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Quarta, 13 de junho de 2007, 07h56

Drica, a hipocondríaca, em: constipação

Maria Falcão

Drica, a hipocondríaca, em cuidados com a constipação! Tenho uma amiga que não sai de casa sem um dicionário na bolsa. Não que ela seja daqueles tipos chatinhas, metidas a intelectuais, que decoram dicionário como se alguém se importasse de verdade se fala-se "sinto uma dor" ou "sinto uma xuxada". Não, essa minha amiga faz isso com toda a inocência que lhe é peculiar, simplesmente para ter a certeza de que não vai perder qualquer informação relevante.

Depois do que aconteceu comigo - o que contarei logo mais - vou adotar essa idéia. Só que, como me é peculiar, o meu dicionário vai ser o médico, para eu ter sempre em mãos esse recurso tão necessário no meu dia-a-dia. Se eu fosse mais, digamos, "letrada" no que diz respeito a termos médicos, não teria usado "constipação", achando que tava abafando, ao invés de ter dito logo entupida de catarro, e não teria sofrido as conseqüências dessa minha ignorância.

Bom, peguei uma gripe esses dias que não foi fácil. Gripe mesmo, das genuínas, com direito a dor no corpo, todo aquele funga-funga respiratório e até febre. Nada daquela frescurinha de só espirro e preguiça. Geralmente não tomo qualquer remédio, pois já aprendi, ao longo de todos esses anos em que venho servindo de cobaia do mundo microscópico (ácaros, vírus, bactérias, príons etc.), que gripe se cura é com muito líquido e repouso. Mas o dia dos namorados se aproximava e ao menos na minha voz de pata eu tinha que dar um jeito.

Fui na farmácia e, de maneira super consciente e assertiva, pedi algo pra constipação. O farmacêutico não pensou duas vezes e veio com algumas opções pro meu problema. Pensando agora, ou ele não tinha qualquer experiência na área ou tava mesmo querendo me prejudicar... Não estava evidente na minha cara que eu tinha me equivocado com os termos? Que na verdade eu queria algo para meu entupimento nasal? Também não sei o que me deu pra ter tomado aqueles remédios sem ler a bula, coisa que é de praxe na minha vida. Acho que a minha pressa pra me ver livre daquela gripe era tanta que não tive esse cuidado.

Enfim, tomei todas as bolinhas conforme fui orientada. Como não podia deixar de ser, e como diz uma conhecida minha, caguei a alma e tive que procurar um médico. Na consulta, narrei o episódio, com as mesmíssimas palavras e devidas confusões, e só então entendi o que tinha acontecido. O médico, depois de tentar disfarçar o momento de descontração que eu havia lhe proporcionado, fez o favor de me esclarecer onde eu tinha falhado dessa vez. "Drica, constipação é um termo usado também para obstipação, ou seja, dificuldade de fazer cocô. Já ouvi algumas pessoas cometerem o mesmo equívoco que você, e se referirem à con-ges-tão das vias respiratórias como constipação, mas isso é errado e, ao que parece, essa também é a opinião do farmacêutico que te atendeu!"

Agora, é preciso que fique esclarecido que eu não faço parte da enorme parcela de mulheres que sofrem de prisão de ventre. Já tenho problemas demais para lidar diariamente, de modo que desse eu abro mão. Aliás, do funcionamento desse sistema não posso me queixar nem minimamente. Comer mamão com fibra de manhã, por exemplo, é vexame no trabalho na certa.

Após mais alguns minutos de piadas às minhas custas, fui orientada a, logicamente, parar de usar o maldito remédio (um laxante) e, como na maior parte dos casos de diarréia, manter uma alimentação normal. Diferentemente do que muita gente acredita (em resumo: crendice popular é uma merda!), diante de uma diarréia não se deve deixar de comer. Em geral, pessoas com diarréia associam comida à disfunção gastrintestinal e evitam se alimentar. Isso só agrava o quadro de desidratação e suspende o fornecimento dos nutrientes necessários para o organismo reagir. O que deve-se fazer é priorizar alimentos como arroz, carne magra, bananas (importante por ser rica em potássio), maçãs e torradas, que dão mais consistência às fezes. É importante também beber muito líquido e repor a perda de sódio e potássio. Isso pode ser feito com soro caseiro, por exemplo. Mas pessoas com pressão alta, diabetes, doenças cardíacas ou glaucoma devem ter cuidado e consultar um médico antes. Outra coisa importante é suspender alimentos ricos em fibras, muito temperados ou muito gordurosos e evitar bebidas como café, leite, sucos de frutas e álcool.

Sobre o meu en-tu-pi-men-to nasal, ele aconselhou: "numa gripe, os remédios buscam aliviar os sintomas. Eles não previnem, curam ou diminuem a duração da doença. Sabendo disso, você pode usar descongestionantes ou anti-alérgicos. A inalação de vapor também pode aliviar temporariamente os sintomas de congestionamento. Seja como for, como alguns remédios podem ter efeitos colaterais, eles devem ser prescritos por um médico e serem tomados com cuidado".

Fiquei sabendo também que os antibióticos não matam vírus. Esses medicamentos só devem ser usados para complicações raras por bactérias, como sinusite ou infecção no ouvido. Sobre o uso de vitamina C, até o momento não existe nenhum estudo conclusivo que mostre que seu uso previne resfriados. Poderia talvez reduzir a severidade e duração dos sintomas, mas não há nada definitivo sobre esse assunto. Enfim, o resultado da história foi o seguinte: passei o dia dos namorados com cara e voz de pata e nem pude sair pra jantar pra não fazer mais feio ainda! Preparei um negocinho romântico em casa mesmo e tive o cuidado de pensar em justificativas convincentes para as eventuais corridas ao banheiro que precisasse fazer. Acho, ou melhor, espero que tenha me saído bem!


Maria Falcão é médica e mestre em jornalismo científico pela Universidade de Londres.

Fale com Maria Falcão: falcaomaria@terra.com.br

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