
Diego Salazar
Em 2003, a revista "Rolling Stone" decidiu que o senhor Ry Cooder era o oitavo melhor guitarrista de todos os tempos. A decisão é discutível, como costuma ser o caso sempre que uma lista desse tipo é compilada.Acima de Cooder, as posições do ranking estavam ocupadas por nomes ilustres como os de Jimi Hendrix, Duane Allman, B. B. King, Eric Clapton, Robert Johnson, Chuck Berry e Stevie Ray Vaughn. E, logo abaixo, os dez primeiros postos eram completados por Jimmy Page e pelo eterno Keith Richards.
Mas, descartadas as possíveis polêmicas quanto ao posicionamento de um ou outro gênio das cordas, os esquecimentos clamorosos ou as presenças questionáveis, se há alguma coisa que essa lista deixa claro e coloca em evidência, pelo menos no que tange a Cooder, é sua enorme e muitas vezes ignorada influência.
Para muitos, Ry Cooder não é mais que o homem que promoveu a merecida e globalizada exumação de uma certa variedade de música cubana, no projeto Buena Vista Social Club. Mas na verdade, para um observador mais atento, é possível ouvir a presença de Cooder em toda parte: ele foi guitarrista de estúdio e trabalhou com os Rolling Stones em 1968 e 1969; criou a música que arredondava a trilha sonora da obra-prima de Wim Wenders, "Paris, Texas"; promoveu trabalhos de pesquisa e aproximação, como produtor e intérprete, entre gêneros tipicamente norte-americanos como o blues, gospel, tex-mex, rock e uma lista que poderia seguir por muitas linhas; e hoje em dia, ele continua envolvido em sua busca incessante, e passou a se interessar pelas derivações diferenciadas que a música de influência mexicana está gerando em sua Califórnia natal.
Cooder está na música para ficar, claramente, e é possível encontrar sua influência em muitos lugares. Mas não estamos falando apenas de um músico hiperativo, dotado de uma curiosidade estimulante e inesgotável; Cooder também é um homem de fortes preocupações sociais. Em "Chávez Ravine" (2005), por exemplo, a música é um grande afresco musical no qual o ouvinte mergulha, e por meio do qual pode testemunhar a enorme diversidade social e musical das zonas pobres e marginalizadas, com enorme influência mexicana, dessa cidade-monstro chamada Los Angeles.
Passados dois anos, Cooder volta a percorrer esse caminho, com "My Name is Buddy", álbum recém-lançado no qual relata as aventuras de um gato operário chamado Buddy Red Cat. O músico está desbravando um novo caminho, dessa vez seguindo um gênero narrativo folclórico tradicional nos Estados Unidos, conhecido como "Americana". Cooder coloca Buddy na estrada para narrar, por meio das canções e de textos curtos que as acompanham, o que ele designa como "o desaparecimento de uma era". Ou seja, o desaparecimento da classe operária norte-americana, durante tanto tempo o sustentáculo da economia do país.
Leia a seguir a íntegra da entrevista:
Terra Magazine - Primeiro gostaria de perguntar se o senhor concebeu, ou pelo menos considera, "My Name is Buddy" como um álbum político.
Ry Cooder - Bem, do meu ponto de vista é a história do desaparecimento do trabalhador norte-americano, uma narrativa sobre o final de uma era. Buddy, o protagonista, é uma oportunidade de dizer, contar, aquilo que está acontecendo com toda essa gente, a classe operária norte-americana. Essas pessoas estão desaparecendo, e com elas uma maneira de viver, de entender o mundo, e tudo que a elas se relaciona. Por isso, sim, desse ponto de vista se trata de um trabalho político. Mas creio que a maioria das coisas sejam de alguma maneira políticas. Creio que tudo que se relaciona com uma determinada maneira de entender o mundo em que vivemos, e com a maneira pela qual as vidas das pessoas são influenciadas pelos acontecimentos, tenha fundo político.
O senhor sempre entendeu a música como ferramenta política?
Não, nem sempre pensei nela dessa forma. Mas isso se deve ao fato de que muitas vezes não pensamos nas coisas enquanto as estamos fazendo; nós simplesmente as fazemos, mas a música com certeza é uma ferramenta política. Todos aqueles velhos discos, Woody Guthrie, a música folclórica dos anos 30, a música rural, a música dos operários, eram trabalhos políticos, pessoas descrevendo uma forma de vida com suas canções, e as canções eram intensamente políticas, ofereciam uma perspectiva social.
