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Arquivo pessoal/Reprodução
Desde criancinha - Em foto de 1983, ano em que o Grêmio venceu a Libertadores, o gremista Cardoso segura o irmão que, no último domingo, o acompanhou na epopéia por um ingresso
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André Czarnobai (Cardoso), especial para Terra Magazine
Eu programei, ele obedeceu: por volta das oito da manhã de domingo, berrou o despertador do meu celular. Os termômetros marcavam algo em torno de 8ºC e, mesmo assim, eu estava de pé, e no Bomfim. Em menos de uma hora, as bilheterias do Olímpico Monumental estariam abertas e eu poderia batalhar um dos pouco mais de 6 mil ingressos com todos os demais torcedores gremistas. Claro que eu sabia que o páreo era duríssimo, afinal de contas, algumas pessoas estariam naquela fila desde a tarde de sexta-feira, dispostas a tudo pra conseguir um ingresso para a final histórica contra o Boca Juniors.Mesmo assim, eu acreditava.
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Parei para tirar dinheiro num caixa 24 horas de um posto de gasolina na Azenha e, de lá, liguei para o Galera. Na noite passada, ele havia me dito que iria para a fila ainda de madrugada, e só sairia de lá com um ingresso na mão. Resolvi ligar para saber em que ponto da fila ele estava, e se seria uma boa juntar-me a ele naquela posição ou se era melhor ir pro fim da fila.
Para minha surpresa, ele me atende com voz de quem acaba de acordar para dizer que, de fato, havia ido até a fila por volta das duas da madrugada. Mas só ficara até as seis. Segundo ele, foi nessa hora que as pessoas às suas voltas começaram a contar histórias sobre como no jogo contra o São Paulo a fila era duas vezes menor e mesmo assim eles não haviam conseguido ingressos. Nessa hora, muitos abandonavam a fila. Bêbado, cansado, levemente gripado e possivelmente influenciado pelo amigo Natão, que o acompanhava em estado semelhante, Galera decidiu fazer a mesma coisa.
Ouvi-lo dizendo aquelas palavras foi devastador:
- A hora que eu saí a fila tava muito bizarra, dando voltas no Olímpico. Achei que não ia dar, e meio que desisti.
Dirigi até o Olímpico duvidando do que acabara de ouvir. Ao mesmo tempo, a lógica insistia em se manifestar. Na altura da Rótula do Papa eu já via a multidão e começava a raciocinar. "O Galera veio de São Paulo pra cá só pra ver o jogo. Se ele tá me dizendo que a coisa tá feia, é porque deve estar muito feia mesmo".
O pior é que ele tinha razão: a fila era ENORME. Olhando pela Cascatinha eu não conseguia ver onde ela começava e nem onde terminava, então resolvi fazer uma volta e passar pelo outro lado do estádio, na Carlos Barbosa. Não deu: bem na hora em que eu ia me aproximando da turba, a EPTC (responsável pelo controle do tráfego em Porto Alegre) começou a botar cavaletes para bloquear o trânsito. Tive de fazer um desvio pela Lomba do Cemitério e, mesmo circulando por alguns minutos pelas imediações, não achei um lugar para estacionar.
Eu não podia desistir. Não era apenas uma final de Libertadores, era contra o Boca. E era no Olímpico Monumental. E mais do que tudo, era a primeira vez que o meu irmão iria ao estádio. Eu havia lhe prometido que o levaria à final. Chegamos a combinar de ir junto para a fila ainda na madrugada de sábado, mas os planos acabaram frustrados por um resfriado inesperado. Ainda assim, minha promessa estava de pé, e com ou sem sua companhia, eu compraria o seu ingresso.
Sem encontrar um lugar para estacionar, resolvi dirigir até em casa, na Medianeira, onde deixaria meu carro e faria o trajeto até o estádio a pé. Ao chegar em casa, entretanto, resolvi dar uma rápida olhada nos jornais e na internet atrás de possíveis informações sobre a venda de ingressos e comecei a fraquejar. Primeiro, um comunicado oficial da direção do clube dizia que cada torcedor poderia comprar apenas UM ingresso. Isso praticamente inviabilizava a presença do meu irmão e tirava grande parte da graça de comparecer ao estádio naquele dia. Somando esse fato à visão da fila e ao depoimento do Galera, pensei em desistir.
Mas não desisti totalmente.
Entre as 9h30 e o meio-dia, fiquei respondendo e-mails e navegando na internet enquanto mantinha sempre aberta uma janela do FireFox no site do Grêmio.
Ao meio-dia e meia, a primeira boa notícia: os ingressos para arquibancada haviam acabado. Botei os neurônios pra funcionar e cheguei à seguinte conclusão: muito provavelmente, a esmagadora maioria das pessoas que ficaram na fila pretendiam pagar R$ 50 pelos ingressos de arquibancada. Muito poucos entre os que foram até lá com esse intuito teriam vindo preparados para desembolsar mais que o dobro ou quase quatro vezes o mesmo valor para assistir ao jogo de cadeira.
Vi, ali, um raio de esperança, e resolvi dar uma nova passada na frente do estádio. Se a fila houvesse diminuído, de fato, voltaria em casa e convenceria meu pai, minha mãe ou até mesmo minha tia a ficarem na fila comigo para conseguir um ingresso pro meu irmão.
À medida que ia me aproximando da Azenha, um sentimento bom ia tomando conta de mim. Quando avistei as ruas desertas no entorno do estádio e os poucos gremistas desolados sentados cabisbaixos no meio-fio, cheguei a pensar que não apenas os ingressos de arquibancada como TODOS os de cadeira também haviam se esvaído.
Ainda assim, passei teimosamente na frente da bilheteria e pude notar que uma pequena multidão se aglomerava nas suas cercanias. Agora, contudo, eu conseguia avistar o FIM da fila - e ela não era mais tão assustadora como às nove da manhã.
Voltei pra casa voando só pra receber a segunda boa notícia: meu irmão havia acordado ainda não totalmente recuperado, mas dizendo-se em condições de ir ao estádio ficar na fila para arriscar um ingresso. Tomado de um otimismo inexplicável, almocei na velocidade da luz, botei meu irmão no carro e liguei pro Galera. Ele, ao saber da possibilidade de uma nova investida, adotou o mesmo procedimento.
Por volta de 14h30, estávamos os três na fila. Havia, no máximo, dez pessoas atrás de nós. À nossa frente, talvez umas 500 ou 600. Não sei. Impossível estimar. A primeira meia hora foi tranqüila, apesar das informações que chegavam de todos os lados, indicando que menos de 700 ingressos ainda estavam disponíveis. Então começaram os problemas. Primeiro, meu irmão havia esquecido a identidade em casa. Tive de voar até lá para procurá-la e trazê-la. Depois chegaram os primeiros boatos de que os ingressos de cadeira lateral, por R$ 120, haviam se esgotado. Eu estava disposto a tudo, então havia trazido R$ 180 pra mim e R$ 180 para o meu irmão, valor necessário para adquirir, caso fosse necessário, um ingresso para a cadeira central.
Galera abriu sua carteira e contou exatos 170 reais. Bateu-lhe um pânico. Começaram as hipóteses absurdas. "Vou ter que pedir 10 pilas pra alguém na fila e depois eu pago". Depois de pensar algumas soluções para o problema, eis que lhe deu um estalo.
- Vou até um posto de gasolina comprar alguma coisa no cartão. Daí peço pra marcar 10 reais a mais no débito e peço pro balconista me dar a diferença em dinheiro.
Não imaginei que fosse dar certo, mas a verdade é que deu.
Novos boatos chegavam, agora indicando que restavam apenas 300 ingressos.
Foi quando o clima começou a ficar realmente nervoso.
Meu estômago revirava, eu não conseguia parar de pedir cigarros pro meu irmão (eu não fumo) e não parava de olhar o relógio. Uma senhora baixinha, situada duas posições atrás de nós na fila, resolveu fazer alguma coisa pra tranqüilizar a multidão e saiu a contar, pessoa por pessoa, todos os que estavam na nossa frente. Demorou um tempo incrível e voltou só para nos dizer algo do tipo "só até o poste, ali, tem mais de 300".
Um largo arrepio me percorreu a espinha.
Nisso, aparece um gremista aparentemente perdido, com uma expressão de tristeza inesquecível. Pergunta, enquanto coça a cabeça:
- Vocês não viram um bonezinho da Super Raça? Tem mais de 20 jogos aquele boné, eu não posso perder aquele boné.
Nos olhamos como quem diz "já era", enquanto tecíamos comentários sobre o vendedor de bandeiras, de uns 12 anos de idade, que voltava com um produto novo a cada passagem.
- Daqui a pouco passa aí o guri que vende bandeira, café e pizza dizendo que agora vende também boné da Super Raça.
Foi aí que a mulher da família que estava imediatamente atrás de nós na fila não agüentou confiar apenas na contagem da senhora baixinha e decidiu fazer sua própria contagem.
O cara procurando pelo boné da Super Raça desapareceu, inconformado, caminhando na direção contrária da fila, perguntando a cada 10 passos:
- Vocês não viram um bonezinho da Super Raça?
Durante algum tempo, nada aconteceu, então vimos que vinha voltando a mulher da família que estava imediatamente atrás de nós na fila, enquanto concluía sua contagem. Antes mesmo que ela nos alcançasse, eis que volta do final da fila o gremista aparentemente perdido.
Agora, em vez de desolação, seu rosto traz uma expressão de pura alegria. Na cabeça, o bonezinho da Super Raça. Os dois punhos cerrados erguidos aos céus. Os gremistas na fila aplaudindo e vibrando.
Segundos depois, a mulher da família que estava imediatamente atrás de nós na fila finalmente nos alcança sorrindo, pára ao nosso lado e diz:
- Até aqui não deu nem 130.
Diante de todas aquelas epifanias, já nos era evidente que não voltaríamos para casa de mãos abanando. Não havíamos ficado na fila todo aquele tempo para nada. Nosso esforço seria recompensado. Eu tinha certeza. Eu acreditava.
Então, por volta das 17h, finalmente a provação chegaria ao fim e eu receberia a terceira boa notícia do dia: os ingressos estavam na mão. A minha teimosia, o sacrifício do meu irmão, a distância enfrentada pelo Galera, tudo isso tinha valido a pena.
Apesar da lógica ter nos mostrado o contrário desde o começo, perseveramos e conseguimos voltar pra casa com os ingressos. Poderíamos acompanhar dali a alguns dias, no Olímpico Monumental, a partida mais importante da história do nosso clube.
Se antes dessa epopéia simbólica eu já confiava cegamente no Grêmio, depois dela eu nem sequer penso em outro resultado para este jogo que não a vitória triunfante do Tricolor da Azenha. Vai ser um jogo aguerrido, com um clima pesado. Vai ser um jogo sofrido e longo.
Vamos ter momentos tensos e momentos de alívio. Mas não tenho a menor dúvida de que vamos cantar, torcer, vibrar e gritar o tempo inteiro, e que, ao final da batalha, teremos patrolado os castelhanos e erguido a terceira taça de Campeão da América.
Dá-lhe Grêmio!
Nada pode ser maior.
NADA.
Terra Magazine
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