
Luciano Borges
Quando era criança, David sempre acordava as duas irmãs e pedia para que jogassem futebol com ele. Depois da pelada familiar, ele "dava entrevistas" para um microfone que era, na verdade, um pacote de biscoitos recheados de chocolate. Aos 20 anos, o zagueiro titular do Palmeiras admite que adora falar com jornalistas e gosta da fama. "É um jeito de mostrar pro pessoal lá da favela que a gente pode mudar de vida".David é filho de um motorista aposentado e de uma professora ainda na ativa. "Dona Maria do Carmo não abre mão. Ela adora ensinar", diz. Desde os nove anos de idade, ele só pensa naquilo: jogar futebol.
Convocado para a defesa da Seleção Brasileira Sub-20, David começou como goleiro. Mudou de posição porque não tinha uniforme. Hoje, ele é avaliado em R$ 5 milhões. É o segundo atleta mais caro da Bolsa de Jogadores que o Palmeiras criou para atrair investidores.
Desde pequeno, o zagueiro criado em Guarulhos (Grande São Paulo) aprendeu que a bola pode trazer facilidades. Começou ganhando pastéis nas peladas ("a gente apostava com o adversário"), dinheiro para a condução e salário.
David já comprou uma casa para a família. Sabe que pode valer mais se jogar melhor e se manter em alto nível. Só se sente constrangido quando é lembrado que, para ganhar dinheiro, vai ser preciso deixar o Palmeiras. "Sou palmeirense desde pequeno. Já pensei nisso, mas não gosto de imaginar como vai ser deixar o Palmeiras".
A seguir, a íntegra da entrevista:
Terra Magazine - Futebol é uma boa profissão?
David - Com certeza. É uma das melhores profissões. Eu dou valor. Muita gente pega na enxada, pinta parede, sofre a vida toda, pena e recebe menos de R$ 300. Jogando bem, tenho a oportunidade de ficar rico.
Se isso acontecer, você acha que vai perder a paixão pelo jogo?
O pior é que não. Lembro sempre como pensava quando era criança. Eu queria ser jogador de futebol. Queria jogar no Maracanã, Morumbi, Pacaembu. Queria vestir a camisa de um time grande. Vejo hoje que consegui estas coisas. E o engraçado é que minha vontade de jogar só aumentou.
Você já lida com a fama?
Ah, já sou reconhecido na rua e os jornalistas sempre pedem entrevistas. Eu dou. Eu gosto. Acho legal porque posso mostrar pros meus amigos lá do morro, para os garotos pobres, que é possível mudar de vida. É só acreditar. Outro dia, precisava jogar para ganhar a passagem do ônibus. Hoje estou no Palmeiras, na seleção brasileira.
Quando você decidiu que queria ser jogador?
Na Copa do Mundo de 1994. Eu tinha sete anos. Eu vi o time do Brasil, o conjunto, como os jogadores entravam de mãos dadas. Eu lembro até hoje de jogos como aquele contra a Holanda, contra Camarões.
E você agora vai disputar um Mundial com a camisa da seleção brasileira Sub-20.
Pois é. Vou pro Mundial do Canadá. Vai ser uma disputa dura para ver quem joga na zaga. Eu vou disputar um lugar com o David Marinho (Benfica), Luisão (Cruzeiro) e o Édson (Figueirense). Vou trabalhar bastante. Mas joguei o Sul-Americano com o Nélson Rodrigues (treinador). Com ele todo mundo joga. Depois, num torneio de sete partidas, quatro delas eliminatórias, sempre soba uma vaga.
Você lembra da primeira convocação?
Lembro como se fosse hoje. Foi em 2005. Eu sabia que tinha sido observado pelo pessoal da CBF. No dia da convocação, pedi para uma amiga olhar na internet. Eu não tinha computador. Ela me ligou e perguntou se meu nome era David Bráz de Oliveira Filho. Disse que sim. E ela então confirmou que eu estava na lista. Foi uma festa lá em casa. Minha mãe chorou. Foi muito legal.
A família dava força para você ser jogador?
Dava dentro das condições. Quando eu era goleiro, meu pai não podia me dar um uniforme, joelheira, estas coisas. O dinheiro lá em casa era para a comida e as despesas. Mas teve uma época, com 13 anos, que jogava em três times diferentes. Às vezes, disputava dois jogos no sábado e um no domingo. Minha mãe pegava no pé porque eu nem comia direito. Um dia, ela assistiu uma partida do Benfica e ela viu os torcedores gritarem meu nome. Eu fiz um gol, nós ganhamos e ela parou de me dar bronca.
Você era goleiro?
Era. Eu tinha uns 10 anos. Pegava bem até. O pessoal de um projeto social lá de Guarulhos, onde eu jogava, dizia que eu levava jeito.
Como você virou zagueiro?
Então, uma vez eu li num jornal que estavam formando uma seleção de Guarulhos e iriam fazer uma peneira. Eu fui lá. Quando cheguei, vi outros dois garotos que eram goleiros. Eles estavam com uniforme legal, novinho. Eu não tinha nada. Aí pensei: 'Não vou conseguir nada'. Quando o técnico perguntou quem queria ser goleiro nem me mexi.
E aí?
Aí ele começou a perguntar por posição. Quando ele disse 'lateral', lembrei do Cafu, do Jorginho e desisti. Aí ele pediu zagueiros. Lembrei do Márcio Santos, Aldair, caras altos como eu. Eu levantei a mão. Na peneira só dei chutão. Joguei sério. O pior é que o técnico gostou, disse que eu tinha bom tamanho e me mandou voltar. O engraçado é que o professor lá do projeto tinha me incentivado a ir na peneira como goleiro.
O que você disse para ele?
Eu menti. Disse que foi o treinador da seleção que mandou eu jogar na defesa, porque eu tinha porte físico. Aí o professor me mandou jogar de zagueiro também lá no projeto.
Quando você começou a ganhar dinheiro com futebol?
Quando vim pro Palmeiras. Tinha 14 anos. Recebia uma ajuda de custo de R$ 135,00. Recebia na mão, punha no bolso, pegava o metrô e ia pra casa. Me achava o maior rico. No começo nem ajudava lá em casa. Depois, quando já estava no juvenil, passei a dar uma grana.
Você vale cinco milhões de reais?
Acho que sim. Fico feliz. No futebol brasileiro, o zagueiro sempre ganha menos do que os atacantes e meias. Cinco milhões é um dinheiro. Mas eu preciso continuar jogando bem, melhorar sempre para não desvalorizar. Não adianta falarem que valho muito. Tenho que mostrar em campo.
Você tem participação nos direitos federativos?
Tenho 20%. O Benfica, clube que me formou, tem outros 20%. O resto é do Palmeiras. Por isso tenho que me valorizar sempre. Eu saio ganhando, né.
Você já passou por altos e baixos na carreira?
Estou no profissional há pouco tempo. Mas no Campeonato Paulista deste ano, fiz dois gols contra. Um deles, contra o Noroeste, foi horrível. A gente vinha de vitória sobre o Corinthians e eu causei a derrota. Fiquei preocupado. Me perguntava se tinha sido culpado, se iam me culpar pela derrota. Mas depois, o Marcos, o Edmilson e o Dininho conversaram comigo, me deram tranqüilidade e passou.
Fale com Luciano Borges: borges.luciano@terra.com.br
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