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Sábado, 9 de junho de 2007, 09h21

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Roberto de Sousa Causo

Stephen King publicou em 1987 uma complexa reflexão acerca de vários aspectos da escrita de ficção popular, sob a forma de um romance de suspense intitulado Angústia (Misery), que mais tarde seria filmado como Louca Obsessão. Trata-se de um livroq eu tem algo a dizer sobre parte da conjuntura atual da literatura brasileira.

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No romance, o escritor de ficção romântica Paul Sheldon resolve renovar sua carreira - ele reconhece que seu trabalho na série de romances históricos românticos protagonizada pela personagem Misery não possui literária, embora lhe tenha trazido segurança econômica. Quase que simultaneamente, Paul escreve um trabalho de literatura contemporânea - um estudo de personagens marginais na paisagem americana, que talvez lhe traga uma primeira dose de prestígio - e encerra a série, matando a heroína.

Retirado em uma cabana nas montanhas do Colorado, Paul termina o novo romance, comemora com uma garrafa de champanhe, e desce a estrada nevada - para sofrer um acidente quase fatal. É socorrido pela vizinha Annie Wilkes, uma enfermeira que também é a maior fã de Misery. Para culminar, Annie é também uma psicopata ensandecida, que não fica nada satisfeita ao saber que Paul, esse safado sem-vergonha, havia dado cabo da sua amada heroína.

Annie o obriga a escrever um novo romance de Misery, trazendo-a de volta. Acamado, sofrendo dores atrozes e trabalhando em uma velha máquina de escrever que não tem mais a letra "n", Paul tenta desesperadamente enganar Annie, ganhando tempo para se recuperar de seus ferimentos, e escapar. Mas o primeiro rascunho do retorno de Misery é rejeitado por Annie, porque entrava em contradição com o final do último livro da série. Ela o chama de trapaceiro.

Annie Wilkes podia ser louca, mas não burra.

Paul coça a cabeça. Está em uma enrascada dupla. Annie tem poder de vida e morte sobre ele, e é uma leitora rigorosa. Na verdade, é a editora mais rigorosa que ele já teve. Como contornar o final tão definitivo, do romance em que Misery é morta? Paul só começa a encontrar uma saída quando se lembra de um jogo que tinha praticado num acampamento de verão, em que o monitor criava situações aventurescas, cheias de becos-sem-saída, que exigiam imaginação da parte dos garotos para que tivessem continuidade. Chamava-se "Can You?" - "Você Consegue?" -, e Paul percebe que o jogo é símbolo de um aspecto central da sua produção como escritor de literatura popular - a habilidade de envolver o leitor, de levar o leitor em consideração. De tomá-lo como inteligente, não importando o fato de se estar produzindo uma ficção que o coloca fora dos procedimentos literários valorizados pela crítica e pelo pensamento acadêmico.

Essa postura faz parte da sua dignidade profissional - parte daquilo que o torna um escritor que, mesmo escrevendo literatura popular, o faz com seriedade e dignidade. Mais que isso, ele compreende que, para sair daquela situação, o único meio de se manter mentalmente são é escrevendo para Annie Wilkes com todas as suas forças e habilidades intelectuais. Ele se torna "Xerezade de si mesmo", percebe a certa altura.

Em minha experiência pessoal não há nada de tão dramático. Não obstante, por escrever ficção científica, fantasia e horror, sou um escritor de literatura popular por tradição - não por vendagem, certamente. E já tive chance de escrever para a área editorial brasileira que necessariamente cabe nessa segunda definição - a literatura de banca de jornal, que exige tiragens bem maiores do que as dirigidas às livrarias.

Em meados da década de 1990 escrevi quatro novelas para R. F. Lucchetti, o decano dos escritores pulp brasileiros, que então coordenava esse tipo de publicação para a Editora Fittipaldi, de São Paulo. Elas foram pagas mas não publicadas, pois a certa altura a editora percebeu que não teria o retorno esperado da iniciativa, e desistiu.

Eu enviava as histórias, e uma semana depois recebia de Lucchetti um cheque pelo correio. Cada texto, escrito sob o pseudônimo de "Robert Horton", me rendia aproximadamente um salário mínimo da época. Lucchetti me disse que, para ter um rendimento razoável, eu deveria escrever um livro - dentro das aventuras de Ray Parker, "O Detetive do Impossível" - por semana. Mas eu levava de 15 a 25 dias para completar cada um, porque precisava pesquisar. As aventuras de Parker se davam em Nova York, e eu precisava consultar guias de viagem e ler revistas americanas para citar o mais corretamente possível a paisagem e os dados culturais de Nova York. É claro que eu não podia esperar que acertasse 100% dos detalhes, nem sabia se o meu leitor iria receber bem esse tipo de esforço. Mas o que nunca me passou pela cabeça era que o leitor de livros de banca de jornal não merecesse os meus melhores esforços.