É quase impossível não ouvir o eco de "This Land is Your Land" e outras canções de Woody Guthrie ao escutar "My Name is Buddy". O senhor tinha muito presente a figura de Guthrie enquanto trabalhava no disco?
A música dele sempre me agradou demais, as canções sindicalistas; de fato, quando comecei a gravar discos, era isso que eu fazia, música de protesto falando dos direitos dos trabalhadores, conclamando à luta por melhores condições de vida, e eu evidentemente me inspirava demais em Woody. Essa forma de música é uma maneira de testemunhar sobre a vida das pessoas, uma vida de luta constante. Na verdade, é isso que a caracteriza a vida do meu país, a vida dos Estados Unidos, se você a conhece realmente. Mas é claro que não era essa a visão ensinada nas escolas, e já tive oportunidades de comprovar que as crianças, nossas crianças, não sabem o que aconteceu na História de seu país, não fazem idéia das coisas pelas quais as pessoas tiveram de passar. E na verdade seus pais tampouco o sabem. Assim, agora, no momento em que decidi gravar este disco, minha esperança é de que as crianças que o ouvirem perguntem às mães por que Buddy foi preso, e as mães se proponham a averiguar, descobrir o que aconteceu. Não sei se isso de fato vai acontecer, mas seria uma ótima idéia se ocorresse.
O senhor conduziu alguma espécie de pesquisa para compor as canções?
Li livros sobre o tema durante minha vida inteira, tenho milhares de livros. Se você recorre aos livros, os trabalhos que contam a história dos sindicatos, da luta operária, da evolução das grandes empresas, é possível encontrar uma canção para Buddy em praticamente todas as páginas. Se eu me dispusesse a fazê-lo, poderia escrever canções sobre Buddy pelos próximos 10 anos.
Um outro livro me ocorreu agora, "Fast Food Nation", de Eric Schlosser. O senhor o leu?
Li, claro, um excelente livro, gostei demais.
Qual foi a influência de Pogo, o personagem de quadrinhos de Walt Kelly, sobre a criação de Buddy?
Quando eu era menino, mais ou menos com cinco anos de idade, um amigo dos meus pais que estava na lista negra da era do senador McCarthy e por isso não podia trabalhar, e aliás me deu meu primeiro violação, tinha em casa todos os livros de Pogo. Por isso eu ia lá para lê-los. Passei a vida lendo essas histórias, foram os primeiros livros de minha vida, e era um mundo estupendo, para mim, no qual os animais serviam para discutir temas importantes, no qual se falava de temas sociais por meio das situações em que aqueles personagens se viam envolvidos. Na hora de gravar o disco, de pensar em Buddy, me pareceu que Pogo representava um ótimo começo.
Existe uma longa tradição de personagens desse tipo nos quadrinhos norte-americanos, personagens como Snoopy, de "Peanuts", Krazy Kat ou o Hobbes Haroldo, de Bill Waterson.
Exato, há um número imenso de animais que nos ajudam a compreender problemas humanos, nos quadrinhos. Pogo foi minha primeira aproximação com tudo isso, e eu não o entendia completamente porque ainda era pequeno, mas adorava os livros; tenho certeza de que minha atividade favorita naquela idade era ler Pogo e ouvir a música que esse amigo de meu pai colocava na vitrola, Woody Guthrie e pessoas como ele. Era um show completo.
As notas do álbum mencionam a colaboração de Pete Seeger. O senhor poderia contar em que consistiu essa colaboração?
Em determinado momento pensei que seria ótimo contar com Pete para algumas das faixas do álbum. Ele já não viaja muito, e por isso seu irmão, Mike, e eu fomos à sua casa, em Beacon, Nova York, para gravar "J. Edgar", a canção do porco. Nós escolhemos essa canção porque, como muitas outras pessoas, Pete teve muitos problemas com J. Edgar Hoover, e por isso imaginei que seria interessante se ele tocasse nessa faixa. Fomos até lá, passamos o dia juntos, Pete, Mike e eu, almoçamos e jantamos juntos e basicamente conversamos. Pete adora bater papo, é um grande conversador, e por isso passamos boa parte do dia sentados, conversando.
