Terra Magazine

› Terra Magazine › Esportes › Futebol

Quinta, 21 de junho de 2007, 13h08

Boca em tudo - uma provocação colorada

Fabrício Carpinejar, especial para Terra Magazine

Desde ontem, a cidade com boca-de-siri.
Eu, boca-de-urna, boca-de-caixa. Bocarra.
Só leio Bocage e Boccaccio.
Desde ontem, um bocadinho de sono, esboçado.
Desde ontem, boca-livre. Bocados na boca.
As bocas de fogão ainda sujas, bocaxim.
Desde ontem, virei índio, o bocal pintado,
virei bocaiú, dançando ao redor das bocas.
Bocada. As bocaiúvas na rua, abocadas, abobadas.
A boca-do-lixo com bandeiras.
A boca-de-fumo sem fumaça.
Desde ontem, o céu azul, a estação amarela.
A boca miúda. A boca-lisa.
Nas grades, a boca-de-leão.
Ou seria boca-de-dragão?
Desde ontem, boca-aberta,
espalhando-se no boca-a-boca.
Emboança. Boa boca.
Eu, assim, desbocado, vestindo boca-de-calça.
Boca-de-sino. A curva da boca.
Eu assim pressentindo boca-de-cano.
Desde ontem, desde ontem, a boca-de-moela,
a boca-de-velha dos outros.
No copo, no espelho, na carne,
onde estão meus quatro dentes?
A boca, a boca. A boca da porta.
A boca da cara. A boca da Azenha, emborcada.
A boca vermelha, minha boca.
Boca no trombone. Boquilargo.
O céu da boca. Boca-de-ouro. Reboço.
Minha boca imoral. Emboca. A boca rindo,
espocando. Boquim. Boqueirão.
Bate-boca. Bate boca!
Já a outra, boca-braba,
boca chorando, boca-rota.
Boquirrasgada. Boquifendida.
Boca-de-lobo. Boca-de-inferno.
Desde ontem, a boca imortal,
boquinha, boga. Emboçada.
Embolada. Esboiçada. Rebocada.
Sem emboque. Meia-boca.
- Na bola preta não.
Desde ontem, a boca imortal boquejando,
boqueando.
Boca.


Fabrício Carpinejar é poeta, jornalista e professor, 34 anos, pai de dois filhos (Mariana e Vicente), casado há 11 anos com Ana, autor de livros de poesia - "Meu Filho, Minha Filha" (Bertrand Brasil, 2007) - e de crônicas - "O Amor Esquece de Começar" (Bertrand Brasil, 2006), entre outros. No domingo, sua família pode ser encontrada nas cadeiras T 166, T 168 e T 170 do Beira-Rio. Tem dois irmãos gremistas, Rodrigo e Miguel. Durante a infância, a porta do banheiro vivia quebrada e rachada pela perseguição da torcida dentro de casa. Aprendeu a sofrer calado na derrota. E a rir ruidoso na vitória. Blog: http://fabriciocarpinejar.blogger.com.br

Terra Magazine

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol