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Sexta, 15 de junho de 2007, 08h06

Living Theater e My Fair Lady a caminho da Abrace

Deolinda Vilhena

Living theater
A leitora Ana Letícia Maia, do Rio de Janeiro, mandou um pedido através do nosso Blog do Internauta pedindo que eu "presenteasse" os leitores do Terra Magazine com um artigo sobre o Living Theater, a companhia americana de Julien Beck e Judith Malina. Quis responder a Ana Letícia e disse a verdade: embora adore receber recados e sugestões dos meus leitores, sou incapaz de escrever sobre o Living Theater. Mas seu pedido me deixou com vontade de descobrir por que tenho essa sensação de incapacidade de falar sobre o desconhecido, até porque o material existente sobre o Living é suficiente para escrever diversos livros que dirá uma coluna...

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Conversa vai, conversa vem, descubro que não admiro o Living Theater o suficiente para escrever sobre as aventuras vividas por essa turma... Lembro-me de um artigo do Bruno Tackels, escrito em 1998, quando se comemorava na França os 30 anos dos eventos do Maio de 1968. Ele dizia que a história da arte está longe de ser universal e que ela é largamente cirscunscrita pelas fronteiras e territórios lingüísticos. Eu não falo inglês por não gostar da língua inglesa. Sorry, ninguém é perfeito... num mundo onde falar inglês é moda para uns e necessidade para outros, me orgulho de ser PhD pela Sorbonne sem falar a língua do bardo... globalização tem limite, ou deveria ter, ou vocês acham normal o espanto do Bush na última reunião do G-8 na Alemanha quando viu que o inglês não era a língua oficial e havia tradução simultânea?

Mas eu não falo alemão e fui às lágrimas vendo Hanna Schygulla no palco do Theatro São Pedro em Porto Alegre há pouco mais de dois meses... Logo, esse talvez não seja um argumento válido.

Remexendo o baú da memória, descobri que considero o Living Theater como uma aventura do passado, e desse passado mais do que as lembranças dos espetáculos que fizeram, guardei o desrespeito deles a Jean Vilar durante as apresentações de Paradise now no Festival d'Avignon em 1968, quando foram obrigados a deixar a França. Apaixonada por teatro desde sempre, descobri que se minha lembrança dessa companhia se resume a isso sou obrigada a concordar com Bruno Tackels quando ele diz que "o Living é bom o suficiente para ocupar uma entrada de meia-coluna nas enciclopédias de teatro".

Mesmo que a afirmação me custe alguns novos desafetos, a verdade é que com a morte de Julian Beck em 1985 o Living Theater desapareceu e, como grande parte daqueles que após a explosão majestosa e fulgurante de Maio de 68, se transformou em mito.

My fair lady!
Ainda que seja uma admiradora do trabalho de Jorge Takla, confesso que fui assistir My fair lady mais por curiosidade do que por vontade. Sempre lamentei não ter visto a montagem brasileira de 1962, com Bibi Ferreira e Paulo Autran, na época, em Belém do Pará. Aos três anos de idade ainda não tinha adquirido o hábito de freqüentar teatro. Mas implico muito com o teatro musical, com o puro divertissement, e a implicância é uma das minhas características mais fortes. Aliás implico com tudo porque de divertissement o Living Theater não tinha nada e hoje já impliquei com ele...

Além disso, me incomoda ver grandes produçõe$ - dizem que My fair lady custou cerca de R$ 4 milhões e que serão necessários R$ 8 milhões para que a peça permaneça em cartaz por sete meses - realizadas em parte com benefício das leis de incentivo fiscal, ou seja, com dinheiro público, enquanto os que dele realmente precisam estão à margem e à míngua.

Uma simples consulta ao banco de dados do PRONAC no site do MinC revela que o projeto de My fair lady recebeu autorização para captar no ano de 2007 R$7.137.606,97 dos quais captou R$ 3.385.000,00, restando a captar até 31 de dezembro desse ano R$ 3.752.606,97.

