
Thais Bilenky, especial para Terra Magazine
Freqüentemente descrita como uma manifestação acéfala, sem líderes claramente identificados, a ocupação da reitoria da USP está organizada em torno de um corpo de representantes. Eles têm posições políticas diversas, mas estão unidos pela revogação dos decretos do governo paulista lançados no dia 1º de janeiro de 2007 e pelo aumento das verbas públicas para a educação. E estão, em geral, à frente das negociações com a reitora Suely Vilela e governo.
Os estudantes que militam em partidos e organizações políticas são minoria no movimento, mas estão presentes. Do PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado), a aluna Elen, do curso de História, faz parte do grupo que vai às reuniões de negociação, juntamente com Márcia (nome fictício), que também cursa História, mas é filiada ao PSOL (Partido Socialismo e Liberdade), Flavia, das Ciências Sociais, é da Liga Estratégica Revolucionária, dissidência do PSTU. Maria Fernanda, das Ciências Sociais, e Legume, da História, são "independentes", como a maioria dos estudantes que ocupam, desde o dia 3 de maio, o prédio da reitoria.
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No início da ocupação, formaram-se comissões "rotativas e fluidas" de segurança, alimentação, limpeza, cultura, comunicação e negociação. Os integrantes de cada uma delas se alternam conforme a necessidade do momento. Funcionários, filiados ao Sintusp (Sindicato dos Trabalhadores da USP) ou a outras organizações, estudantes da Unesp, da Unicamp e até mesmo da PUC e ainda alguns indivíduos cuja origem é desconhecida entram no esquema. Mas o funcionamento das negociações e da comunicação é mais complicado.
Para a comissão de negociação, o critério adotado para a composição do corpo de aproximadamente trinta integrantes é que fariam parte dois representantes de cada curso cujos alunos estivessem presentes na ocupação do prédio. Acontece que logo se constatou a importância da continuidade dos diálogos. De modo que se formou um núcleo relativamente fixo de negociadores.
A comissão de comunicação foi formada, no começo, por estudantes de jornalismo da própria Universidade de São Paulo. Como uma resposta quase que automática à configuração do movimento, assim que o prédio da reitoria foi ocupado, os computadores foram usados para a produção de textos, panfletos e do blog da ocupação (ocupacaousp.noblogs.org). O intuito era criar uma mídia própria para dialogar diretamente com outros setores da sociedade.
Durante o mês que já dura a ocupação, porém, jornalistas de muitos veículos abordam os alunos diretamente. O que cria um grande impasse entre os que aceitam dar entrevistas e responder às perguntas e os que são contrários a qualquer contato com a mídia: "Em vez de dar entrevistas, deveriam usar este tempo produzindo panfletos e textos para o blog", opina Silvia, do curso de Ciências Sociais, revelando as dificuldades do movimento estudantil na adoção de uma política de comunicação coerente.
Negociações
Para Márcia, desenrolou-se no prédio da reitoria um fenômeno "muito comum nos movimentos de esquerda e principalmente ultra-esquerda". Uma desconfiança, às vezes até "conspiratória", em relação a todos aqueles que queriam o movimento sem lideranças, sem tendências políticas nem representatividades.
Como forma de sanar os receios de que houvesse "traição" dos negociantes, decidiu-se encher as comissões de negociação com pessoas diversificadas. Uma das decorrências desta medida, para Márcia, é a desqualificação política de alguns dos que se propuseram a participar e a falta de vontade de realmente se chegar a um acordo.
Segundo Flavia, o movimento deve adotar uma direção encabeçada por delegados eleitos em assembléias de curso. Ela questiona a validade das assembléias gerais, que acontecem no prédio da reitoria, nas quais o número de alunos presentes, aproximadamente 300, é insignificante perto da totalidade do corpo discente da USP, cerca de 80 mil.
A Liga Estratégica Revolucionária se retirou das comissões de comunicação e negociação por não acreditar que esta estratégia de organização continuará sustentando o movimento. Flávia afirma que a união entre estudantes e funcionários é fundamental para barrar a tendência da Adusp (Associação dos Docentes da USP), de seu ponto de vista, de gradualmente acabar com a greve.
