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Quarta, 13 de junho de 2007, 08h02

A arte de chegar em uma cidade

Amilcar Bettega

Um dia escrevi um texto, que ainda não publiquei mas que sem dúvida o farei qualquer outro dia desses, intitulado "A arte de chegar numa cidade". Era, é, um texto um tanto impressionista que falava, entre outras coisas, dos primeiros movimentos de alguém que chega em uma cidade desconhecida. Não suas primeiras impressões, mas os primeiros gestos, as primeiras atitudes em relação a essa cidade, já que o que chamamos de impressão vai nascer justamente da natureza desses primeiros movimentos de aproximação à cidade já dentro do seu espaço físico.

Uma aproximação concreta, portanto, sensorial, e não mais restrita ao domínio do ideal que serve de base à preparação - quando há - de uma viagem (compra de guias, leituras, mapas, passagens, alojamento, enfim, tudo isso que ajuda a assentar a idéia da viagem e criar algumas expectativas, fantasias, imagens, projeções, o desejo de partir, enfim, tudo isso que será - pelo menos é aconselhável que seja - posto por terra a partir do momento em que o viajante começa a se movimentar na cidade que o acolhe).

A distância que há, por exemplo, entre olhar a fotografia (e se se trata de um guia de viagem, essa fotografia será sempre uma variação de outras tantas que já vimos) de uma paisagem ou prédio ou monumento da cidade e vê-lo pela primeira vez na cidade é simplesmente enorme. Não que a imagem direta, sem a mediação e o recorte do fotógrafo que a arranca da cidade e a entrega ao nosso imaginário para que ele faça o que quiser com ela, seja mais bonita ou decepcionante; nem mesmo mais verdadeira; não é disso que se trata. Falo da experiência de vivenciar algo que, de uma ou outra forma, já existia no nosso imaginário - e a sua drástica contrapartida: vivenciar a ausência do que povoava esse imaginário, no contexto da cidade "real".

Creio que o sentimento de desorientação inicial que toma conta de todo viajante que tenha disponibilidade de tempo e de espírito para experimentá-lo, quando ele chega em uma cidade desconhecida, decorre dessa defasagem, como se sobrepuséssemos dois mapas da mesma cidade, na mesma escala, mas que não coincidem nunca. Rapidamente esse tipo de viajante vai aceitar e receber a ausência da cidade imaginada como uma dádiva, e então dessa ausência, disso que "não está lá", que "não é", instala-se a vertigem que acompanha todos os seus primeiros movimentos (e aqui a palavra movimento deve ser entendida em um sentido bastante amplo: são os gestos, os passos, mas também o gaguejo na nova língua, as hesitações, os tropeços e o fascínio diante de uma grafia que atrai o olho para combinações inusitadas de letras que, já descoradas pelo uso sempre igual e cotidiano, agora se revelam frescas, revitalizadas pelo novo arranjo). Este é um momento único da viagem, quem sabe o mais importante. Jamais essa vertigem se repetirá, pelo menos não ali naquela cidade e com aquele viajante.

Penso essas coisas a propósito de Istambul, onde chegei dia 30 de maio e onde devo ficar até o dia 30 de junho, em função do projeto Amores Expressos, que está enviando vários escritores brasileiros a várias cidades pelo mundo afora para escreverem um romance que tenha alguma referência com a cidade em questão.

Cheguei aqui há quatro dias (este texto foi escrito no dia 3 de junho) e sinto já saudades desses quatro dias. Nada se compara ao sentimento de perder-se nas ruas, ruelas e mesmo nas artérias mais importantes de Istambul.

De Istambul e de qualquer outra cidade onde nunca pusemos os pés antes. Sair, nos primeiros dias, logo nos primeiros instantes, caminhar o máximo possível, entrar na cidade sob o efeito da vertigem inicial, deixar-se absorver por ela - é o que de melhor pode ser feito quando se chega numa cidade.

Porque é ainda o momento em que "sair a esmo" não é uma opção, não faz parte de uma estratégia, e não importa qual a direção que você pegue você estará sempre indo "a esmo" . Nesse momento a decisão de dobrar nessa ou naquela esquina, à esquerda ou à direita, esvazia-se do peso de fazer parte de um caminho que leva a um determinado objetivo e ela, a decisão, se restringirá a sua essência, revelando o instinto do viajante, a atração que vai exercer sobre ele uma fachada, uma janela, a inclinação de uma rua, a sombra por trás de uma cortina, uma parede descascada. Nessa sucessão de apelos, sobretudo visuais, que a cidade vai lançando e o viajante aceitando ou rejeitando é que ela, a cidade, vai revelar-se a cidade daquele viajante, que não tem nada a ver com a cidade de um outro que decidiu, digamos, dobrar naquela e não nessa esquina, e que tem muito menos a ver, é evidente, com a cidade pasteurizada pelos guias de viagem.