O disco também tem uma canção em homenagem a Hank Williams.
É verdade. O que acontece é que eu queria falar um pouco sobre o preço da fama. Buddy deseja que as pessoas saibam quem Hank Williams foi de verdade. Buddy está dizendo que "vocês todos, as pessoas aí de fora, não conhecem Hank Williams como eu conheci; vocês sabem o que a imprensa dizia sobre ele, o grande astro, rico, famoso, essas bobagens todas. Na verdade, pouco sabem sobre ele. Eu o conheci de outro modo, Hank e eu fomos amigos, simplesmente. Escutávamos rádio, passeávamos em seu velho Cadillac; isso era tudo que eu queria dele". Buddy nem sabe ler, e por isso não quer um autógrafo, e tampouco pode usar dinheiro, e por isso dinheiro não o interessa. Essa foi minha forma de deixar clara a falsidade do star system, de todo esse mundo -e foi isso tudo que levou Hank Williams, foi isso que o matou. Qualquer pessoa poderia vê-lo, era bastante óbvio, basta parar para pensar. Pessoalmente, me desagrada a idéia de que um músico seja colhido e convertido em mercadoria por uma empresa; isso me enoja. E, lastimavelmente, é assim que as coisas terminaram, basta prestar atenção a "American Idol"; não existe outra coisa. É triste ver como algo tão belo como a música foi distorcido dessa maneira, mas essa é a forma pela qual as grandes empresas educam o público hoje em dia. Não existe, ou não existe mais, algo tão fundamental quanto a percepção pessoal das coisas, a visão pessoal das coisas. Isso é algo mais que me agrada em Buddy; ele simplesmente pensa à sua maneira; ninguém lhe diz o que deve pensar. Há uma outra coisa que me levou a fazer esse disco e essas canções: a possibilidade de que as crianças as escutem, ou as leiam, e assim talvez aprendam alguma coisa; escutem-me, por favor, não acreditem em tudo que a televisão lhes diz; pensem por si mesmos, desenvolvam uma visão pessoal, uma opinião pessoal.
O senhor crê que um disco, que a música, possa contribuir para mudar as coisas?
Não sei. Preciso dizer que, no ponto em que estamos, aquilo que vejo em meu país - e estou seguro de que a situação é semelhante no resto do mundo - é que estamos todos ferrados; o mundo que eu conheci já não existe. As grandes empresas se imiscuíram em todos os aspectos da vida dos norte-americanos. Tudo isso começou com o governo Reagan; bem, na verdade começou nos anos 30, mas Reagan fez mais para destruir nosso país do que qualquer inimigo estrangeiro. As pessoas acreditam que Bush seja perigoso, e com certeza ele o é - costumo chamá-lo de palhaço louco -, mas foi Reagan que começou isso tudo, que assentou as bases para o delírio que estamos vivendo. E agora as grandes empresas detém todo o controle, todo o poder, influência absoluta, sobre nossas vidas. E não podemos nem tomar um café sem lhes dar dinheiro. Faço 60 anos este ano, nasci e cresci em um mundo diferente; quando nasci, pouca gente tinha um televisor em casa. O mundo muda, sua marcha prossegue, e isso é natural, normal; não é esse o problema; mas a situação a que chegamos, aquilo que chamamos de "modo de viver norte-americano", deixou de ser uma forma de viver, uma vida social, para se tornar uma vida corporativizada, controlada em todos os seus aspectos por grandes empresas, e na qual todos os elementos se reduzem a dinheiro. E isso é um lixo. Por isso eu pensei que me sentiria melhor se gravasse esse disco, não ficarei tão irritado, tão zangado, e ao menos vou deixar claro que o estado de coisas não me agrada, e que acredito que as coisas poderiam ser feitas de outra maneira.
O senhor pensou em como essa mensagem chegará às pessoas, e qual pode ser a reação do público?