A Liga é uma organização criada após a expulsão de alguns militantes do PSTU, em 1999. Segue a linha trotskista e defende uma luta baseada na união entre estudantes e trabalhadores. A exemplo de Lênin e Trotski, que não eram da classe operária, mas se desvincularam de sua origem burguesa ou pequeno-burguesa para orientar o movimento dos soviets na Rússia, no começo do século 20. A organização afirma que tem sedes "em diversos países".
Os decretos publicados em janeiro pelo governador José Serra (PSDB) instauram a nova Secretaria de Ensino Superior, a encargo de José Aristodemo Pinotti. A medida gerou polêmica na comunidade universitária porque divide instituições que historicamente estiveram associadas. A Fapesp (Fundação de Apoio a Pesquisas do Estado de São Paulo) e as Fatec (Faculdades de Tecnologia) ficam sob a responsabilidade da Secretaria de Desenvolvimento e as universidades se tornam vinculadas à nova secretaria. Para os estudantes, a fragmentação pode enfraquecer o setor de educação e deixá-lo mais suscetível às intervenções de empresas privadas.
Um "decreto declaratório" foi lançado dia 30 de maio pelo governador, como uma nova interpretação dos primeiros decretos. Nele, Serra não faz alterações conceituais. Em alguns artigos referentes à autonomia universitária, ponto que gerou o estopim do movimento estudantil, mudou-se determinadas terminações: onde se encontrava "pesquisa operacional" agora se lê apenas "pesquisa", já que o "operacional" foi interpretado como condicionante a interesses de mercado.
Os estudantes não receberam este acréscimo interpretativo como uma "vitória" propriamente dita. Ele é importante porque demonstra que o movimento estudantil está atingindo as autoridades, mas ainda é necessário fazer com que os decretos sejam invalidados na sua totalidade, avaliam.
Existe outra discussão central entre o movimento estudantil. As negociações começaram em torno dos decretos de Serra e do aumento de verbas para o ensino público. Mas outros pontos de reivindicações, antes 12, agora 18, tomaram espaço nos diálogos com autoridades. As principais pautas são a elaboração de um novo estatuto da USP e a ampliação de vagas no Crusp (Conjunto Residencial da USP).
Maria Fernanda, estudante de Ciências Sociais e "independente", afirma que os alunos foram hábeis, diferentemente da reitora, ao impor que tratariam dos decretos com representantes do estado e dos demais pontos com representantes da universidade. Segundo ela, foram corajosos e estão sendo respeitados por isso.
A estudante crê que o movimento estudantil este ano está muito diferente. A comissão de negociação - praticamente não tem autonomia -, o que é bom, mas desafiador, segundo ela. "A gente precisa criar mecanismos de renovação das assembléias". É necessário trazer ao "cotidiano da ocupação" debates políticos que acompanhem o ritmo das negociações.
Suely Vilela é muito criticada entre os alunos e funcionários. "Desmoralizada", para Elen, que cursa História e milita no PSTU. "Ela chegou a dizer que se a gente defendesse os GT (grupos de trabalho) para o governo, ela discutiria com a gente a composição dos grupos", observa Elen, parecendo desacreditar na estratégia "estranha" de negociação da reitora. Estranha porque ela coloca os estudantes no meio dos acordos entre autoridades da universidade e governo.
A criação de grupos de trabalho (GT) é uma proposta dos três reitores da USP, Unicamp e Unesp. Eles seriam compostos por membros do governo e da comunidade universitária e analisariam "o ordenamento do Sistema de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo", integrando as instituições.
Quantos às verbas destinadas ao ensino público, o estudante que se identifica como Legume explica que a preocupação com "transparência" diz respeito não às operações financeiras e sim à aplicação dos rendimentos de juros de contas paradas em banco. Se os recursos são guardados pelo estado, o rendimento deixa de ser contabilizado pelas universidades. "Queremos saber o que o governo vai fazer com este dinheiro", diz.
Terra Magazine
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Reinaldo Marques/Terra
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