Anos mais tarde, por intervenção do fã e editor Sérgio Peixoto, produzi A Deusa do Amor, novela pornô soft dirigida ao público feminino, para a Editora Cristal, de São Paulo. Também para ser distribuído nas bancas. Ao contrário de Lucchetti, a Cristal não exigia um pseudônimo que soasse anglo-americano, por isso o livro foi publicado sob o meu pseudônimo infame, "Jeremias Moranu".

As minhas leituras de pornô soft haviam ficado na adolescência, longe na memória, então o que fiz foi adotar a estratégia do escritor de suspense Lawrence Block, descrita em seu livro Writing the Novel: From Plot to Print (1979). Antes de se tornar um best-seller do suspense, Block havia escrito pornografia softcore, que ele dizia exigir uma cena de sexo por capítulo. Foi o que fiz, mas sem dispensar um enredo que fosse coerente, e um protagonista que bem estruturado. Nunca me passou pela cabeça que o leitor de livros de banca de jornal não merecesse ou não estivesse interessado nesse empenho (eu certamente não estava, quando lia pornô soft na adolescência).

O editor Henrique Monteiro, que trabalhou muito com literatura de banca na Editora Nova Cultural, leu A Deusa do Amor e elogiou a primeira parte, implicando que a segunda não ficou tão boa quanto poderia. São os azares de ter de escrever 120 páginas em duas semanas, mas, independentemente do resultado, tenho a consciência de ter feito o melhor possível.

Os escritores brasileiros, de qualquer gênero literário, sofrem com o contexto problemático da cultura brasileira - muitos analfabetos, ainda mais analfabetos funcionais; muita gente que não possui o hábito da leitura, ou que não tem o hábito da leitura por prazer; poucas bibliotecas; e a noção generalizada de que ler é perda de tempo ou hábito de gente ociosa. Uma situação que leva a atitudes extremas, a partir desse mesmo fato, a sensação de ausência do leitor como um interlocutor legítimo na produção literária.

Paul Sheldon, o personagem de Stephen King, via Annie Wilkies como uma deusa tribal africana, saída das páginas de As Minas do Rei Salomão, de H. Rider Haggard. Tem o poder de recompensar e de punir, despertando amor e ódio simultâneos.

Para o escritor brasileiro de ficção literária, o leitor muitas vezes é visto como esse monstro escravizador, que deseja tirar tudo dele e nada dar em troca. Para o autor de ficção popular, é freqüentemente visto como parte de uma massa despersonalizada, à qual ele deve satisfazer naquilo que se imagina que ela deseja.

Daí lermos, às vezes, resenhas nos cadernos de literatura, em que o crítico afirma que o autor "escreve mal de propósito, para alijar o leitor-médio". É o escritor de ficção literária que, frustrado com a ausência de um público leitor substancial, tenta riscá-lo completamente da equação. E daí, no pólo oposto, surgir pela Internet conclamações para que se escreva uma literatura popular sem a preocupação de que seja pessoal, particularizada, coerente ou bem estruturada. É o autor à caça de um largo público leitor, supondo que pode chegar a ele por aquilo que está ausente do seu texto, e não pelo que está presente. Ou que, imaginando que o mesmo público que lota os cinemas para ver filmes de ficção científica ou fantasia ou horror dará atenção maciça aos seus escritos, se eles derivarem diretamente das imagens vistas na telona.

A minha impressão é de que os dois grupos incorrem na mesma miopia, e que essa visão distorcida causa ainda mais problemas à literatura brasileira como um todo.

Se você chegou até aqui, não é preciso dizer que advogo que ambos os campos dêem o seu melhor para o leitor, mesmo esse leitor que é enxergado como ausente.

Meu atual editor, Douglas Quinta Reis, gosta de citar o livro de Robert M. Pirsig, Zen e a Arte de Manutenção de Motocicletas (1974), que defende que as pessoas deveriam se concentrar na qualidade dos processos, e não apenas no resultado a ser alcançado. Aprende-se algo daí - aprende-se a construir uma postura, uma visão da importância da própria atividade, que pode muito bem ser o fator que vai manter você insistindo em uma atividade que, no contexto brasileiro, traz pouco prestígio e pouco retorno pessoal. Aprende-se a cuidar do seu dom, investir nele para além dos resultados de vendagem ou de retorno crítico - investir nele como o modo pelo qual você se relaciona consigo mesmo e com a vida.

As duas outras posturas enfraquecem ainda mais a situação da cultura brasileira, porque confirmam a posição do autor que afirma a si mesmo que não precisa ser um escritor inteligente, porque o leitor é burro.


Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do romance A Corrida do Rinoceronte.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

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Misery, publicado por King em 1987

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