a oportunidade, corram para vê-la. Não é todo dia que se tem uma lenda viva do teatro em cena. Presente em 70 das 76 páginas do texto de Juca de Oliveira, Lucila, personagem de Bibi, garante algo mais do que boas gargalhadas aos que vão ao Teatro Raul Cortez... é a minha dica para o final de semana. Os que forem aplaudi-la essa noite podem mesmo cantar Parabéns à você...Bibi merece! Tenho certeza que seu maior presente hoje é estar em cena... God save the Queen!


Deolinda Vilhena é jornalista, produtora cultural, mestre em Artes pela ECA-USP, mestre e Doutora em Estudos Teatrais pela Sorbonne Nouvelle-Paris III

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