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Quarta, 20 de junho de 2007, 14h02

A "sexta" do Boca é quase um fato

Fabián Tetelboim, de Buenos Aires, Argentina

A horas da grande final em Porto Alegre os torcedores do Boca esperam ansiosos pelo momento de festejar a conquista da sexta Copa Libertadores de sua história. A vantagem de três gols sobre o Grêmio parece decisiva para a revanche de hoje.

São duas da manhã. É impossível dormir. E não posso culpar nenhum barulho. As frias ruas de Buenos Aires não têm almas transitando-as. Se me acordei no meio da noite é porque algo dentro de mim me impede de conciliar o sono. Só faltam algumas horas, a ansiada "sexta" está na porta. Espera em Porto Alegre que Boca a eleve ao céu, como uma oferenda a Deus.

É o dia da finalíssima. A Copa Libertadores e o Boca se preparam para continuar un idílio que nesta última década é algo mais que um simples romance. Nenhum dos dois pode escondê-lo. Se amam, se tocam, se beijam, se adoram, se pretendem, sentem saudade quando não se vêem e de vez em quando são infiéis, há que admiti-lo.

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Apesar de estarmos no grande dia eu sigo na noite e sem poder pregar um olho. Repasso a goleada da Bombonera, o templo do futebol de Buenos Aires. Retumbam, cantam e gritam. Não se calam. Ao contrário, elevam a voz: "La Copa Libertadores es mi obsesión, tenes que dejar el alma y el corazón". Riquelme os interrompe e crava um tiro livre precioso. Os cantos se transformam em gol e o gol percorre as ruas, os bairros, as cidades, as províncias, o país e o mundo, agora com Internet.

Tudo termina em 3 x 0. O Boca arrasou, tirou foto de campeão. Não pode escapar, não deve escapar. "Se perdermos esta Copa vou embora do país, como olharia nos olhos do meu filho, como explicaria que somos mais galinhas que as galinhas?", me diz um torcedor com seu filho de 10 anos e um sorriso enorme na cara. O garoto não concebe a hipótese de perder no Brasil, nem eu. Não me entra na cabeça. Perder ao estilo River, jamais.

Olho o relógio, são duas e dez. Poderia jurar que passou uma hora desde que me levantei sem sono. Passaram apenas dez minutos. Ainda dura a frustração por não viajar a Porto Alegre. Escutei que por lá querem comer o Boca em fogo brando, com batatas ao forno. O Grêmio está ansioso, com sede de revanche. Os incidentes daqui serão vingados lá. "Mulheres e crianças não devem ir", recomendam por todos os lados. A partida já tem um tom mais que dramático. Ante-sala de uma guerra, prévia do inferno.

Tento voltar a dormir. E para isso, em vez de contar ovelhinhas, revejo finais. Lembro-me dos pênaltis diante do Palmeiras em 2000 e do Cruz Azul em 2001. Tomo um avião, cruzo o mundo e chego imaginariamente às duas Copas Intercontinentais do Japão. Palermo derruba o Real Madrid e Boca toca o céu con as mãos. O Bayern Munich nos "rouba" a do ano seguinte. Mas voltamos em 2003 depois de ganhar a Libertadores diante do Santos. En Yokohama, outra vez os pênaltis nos favorecem frente ao poderoso Milan.

Por mais que me esforce não posso. Acomodo a bandeira azul e dourada que tremula na varanda e a estiro para que a vejam até os extraterrestres, se for possível. É velha, mas a tenho desde que meu pai me levava para ver o time de Maradona, em 81. E quero que me acompanhe até o dia em que, como um ritual, a entregue a meu filho para dar continuidade à estirpe. Não me interessa o sobrenome, só quero que seja bostero (nota: jargão que define os torcedores do Boca). Que essa seja sua religião. Porque nós do Boca não somos torcedores, somos fiéis, devotos e crentes.

A esta hora quero ser Caranta e driblar a vida. Desejo ser Cata Díaz ou Ibarra para mandar a bola para as arquibancadas quando o Grêmio atacar. Sonho ser Román e bailar tango no meio do Olímpico de Porto Alegre. E pretendo me meter na pele de Palermo e de Palacio para gritar gol, beijar a camiseta e conseguir a sexta Copa Libertadores de América. Já falta menos que antes ainda que os minutos não queiram passar - serão eles torcedores do River?


Fabián Tetelboim é jornalista esportivo. Atualmente, ocupa o cargo de editor de Media Services e Conteúdos Regionais do Terra Latinoamérica.

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