Sírio Possenti
Li num site que o Alemão do Big Brother foi reprovado como apresentador de um quadro de programa da Globo porque disse "dispois". E quem tira do ar os apresentadores que dizem "risco de morte" ou "busca pelo sucesso"? Todos acham que "dispois" ou "despois" é um erro (metade dos sábios vai dizer, muito originalmente, que isso dói no ouvido...), mas ninguém acha estranho que se diga "busca pelo/por". O que quer dizer que ninguém nota que houve ou está em curso uma mudança de regência de "buscar" e de seus derivados - e alguns outros verbos. Para muitos, se o percebessem, seria um erro, porque os dicionários e gramáticas dizem o que dizem.Uma das crenças mais sólidas que fazem parte do dito senso comum é que as pessoas falam errado. Outra que é muito difícil, no nosso caso, falar português corretamente. Ora, nada é mais falso. A verdade é que ninguém fala errado. O que existe são falas diferentes. A forma usada pelo Alemão é antiqüíssima e comum na fala popular. E, em espanhol, "depois" é "después" (o que importa é o "s" da primeira sílaba...). Por curiosidade, veja-se o que diz o dicionário do Houaiss sobre a palavra (enfatizo as formas com dês "origem controversa; a etimologia em que é tido como composto da prep. lat. de 'de' + adv. lat. post 'atrás', dá margem a várias restrições, em virtude de flutuações românica ... do elemento inicial de-/dês- e da dificuldade de explicar o -i- em -pois (por pós) etc.; donde as variantes depós, diretamente ligada à etimologia acima proposta, despois, antigo, com des- por de-".
Ou seja, Alemão está falando português arcaico...
Já escrevi aqui, em coluna anterior, que ninguém fala de qualquer maneira, ou seja, que todos os que falam o fazem seguindo regras, seguindo uma gramática. O que acontece é que há regras consideradas adequadas (certas) e regras consideradas inadequadas (erradas). O que um estudioso das línguas, especialmente de aspectos históricos das línguas, descobre ou aprende é que as regras não produzem simplesmente formas certas ou erradas, mas formas que são avaliadas como erradas ou como certas em épocas específicas. Consideradas épocas diferentes, muitos acertos se tornam erros, e muitos erros, acertos.
Os critérios usados para caracterizar uma construção (ou um sentido) como erro são sociais (ou seja, não são gramaticais, estruturais). Em geral, considera-se erro o fato lingüístico novo (um novo sentido de uma palavra, uma nova pronúncia, uma palavra nova...) ou tipicamente popular. Os "erros" antigos tornaram-se formas elegantes... Os "erros" das pessoas cultas, em compensação, nem são percebidos. Quem ouve FHC dizer "própio" e quem ouve Renan Calheiros repetir a mesma pronúncia, mesmo em situação bem tensa, como a dessas dias no Senado? Ninguém. Afinal, nem se imagina que eles possam "errar". Se "errarem", vamos achar que fomos nós que ouvimos mal...
Cada sociedade usa critérios mais ou menos próprios para decidir o que é erro e o que não é, ou não é mais. Muitas vezes, construções populares passam a ser usadas sem que se perceba mais que são "erradas". Assim, são promovidas silenciosamente a acertos (a forma você, que deriva de Vossa Mercê, pode ser um exemplo).
Às vezes, construções novas surgem não se sabe de onde. A preposição "por" foi adotada em mais ou menos metade das construções do tipo "buscar pela vitória", "procurar pela saúde", "esperar pelos amigos" etc., onde antes se dizia (os dicionários atestam) "buscar a vitória", "procurar a saúde" e "esperar os amigos" (pode-se ver esses números no Google). Não tenho a mínima idéia de quais são as razões pelas quais exatamente essa preposição passou a compor a regência de um pequeno conjunto de verbos (esse é um bom tema de pesquisa). Alguém nota que são erros, segundo os dicionários e gramáticas? Duvido!
Um dos leitores que criticaram meu erro ortográfico há algumas semanas escreveu que eu devia prezar pela língua (olha o "pelo" aí, gente!). De onde teria vindo essa construção - prezar pela língua, prezar pela honra, prezar pela clareza? Ouço isso cada vez mais e só percebo que é diferente (outro colunista talvez dissesse "errado") porque passei a ouvir essas construções apenas recentemente. É uma novidade da língua não registrada, que eu saiba, e que nem se percebe, porque e não está na lista dos erros que repetimos como papagaios.
Em resumo: de maneira geral, é erro o que se percebe como tal em determinada sociedade. O que não se percebe mais como erro deixa de sê-lo. Evidentemente, existem os guardiões da língua, os que combatem duramente qualquer novidade, como existem os guardiões dos costumes, os críticos das novas famílias, das novas roupas, das novas formas de namorar etc. Mas sabemos que isso não adianta muito. Seria melhor relaxar um pouco e gastar as energias com o que é mais relevante...