
Fernando Eichenberg
Se um dia você tiver a oportunidade de vê-la em cena, tenha certeza, nunca mais a esquecerá. A islandesa Erna Ómarsdóttir é um personagem único e inclassificável no cenário da dança contemporânea. Impossível assistir a um de seus espetáculos sem se sentir nocauteado por sua singular força artística, por sua tragédia e sua graça, por seu animalismo e sua leveza, pela energia bruta e física de sua linguagem corporal em intermitente tempestade. Seu corpo é bicho, é humano e também pode assumir com facilidade a genética de uma forma indefinida qualquer. O palco é espaço infinito para a expressão de seus movimentos e de sua camaleônica voz. Suas cordas vocais produzem distorções, vibrações, cantos primais, gritos atonais, tonalidades punk-rock ou canções infantis. Erna Ómarsdóttir é mansa lagoa e vulcão em erupção. É densa e selvagem floresta e duna serena e deserta. É o excesso e o mínimo. É monstro e fada, anjo e diabo. É, hoje e cada vez mais, um nome prestigiado e incontornável da dança moderna.
Recentemente, fui assistir no Centro Georges Pompidou a exibição de vídeos da também islandesa Gabríela Fridriksdóttir, conhecida por seus trabalhos visuais e por sua producente parceria com a cantora Björk. Em um dos vídeos da série Versations Tetralogia, apresentada na 51° Bienal de Veneza (2005), uma criatura branca e viscosa é expelida de uma Björk agigantada em sua forma por vários sacos de tecido cru empilhados em seu corpo. A estranha criatura, rastejando no solo, é uma irreconhecível Erna Ómarsdóttir. "Irreconhecível", neste caso, é redundância. Talvez seja exatamente essa sua constância: a permanente mutação de seus estados e sua incansável curiosidade artística. Ao final da projeção, no debate com a videasta Gabríela, perguntei sobre a colaboração com a amiga e conterrânea. Sua resposta foi a melhor definição do personagem: "Erna Ómarsdóttir não é uma artista, é um elemento".
Em uma mesa do simpático café-bistrô Chez Francis, no bairro Montmartre, em Paris, conversei com o elemento Erna Ómarsdóttir para a Terra Magazine. Com a voz que adorna sua beleza de terra gelada e distante e seus translúcidos olhos de cristal, ela solicita a ajuda do meu francês para pedir ao garçom um cálice de vinho tinto. "Mas que não seja um vinho de cor transparente", acrescenta. Fora do palco, se confessa ainda um pouco tímida, embora já tenha progredido bastante: "Antes eu não sabia como falar com pessoas desconhecidas, diante de um grupo, na escola. Eu bloqueava. Costumava ser bastante tímida, mas isso mudou para mim. Em cena, aprendi um jeito de me comunicar com as pessoas". A dança, para ela, foi fundamental nessa liberação. "Eu sei que é clichê dizer isso, mas a dança salvou a minha vida, senão não teria como me expressar. Se não tivesse encontrado esse caminho, não sei onde estaria. Estaria perdida no espaço", diz.
À parte as apreciações dos amigos e parceiros artísticos, Erna Ómarsdóttir também tem um jeito de ver a si mesma: "Acho que sou um sad clown, com certeza. Sou romântica, dramática, também talvez um pouco sarcástica, mas sempre buscando um funny style, tento não me levar muito a sério, não me julgar muito. Faço as coisas sem medo de ser ridícula. Posso até ser, mas adoro isso. É um jogo. Encaro meu trabalho como uma brincadeira séria. Gosto de fazer coisas patéticas, jogar com essa fronteira, estar lá onde não imaginaria estar, seguir meus sentimentos e uma certa intuição. É bom ter um equilíbrio, mas há coisas que forçam além do limite, que a razão me diz que deveria evitar, mas que sinto que tenho de fazê-las mesmo assim. Gosto de correr riscos, fazer coisas diferentes e na espontaneidade. Gosto de surpreender a mim mesma. É apenas teatro, mas é também parte da minha vida".
Na infância, Erna Ómarsdóttir costumava dançar ao som de antigas sinfonias na sala de sua casa, em Kopavogur, sua cidade natal na Islândia, próxima à capital Reykjavík. Mais tarde, passou a fazer performances na janela, junto com seu irmão. "Os vizinhos vendiam entradas", conta, rindo. Experimentava passos de dança de salão, jazz, disco ou balé. No final da adolescência, fez uma audição para uma escola de balé. "Eu já era um pouco velha, a idade máxima exigida acho que era 9 anos, mas me aceitaram porque uma das senhoras me viu dançando afro, e como eles eram bastante flexíveis, acabei aprovada". Na academia de dança de Roterdam, na Holanda, amargou dois anos "sofrendo": "Lá eles só ensinavam a perfeição técnica. Era uma academia de treino militar. Estava matando minha paixão pela dança, então decidi partir. Eles não me expulsaram, mas me disseram algo tipo: ¿Talvez seja melhor você se dedicar a outra coisa¿. Eles eram horríveis nesse sentido".
Ao conhecer o trabalho da coreógrafa francesa Maguy Marin, compreendeu o que poderia fazer com a dança. Seu nascente talento pôde ser experimentado a partir de 1995, quando entrou na reputada escola P.A.R.T.S. (Performing Arts Research and Training Studios), da coreógrafa Anne Teresa De Keersmaeker, na Bélgica. "Era uma outra mentalidade. Éramos alunos de todas as idades, dos 18 aos 31 anos, com todo o tipo de experiências, em teatro, ópera, balé. Trabalhava-se em diferentes direções, não se queria impor um estereótipo". O coreógrafo venezuelano David Zamprano, com quem teve contato em P.A.R.T.S., também teve forte influência na sua maneira de abordar a dança. Em 1996, com mais quatro colegas, Erna criou o grupo de dança e teatro Ekka. "Em qualquer feriado, Natal ou outro, estávamos fazendo algo". Depois do trabalho com Tom Plischke, em Events for TV (again), em 1998, passou a dançar, no mesmo ano, com o flamengo Jan Fabre. Erna integrou as criações The fin comes a little bit earlier this siècle (1998), As long as the world needs a warrior soul (1999) e foi a estrela unanimemente aplaudida do solo My movements are alone like streetdogs, criado para o Festival de Avignon (2000). Diante do sucesso e da demanda, os 30 minutos do solo foram espichados para 50 minutos, e a peça se consagrou numa turnê de dois anos por festivais e teatros internacionais. Entre músicas de George Brassens e dos Pixies, na companhia de três cadáveres de cães, Erna atuava como um imã ao olhar da platéia. "Foi um desafio mas também um prazer, nunca sabia se sobreviveria ao final de cada representação", confessou.
O trabalho com Jan Fabre foi o
trampolim para convites de festejados coreógrafos como Sidi Larbi Cherkaoui
(imperdível a performance de Erna na peça Foi), o Ballet C de
Seu interesse em trilhar caminhos menos óbvios ao
seu percurso levou-a a
realizar trabalhos
Depois de quase duas horas de
conversa, a entrevista chega ao fim. "Nossa, eu falei todo esse tempo?",
surpreende-se a ex-tímida. Erna Ómarsdóttir é bailarina, coreógrafa, artista e,
sem dúvida, um elemento
Terra Magazine
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