Mas, por outro lado, a grandiosidade dos números anunciados pela produção do espetáculo é fascinante para uma produtora: dez cenários assinados por Daniela Thomas e elaborados por uma equipe de mais de 100 pessoas, 300 figurinos de época assinados por Fábio Namatame, e confeccionados com luxo e requinte. Uma equipe permanente composta de 40 artistas, entre atores, cantores e bailarinos; uma orquestra de 20 músicos; 40 profissionais na equipe técnica (maquinistas, camareiras, cabeleireiros, peruqueiros, maquiadores, operadores de luz, som e contra-regras), e mais de 15 profissionais fixos na produção. Dar trabalho a tanta gente já é digno de aplausos...

Jorge Takla não mediu esforços para realizar essa nova montagem de My fair lady, musical baseado na peça Pigmalião de Bernard Shaw, e que reúne, segundo a crítica internacional, "todos os requisitos de melhor dramaturgia, música e maior popularidade de todos os tempos". Entregou a direção musical para o grande Luis Gustavo Petri, que de pianista e regente de Piaf - A vida de uma estrela, nos idos anos 80, escreveu uma trajetória de sucesso e hoje é também regente da Sinfônica de Santos, convidou Cláudio Botelho para traduzir e adaptar as canções, ele que é um gênio na arte da versão e cuja única falha, se é que podemos considerar assim, é não ter conseguido que aqueles que conhecem as canções da montagem de Bibi e Paulo esqueçam o Rei de Roma ruma a Madri... sai do teatro cantando o Rei de Roma...

Embora a direção de Jorge Takla seja impecável, fantástica sobretudo nas cenas de comparsaria, não fosse ele um diretor acostumado a dirigir óperas, faltou-lhe o toque de mestre necessário na hora de selecionar os protagonistas.

Ao escolher Daniel Boaventura (Professor Higgins) e Amanda Acosta (Elisa Doolittle), Takla parece ter cedido à idéia de que para dinamizar o espetáculo, ele precisaria optar por atores mais jovens. A título de exemplo, Bibi Ferreira e Paulo Autran entravam na casa dos 40 anos na época em que estrelaram My fair lady. Não que falte talento a dupla escolhida, mas falta-lhes vida, um pouco mais de experiência e verdade. Coisa que sobra, por exemplo, em Francarlos Reis (Alfred Doolittle).

De qualquer maneira, é um espetáculo que merece ser visto e onde os milhões da produção estão em cena, coisa que nem sempre acontece...

Abrace
Você não sabe o que é Abrace? Não se preocupe, eu também não sabia até bem pouco tempo. Estava fazendo mestrado no Cac, departamento de teatro da Escola de Comunicações e Artes da USP, quando fui tirada da sala de aula, do professor Clóvis Garcia, para ser levada à uma reunião semanal dos professores do departamento.

Ainda com a porta entreaberta, ouvi o professor Fausto Fuser dizer: "aí está minha orientanda produtora!". Não eu não havia cometido nenhuma besteira, eles apenas precisavam de alguém para produzir o I Congresso da Abrace - Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-Graduação em Artes Cênicas. Eu fui a escolhida e, pior, concordei com a escolha.

Não vou me demorar nas histórias da preparação do congresso, elas dariam um livro, mas elas também me deram a oportunidade única de conhecer a fundo o ambiente no qual eu acabara de debutar.

Criada em 1998, em Salvador, a Abrace, para efeitos legais, tem sede na cidade onde estiver instalada a sua diretoria. Uma associação itinerante, mambembeira como são os que fazem arte nesse país, cujo primeiro presidente atendia pelo nome de Armindo Bião. Pensei comigo, Armindo Bião? Mas esse eu conhecia de outros carnavais, literalmente, pois nos conhecemos em Salvador no Pelourinho, quando ele dirigiu o show de entrega do Troféu Aplauso outorgado a Bibi Ferreira em 1996...

O I Congresso é um sucesso, e os anais registram um agradecimento especial a esta colunista, feito pelo então chefe do departamento e hoje meu grande amigo, José Eduardo Vendramini "reforço o nome de Deolinda, pessoa sem a qual não teríamos chegado até onde chegamos".

Ao final do mestrado, deixo a USP rumo à Sorbonne. E a Abrace segue seu rumo dois anos em Salvador, depois Florianopólis, em seguida Rio, até chegar a Belo Horizonte, onde semana passada foi realizada a IV Reunião científica da Abrace e da qual participei.