Quando a cidade em questão é Istambul, então tudo isso ganha uma dimensão muito maior.

Cidade mítica, descrita e pintada através de inúmeros relatos que a insaciável sede de orientalismo do ocidente se encarregou de produzir, ela própria híbrida, contraditória, indecisa, com uma perna em cada continente, em cada cultura, alimentando-se e sofrendo com a tensão constante desse encontro entre oriente e ocidente. Cidade que é farta em referências no imaginário de qualquer um, nem que seja pela indefectível silhueta chapada de suas colinas e mesquitas majestosas, cujas cúpulas, semi-cúpulas e minaretes recortam o céu do Bósforo. Cidade labiríntica - sei que labirinto é uma palavra batida, mas pelo menos agora não encontro outra melhor para nomear o que o viajante encontra quando se deixa deslizar docemente de uma de suas vias principais para se enfiar em uma entre tantas ruelas que sobem e descem, seguindo curvas que derivam em outras ainda mais estreitas e mais curvas, espremidas entre uma fila de prédios escuros e malcuidados de onde pendem lençóis e toalhas e todo o tipo de roupa em varais que passam de um a outro lado da rua, e chegando em uma escada de pedra ou num beco onde meninos jogam futebol, e seguindo, seguindo sempre, emendando ruas, que se multiplicam a cada bifurcação.

Evidentemente se estabelece um jogo durante esse trajeto vertiginoso, e como em todo jogo, algumas regras devem ser seguidas. Uma delas é a de nunca tentar voltar sobre os próprios passos, ou seja, andar sempre para frente ou para os lados; e uma outra, talvez a mais importante, é abandonar qualquer tipo de referência, seja ela prévia, preconcebida pelos guias e relatos de viagem, seja a referência ou referências que vão se instalando durante o próprio trajeto e desde o momento em que o viajante começou a se movimentar dentro do novo espaço.

Sim, porque depois de alguns dias a vertigem passa. O tempo transcorrido na nova cidade e as experiências de interação com ela que você vai acumulando a cada dia, a cada hora, vão criando uma espécie de base estável sob seus pés. O chão já não mais foge.

E você começa aos poucos a se orientar na cidade. Não é uma questão puramente espacial, mas é um adaptação aos sons, à língua que você continua sem compreender mas que já soa de forma diferente, é também uma adaptação às pessoas que você vê, aos rostos, adaptação aos cheiros, às cores, a um determinado tipo de arquitetura.

Há uma espécie de aclimatação, como se seu corpo se ajustasse a novas condições de temperatura e pressão. Seu coração agora tem um batimento ligeiramente diferente do que tinha quando você chegou. Você continua um tanto perdido, você continua, obviamente, a ser um estrangeiro na cidade, mas alguma coisa ali já lhe é familiar. Você ouve nomes como Cihangir, Beşiktaş, Karaköy, Fatih, Eyüp, Nişantaşi, Eminönü, Üsküdar, Beyoğlu, Fener, Şişli, e eles já não apontam unicamente para a fantasia que a palavra, só ela, produzia. Agora cada um desses nomes representa mais alguma coisa, já têm um lugar no mapa da cidade que você vai aos poucos compondo na cabeça, já têm uma cara, um tamanho, você já percorreu e refez aquela ortografia, já compôs outras referências que agora se sobrepõem àquelas que eram fruto da mera fantasia lingüística, apagando-as para sempre.

Como para sempre a cidade, a sua cidade estará fixada. Claro que ela vai se expandir, vai revelar novos bairros, novas caras, e mais tarde ainda vai sofrer o trabalho da memória, a deturpação do relato, e se transformar ainda mais. Mas a base para essa transformação está assentada. E tudo se resolveu ali, quando você pôs o pé na rua pela primeira vez e decidiu sair para um lado e não para o outro.

* Este texto, com muito poucas variações, está também publicado no site do projeto Amores Expressos ( www.amoresexpressos.com.br ). Convido aqueles que queiram saber um pouco mais sobre este projeto a visitá-lo e acompanhar a viagem dos outros escritores.


Amilcar Bettega é escritor, autor de O vôo da trapezista, Deixe o quarto como está e Os lados do círculo(livro vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira em 2005). Vive em Paris.

Fale com Amilcar Bettega: amilcar.bettega@terra.com.br

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Amilcar Bettega/Especial para Terra
Em Istambul, ou em qualquer cidade desconhecida, a decisão de que caminho seguir não é objetiva

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