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Segunda, 18 de junho de 2007, 09h51

O crescimento da indústria e do PIB

Luiz Gonzaga Belluzzo

A Folha de S.Paulo, em sua edição de domingo, 16 de junho, informa, em manchete de primeira página do caderno "Dinheiro": Indústria de ponta perde espaço no país. No início da matéria, o jornalista Fernando Canzian reconhece: "A indústria brasileira mais sofisticada e de maior intensidade tecnológica encolheu 16% nos últimos dez anos, enquanto a mais básica aumentou a sua participação em 9%". Traduzindo: o Brasil está perdendo posições na corrida mundial de incorporação de novos setores e da tecnologia mais avançada.

Nos baixios da opinião econômica especializada, desenrola-se a pantomima pseudo-científica dos analistas do mundo financeiro sobre a situação real da indústria brasileira. As razões e os efeitos da continuada valorização do real dividem os economistas. A rapaziada do "senta que o leão é manso" argumenta que a notória melhoria dos "fundamentos" vem instigando o apetite dos investidores por ativos brasileiros. Melhor ainda, submetida à concorrência externa, a indústria brasileira atirou ao mar as ineficiências e muitas empresas já flexionam os músculos para um novo período de expansão, os custos alinhados às exigência do mercado internacional. A comprovação da façanha é atestada pelo aumento das importações e da produção doméstica de bens de capital.

A matéria da Folha mostra que os segmentos industriais mais intensivos em tecnologia - aqueles situados na escala alta e alta-média, como material e equipamentos eletrônicos, aparelhos elétricos, máquinas e equipamentos - perderam posição na composição do valor agregado da indústria, nos últimos 10 anos.

Ainda assim, há quem proclame o vigor da indústria brasileira, pronta para saltar na jugular dos competidores. Também não escasseiam os que sugerem ser até desejável, na nova divisão internacional do trabalho promovida pela liderança sino-americana, que o Brasil se (re)transforme num exportador de produtos intensivos em recursos naturais. Primário-exportador, sim, mas de primeira classe. A história do capitalismo já registrou períodos relativamente longos de termos de troca favoráveis aos produtores de commodities, mas não há notícia de que tenham sido sustentáveis.

Por aqui, a taxa de da indústria manufatureira têm ficado muito abaixo do ritmo de expansão dos concorrentes. O IEDI analisou os dados recentemente divulgados pelo IBGE:

"Na comparação entre o acumulado nos últimos quatro trimestres e o acumulado dos quatro trimestres anteriores, fica transparente o quanto a indústria tem deixado de crescer. O setor industrial experimentou acréscimo de apenas 2,3%. Por outro lado, se o desempenho agropecuário foi fraco no primeiro trimestre do ano, nos últimos quatro trimestres permanece com a maior taxa de expansão, 5,5%. Já os serviços lograram crescer no mesmo patamar do PIB, 3,8%.

Ou seja, a indústria tem sido o segmento que mais tem sofrido com as condições cambiais em curso. A agropecuária, pelos recursos naturais do país, e os serviços, nos quais há segmentos non-tradeables ou que se beneficiam do câmbio apreciado contrabalançando aqueles que se retraem, sentem menos no curto prazo os efeitos da apreciação. Porém, no médio e longo prazos, à medida que haja impactos mais estruturais na indústria, a tendência é que a dinâmica industrial cerceie a agropecuária e os serviços e que reduzam as possibilidades de efeitos de transbordamento a partir destes para a indústria".

No outro lado do mundo, os asiáticos crescem acima da média mundial e sustentam alentados superávits comerciais, sempre associados a altas taxas de investimento na indústria e na infra-estrutura e à rápida escalada no gradiente do horizonte tecnológico. Na China os setores que crescem a taxas mais elevadas são exatamente aqueles que, no Brasil, apresentam desempenho pífio. Como hunos, os chineses invadem os territórios em que imperam os bens de maior elasticidade-renda, o que favorece a competitividade de suas exportações. No caso da China, a política de defesa do yuan, a oferta ilimitada de mão-de-obra e a busca de graduação tecnológica se juntam para esfolar o que resta das indústrias intensivas em mão-de-obra e em tecnologia nos parceiros incautos e desavisados da periferia.

No capítulo XXIII da Teoria Geral, Keynes trata, sob outra perspectiva, das "virtudes" do mercantilismo. Sustenta que um saldo positivo em conta corrente permitiria a queda da taxa de juro doméstica, ao injetar liquidez em moeda forte na economia nacional. Dada a relação câmbio/salário, a elevação do fluxo esperado de lucros pelos empresários vai estimular o investimento, a renda e o consumo. A dinâmica da economia está, portanto, apoiada no circuito: exportações-acumulação-de-reservas¿expansão-do-crédito - elevada taxa de investimento-ganhos de produtividade.

É preciso compreender um fato elementar, mas nem por isso reconhecido pela teoria econômica dominante: ao contrário das economias-naturais-que-usam-dinheiro, as economias capitalistas modernas são economias monetárias da produção e do enriquecimento. A avaliação dos ativos nos mercados financeiros e cambiais determina as condições do crédito e estimulam ou desalentam as intenções de investimento. Aliadas às expectativas de lucro dos ativos reprodutivos, as condições de crédito viabilizam as decisões de gastar dos empresários que ao contratar fatores de produção "criam" a renda adicional.

Aos borbotões o capital estrangeiro ingressa no Brasil para abocanhar os ganhos de arbitragem em renda fixa e participar da farra de fusões e aquisições e de IPO's milionários nas Bolsas de Valores. Ao valorizar o real, a grana fácil e generosa foge do investimento nos setores que sofrem a concorrência estrangeira. Na maioria dos casos, a bufunfa escorrega para os bolsos dos controladores e dos ex-proprietários. O patrimonialismo caboclo, insuflado pela parcimônia dos rendimentos no mercado global, comemora um arranjo inefável e singular: o rentismo patrocinado por juros nominais em queda lenta (e taxas reais atraentes) caminha de mãos dadas com formidáveis ganhos de capital.


Luiz Gonzaga Belluzzo é professor titular aposentado da Unicamp, consultor editorial da revista Carta Capital e vencedor do prêmio Juca Pato em 2005.

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