Os que se acostumaram a ler essa coluna já devem ter compreendido que a academia me fascina ainda que meu estilo se aproxime mais da boemia... mas faço parte de um GT (Grupo de Trabalho) - a cada vez que ouço GT penso em GO (Gentis organizadores) do Club Med - e os membros de um GT devem participar das reuniões científicas e dos congressos. Afinal a Abrace é composta por dez deles: Dança e novas tecnologias, Dramaturgia, tradição e contemporaneidade, Estudos da performance, História das artes do espetáculo, Pedagogia do teatro & Teatro e educação, Pesquisa em dança no Brasil: processos e investigações, Processos de criação e expressão cênicas, Teatro brasileiro, Teorias do espetáculo e da recepção, Territórios e fronteiras.

Como estou voltando lentamente à pátria, o corpo veio de avião e alma vem a nado, aceitei o conselho de amigos que diziam ser o momento ideal para reencontrar meus pares. Eles tinham razão, já no aeroporto reencontrei minha amiga (e anfitriã em Belo Horizonte!), a professora Catia Rodrigues Barbosa, companheira dos tempos de doutorado em Paris. Depois reencontros em seqüência...

Primeiro Armindo Bião, nosso último encontro havia sido na linha 1 do metrô parisiense, que liga o Château de Vincennes à La Défense, e dele recebi o livro Teatro de Cordel na Bahia e em Lisboa. Depois Tânia Brandão, desde o réveillon de 2005 no Champs Elysées não nos víamos. Ela é a coordenadora do meu GT, Teatro Brasileiro. E mais presente: seu livro A máquina de repetir e a fábrica de estrelas - Teatro dos sete e vários exemplares do último número da revista Percevejo, da Unirio, para a qual escrevi um artigo sobre os 40 anos do Théâtre du Soleil. Revi ainda Sérgio Farias, que na época do I Congresso era o Tesoureiro da Abrace, um dos mais ingratos cargos em qualquer associação, principalmente nas mais pobres... ele, que é todo gentileza e doçura, me disse bem baianamente "precisamos interagir mais".

Durante dois dias discutimos os rumos da Abrace que ano próximo completa dez anos, ao mesmo tempo em que discutíamos os projetos de nossos respectivos grupos de trabalho. Cerca de 160 participantes vindos de todo o Brasil para pensar o ensino e a pesquisa em artes cênicas, recebidos com carinho e competência pela atual diretoria, encabeçada por Fernando Mencarelli da Universidade Federal de Minas Gerais, no belo prédio do Conservatório de Música de Minas Gerais, em frente ao Palácio das Artes onde tantas vezes estive com Bibi, nos meus tempos idos de produtora.

Confesso que, ao chegar, fui invadida por um certo saudosismo, revi o congresso de 1999 e só ao entrar na fila para retirar meu crachá, compreendi o quanto era bom estar do lado de fora do balcão. Legal foi constatar nos jovens que lá estavam a crença no teatro, na dança, nas artes do espetáculo enfim, a mesma crença que tínhamos quando também jovens optamos pelo circo numa terra onde mesmo o pão é incerto.

Na Assembléia final, entre as muitas decisões, duas merecem destaque: a criação de um novo GT, dirigido por Armindo Bião, na área de Etnocenologia e o o anúncio do V Congresso da Abrace, a ser realizado entre 27 e 30 de outubro de 2008 em Belo Horizonte.

Na volta da Reunião científica, sozinha no avião, vim pensando na importância desses encontros, que contribuem para derrubar as barreiras entre teoria e prática, entre os que pensam e os que fazem. Tudo o que quero é que, com o passar dos anos, os que façam teatro pensem, e os que pensam teatro, façam. Somos alguns a fazer parte desse clube, para os que quiserem saber um pouco mais sobre a Abrace, que reúne o pensar e o fazer, recomendo uma visita ao site: http://www.eba.ufmg.br/abrace/index.htm.


Deolinda Vilhena é jornalista, produtora cultural, mestre em Artes pela ECA-USP, mestre e Doutora em Estudos Teatrais pela Sorbonne Nouvelle-Paris III

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Jairo Goldflus/Divulgação
Amanda Acosta e Daniel Boaventura... em My fair lady, nos papéis de Eliza Doolittle e Prof. Higgins

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