Bem, esse é um disco que precisa de tempo. Buddy precisa de alguns minutos, é preciso ouvi-lo, é preciso lê-lo, e depois ouvir de novo, ler outra vez. Há muitas coisas nesse trabalho - e lastimavelmente pouca gente se dispõe a dedicar o tempo necessário, as pessoas vivem apressadas hoje em dia, correndo para todo lado. Temos celulares, iPods, redes de trocas de arquivos, e por isso não sei se, na realidade, alguém vai se dar ao trabalho de ouvir Buddy calmamente. Confio em que essas pessoas existam, que haja gente que se importe. Mas, bem, as coisas são como são; não se trata de um disco de massa, evidentemente; é um disco para alguns. Suponho que a maioria das pessoas vai dizer que lamenta mas não tem tempo para Buddy, ainda que elas gostem de gatos.
O senhor se sente confortável com isso, sabendo que sua música se dirige a um público reduzido?
Sim, claro. Não creio que seja questão de número. Minha verdadeira preocupação é que talvez venha a chegar o momento em que discos como esse não serão feitos, e estamos nos aproximando desse ponto. Não sei por mais quanto tempo será possível fazer discos dessa maneira; eles não são nada comuns hoje em dia, e não surgem muitos deles. Se você me pergunta se me sinto confortável com isso, é claro que adoro poder fazer discos como esse, mas não acredito que essa oportunidade vá existir por muito tempo, e uma das razões é que nós já estamos velhos, veja os músicos que participaram - somos todos velhos, pertencemos a outra era. Vivemos fazendo esse tipo de trabalho há muito tempo, e por isso acredito que tenhamos conquistado um certo respeito. É isso que me agrada fazer, me agrada que os discos tenham um ótimo som, gravo discos há muito tempo e continuo feliz por fazê-lo. Meu trabalho me traz satisfação; não sei o que significa para o resto do mundo, mas gravar discos me faz feliz. Se oito pessoas gostarem, ótimo. Se 800 pessoas gostarem, isso também é bom.
Onde o senhor mora, atualmente?
Em Santa Monica, nunca saí daqui. A cidade onde nasci.
E o senhor se sente confortável em seu lugar?
Bem, não é o melhor lugar do mundo, mas se você precisa viver perto de Los Angeles, Santa Monica é uma boa escolha, porque também tem mar, o ar é muito mais limpo e a contaminação muito menor do que em Los Angeles. Mas Santa Monica se transformou em uma cidade bem grande, e agora o trânsito ficou horrível, há congestionamentos demais; a cidade cresceu mais do que deveria. De vez em quando eu e minha mulher pensamos em nos mudar, em procurar um lugar mais tranqüilo, mas para onde ir? Todos os nossos amigos estão aqui, toda a nossa vida está aqui. Se eu me mudasse para Los Angeles, por exemplo, provavelmente não gravaria mais discos.
O senhor viaja muito?
Não, quase não saio de casa. Para mim, viajar é complicado, não me sinto muito confortável em outros lugares, não durmo bem em hotéis, não como bem longe de casa. Sempre fui um sujeito muito caseiro, na verdade.
O senhor está trabalhando em outro disco?
Sim, estou sempre trabalhando em algum projeto. Acabamos de produzir um disco com a cantora Mavis Staples (lenda do gospel) e os Original Freedom Singers. O disco é excelente, estou quase certo de que causará sensação. Também produzi um disco com Ersi Arvizu, que trabalhou comigo em "Chávez Ravine"; gravamos seu álbum solo. Tenho imaginado que "Chávez Ravine" e "My Name is Buddy" venham a ser parte de uma trilogia, somados a esse novo disco em que devo começar a trabalhar. Na verdade, estava trabalhando nesse disco quando me ocorreu a idéia de Buddy, e por isso o deixei de lado enquanto tocava o novo projeto.
O novo trabalho já tem título?
Sim, claro, o nome vai ser "It's Your Nickel". É um ditado, um velho ditado norte-americano; quando alguém expressa seu desejo de conseguir alguma coisa, a gente rebate com "it's your nickel", o que significa que é essa pessoa que precisa fazer o esforço, buscar a vida.
O senhor pensou em realizar uma turnê para tocar "My Name is Buddy" ao vivo?
Não; como disse antes, tenho problemas com a idéia de viajar. Tocar ao vivo é um trabalho completamente diferente. Não é certo que não venhamos a fazer algum show ao vivo, mas no momento não existem planos quanto a isso.
O senhor não sente falta dos palcos?
