
Vera Gonçalves de Araújo
A capa do último número da edição italiana da revista Vanity Fair não podia ser mais sexy: um primeiro plano de Kaká, sorridente e nu. Mas o tema da entrevista não foi tanto o futebol, nem a recente vitória de seu time, o Milan, na Champions League européia, ou sua candidatura à Bola de Ouro 2007. Foi a virgindade, abrindo um debate entre as leitoras da revista e na mídia italiana em geral.Kaká declara à repórter que se casou casto e puro, sem nunca ter feito sexo antes. A idéia de um jogador de futebol virgem parece inaceitável e inacreditável num país em que a maioria das moças bonitas sonha namorar craques ricos e lindos como o campeão brasileiro. O jogador explicou que foi difícil resistir às tentações. Não é difícil acreditar em suas palavras, sabendo o que acontece em torno das concentrações, dos treinos e de cada aparição pública de Ricardo Izécson Santos Leite.
A entrevista provocou uma enxurrada de comentários. E relançou o debate que parecia, até hoje, exclusividade de papa Bento XV: a virgindade ainda é um valor no terceiro milênio?
Até agora, o assunto parecia esquecido num porão, coberto de teias de aranha e mofo. Agora, descobre-se que em Gênova, uma associação católica organiza desfiles de moda em que as modelos têm que ser virgens; e que no mês passado, em Pallanza, às margens do lago de Como, foi organizado o primeiro congresso nacional de virgens - quase todas jovens, laicas, com vidas e trabalhos "normais". Os jornais entrevistam sexólogos, que chegam à conclusão que é preciso ter muita fé para evitar o sexo.
A doutora Roberta Giommi, por exemplo, elogia a revelação de Kaká: "Hoje a tendência é de fazer muita experiência e não de se preservar, mas acho que essa foi uma bela confissão: é preciso ter coragem para dizer isso. Hoje o comportamento realmente anticonvencional é admitir a virgindade". A doutora frisa que a coragem do jogador brasileiro é ainda maior num país machista como a Itália, onde qualquer discurso sobre virgindade sempre se referiu exclusivamente às mulheres.
Falam também os cirurgiões plásticos, que admitem um aumento de operações para restauração do hímen ¿ prática que demonstra que não mudam os costumes, mas só os meios científicos e tecnológicos para escondê-los. Voltando à entrevista, o jogador fala da declaração do dono do Milan, Silvio Berlusconi, que comentou numa entrevista: "Kaká é o genro ideal, pena que é casado". O jogador gostou da frase. Sua mulher Caroline não.
Kaká explicou sua opção pela virgindade dizendo que "a Bíblia ensina que o amor verdadeiro só se alcança no casamento, com a troca de sangue, o sangue que a mulher perde com a virgindade. Para nós, a lua de mel foi lindíssima". Lendo a frase, a jornalista Natalia Aspesi, do diário La Repubblica, comentou: "dizendo isso, o jovem brasileiro parece evocar, mais que uma opção de amor, o êxtase de um ritual de vodu".
Fale com Vera G. de Araújo: veragdearaujo@terra.com.br
Terra Magazine
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Em entrevista à edição italiana da Vanity Fair, o jogador reafirma seus valores religiosos
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