Não, nenhuma. Nunca gostei de tocar ao vivo. Prefiro trabalhar em estúdio, gosto de ficar em casa. Quando subo ao palco, há problemas que não posso resolver e as coisas vão me parecendo impossíveis; me preocupo com o som, com a luz, com o tamanho do lugar, se é grande demais ou pequeno demais, com o que comi naquele dia, se a cadeira é boa. Etc. Além disso, voar hoje em dia é uma experiência desagradável, e há lugares aos quais não se pode ir a não ser de avião, mas tomar um avião é realmente incômodo. Se você pretende se dedicar a esse negócio, melhor fazê-lo quando jovem, porque, de outra forma, não vai querer enfrentar essa chatice toda.
O senhor sente falta da juventude?
Não, na verdade não. Não é algo que me preocupe. Desde que minha saúde continue boa. O que me faz falta é na verdade a cidade como o foi em minha juventude, a Califórnia que existia naqueles anos. Isso me faz falta - não a juventude, mas aquela época em que tudo não estava superpovoado e não existiam Wal-Marts em toda parte, não havia tantos shopping centers ou vias expressas. Deus, a verdade é que odeio isso tudo. Sinto falta do tempo em que as coisas eram diferentes.
O processo é irreversível.
Sim, sem dúvida. Por menos que me agrade. Agora, se você quer ver o verde, se quer ver o campo, tem de andar muito, ir a locais distantes; ainda se pode fazê-lo, mas é preciso pegar o carro, dirigir muito. E eu não tenho mais força ou vontade de fazê-lo com tanta freqüência.
O que o senhor aprecia além da música? De onde vem sua inspiração?
Minha família. Ler. Adoro ler, a leitura me oferece imenso prazer, sempre li muito; leio muitíssimo, os livros são uma coisa fantástica. Ficção, História, reportagens - ler me apaixona. Agora mesmo estou lendo "Down by the River", de Charles Borden, uma grande história sobre os cartéis mexicanos das drogas. Também gosto muito dos livros de mistério; até escrevi um.
O senhor completou um romance? Planeja publicá-lo?
Ainda não sei, na verdade. Escrever me divertiu muito, trabalhei com afinco durante todas as manhãs, por muitos meses. Foi uma diversão, você sabe - construir os personagens, brincar com eles. Não sei se quero publicar; acho que vou deixar que descanse por algum tempo e depois ver se ainda gosto do resultado. Não sei se alguém gostaria de publicá-lo, na verdade; é um romance muito estranho, e não sei por enquanto se é bom ou não. Mas hoje em dia é possível publicar coisas na Internet; essa é uma opção.
Com certeza. Aliás, como é seu relacionamento com a tecnologia? O senhor gosta de navegar na Internet, por exemplo?
Não sei o que dizer sobre a Internet, na verdade. Por um lado eu a odeio porque é mais uma maneira de conseguir clientes, controlar pessoas e ganhar dinheiro de maneiras pouco honrosas, para as grandes empresas. Mas, por outro lado, uso o computador todos os dias, escrevi meu livro nele, e navego na Internet todo dia em busca de informação. A quantidade de informação a que temos acesso graças ao computador e à Internet é realmente espantosa. Passo muito mais tempo usando esse aparelho do que imaginaria, no passado. Mas, como disse antes, é preciso cuidado com essas coisas, porque já encontraram uma maneira de controlá-lo, de utilizá-lo em proveito das grandes empresas. Por exemplo, não sei até que ponto a música pode funcionar, na rede, porque os músicos não recebem um centavo pelo seu trabalho distribuído online. Gostaria que alguém me explicasse como os músicos sobreviverão com essas transações na Internet, porque não vejo ninguém tomando providências sobre isso.
Para concluir, pensando em seu disco e enquanto conversávamos, me veio à mente outro livro recente, "Um Homem Sem Pátria", de Kurt Vonnegut. O senhor concorda com a comparação, vê a conexão?
Grande livro, não havia pensando nele, mas sim, creio que de alguma maneira meu disco e o livro dele podem estar conectados.
Terra Magazine
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Reuters
Ry Cooder com o Grammy que ganhou em 2004 por "Mambo Sinuendo", álbum em colaboração com o músico cubano Manuel Galbán
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