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Sexta, 22 de junho de 2007, 08h06

"O Baile", "Fim de Jogo" e "Experimentos"

Dalton Valério/Divulgação
Peça O Baile, baseado no filme homônimo de Ettore Scola
Peça "O Baile", baseado no filme homônimo de Ettore Scola

Deolinda Vilhena

Antes que me lembrem que o assunto dessa coluna é teatro e não cinema, aviso que, hoje, nosso primeiro assunto passa pela telona. Não sei se entre os meus 17 leitores, como diz meu amigo Artur Xéxeo, alguém viu Le Bal (O Baile) do Ettore Scola. Eu vi (e com certeza o Xéxeo também!) e devo dizer que amei... aliás, esse papo de hoje mal começou e já me deixou com vontade de revê-lo... Anotem na agenda porque tem valor de dica para o final de semana: passar mais tarde na locadora e ir preparando uma sessão básica para a noite de hoje ou para a tarde de sábado...

Não sou cinéfila e posso estar equivocada, mas na minha cabeça Le Bal marcou (ou deveria ter marcado!) toda uma geração. Com esse filme Ettore Scola ganhou, em 1984, o César (o Oscar francês) de melhor diretor. Le Bal conquistou ainda o César de melhor filme e o Urso de Prata no Festival de Berlim do mesmo ano. Mas, se muita gente viu o filme, acho que poucas pessoas sabem (ou registraram!) que Le Bal tem sua origem numa peça de teatro.

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A peça, O Baile, é uma criação coletiva do Théâtre du Campagnol criado e dirigido por Jean-Claude Penchenat cuja biografia registra um dado importante: ele é um dos nove membros fundadores do Théâtre du Soleil. Companheiro de primeira hora de Ariane Mnouchkine, Jean-Claude Penchenat trabalhou durante 13 anos no Théâtre du Soleil, de Capitaine Fracasse à L'âge d'or. Ele participou de todos os espetáculos, e deixou a trupe após interpretar Luís XIV, o Rei Sol, no filme Molière ou la vie d'un honnête homme (Molière, ou a vida de um homem honesto), dirigido por Ariane Mnouchkine e que levou o Théâtre du Soleil a subir as escadarias do Palácio do Festival de Cannes em 1978 com o filme concorrendo nas categorias de melhor filme e direção.

Alguns anos depois, Penchenat, instalado em uma piscina abandonada em Châtenay-Malabry, nos arredores de Paris, cria o Campagnol nos mesmos moldes da sua verdadeira escola, o Théâtre du Soleil, e monta Le Bal, seu maior sucesso e que deu origem ao filme homônimo de Ettore Scola.

Duas décadas e meia depois, uma versão brasileira de O Baile chega aos palcos cariocas. Recebi um convite da minha amiga Beth Lamas, que faz parte do elenco, para os ensaios abertos. Até então desconhecia a montagem. Na mesma hora mandei um email querendo todos os detalhes. Afinal entre o filme do Scola e minha ligação com o Penchenat através do Théâtre du Soleil, a curiosdidade falou mais alto e confesso estar à procura de uma brecha na agenda para dar um pulinho ao Rio só para assistir o espetáculo.

O Baile estreou no SESC Ginástico do Rio de Janeiro, na última quarta-feira e é a realização de um sonho da atriz Tássia Camargo, que associada ao produtor Guilherme Abrahão e num ato de coragem, colocou em cena 20 atores, um quinteto musical e mais de 150 figurinos, sob a batuta de José Possi Neto.

Por orientação do próprio Penchenat, detentor dos direitos da peça e responsável pela contratação de Ettore Scola para fazer o filme, "todas as montagens da peça devem retratar a história do país em que forem encenadas". Isso significa que no Brasil a versão assinada por José Possi Neto apresenta quatro décadas da história do Brasil - do suicídio de Getulio até a reconquista da democracia.

Se ficha técnica for garantia de bom espetáculo, O Baile já pode ser considerado imperdível. A coreografia tem grife, Carlinhos de Jesus, os cenários levam a assinatura do grande Hélio Eichbauer, os figurinos são de Marilia Carneiro, a caracterização de Vavá Torres e a iluminação do meu bom e velho amigo Aurélio de Simoni.

O elenco reúne muita gente boa, pois além de Tássia Camargo, O Baile conta com a participação de Alice Borges, Antonio Negreiros, Beth Lamas, Carlinhos de Jesus, Cláudia Mauro, Claudio Lins, Claudio Tovar e Sandra Pêra, acompanhados por um quinteto musical formado por Affonso Neto, Fernando Trocado, Omar Cavalheiro, Paula Faour e Thiago Trajano.

Detalhe interessante e que aproxima a criação brasileira do espírito da original francesa, a produção de O Baile alugou uma casa, exclusivamente dedicada a sediar os preparativos para o espetáculo. Nessa casa os "atores ensaiam, fazem suas refeições, e alguns até mesmo se hospedam". Eles têm à disposição, além das salas para ensaio e aulas de dança, camarins, três suítes para hospedagem, escritório de produção, atelier de criação de figurinos, oficina de costura, oficina de maquiagem e caracterização, e até mesmo estúdio fotográfico. Lendo isso, quase me senti na Cartoucherie ou na Piscina do Campagnol em Châtenay-Malabry...

Dica para os que moram no Rio, esqueçam a locadora e O Baile do Scola, vá ao SESC Ginástico prestigiar essa turma. É verdade que eles têm o patrocínio da Petrobras, mas na era da meia entrada, poderiam optar por um monólogo, mas não, colocaram 25 pessoas em cena. Digno de aplauso, se possível aplaudam de pé... eu ainda farei o mesmo.

Fim de jogo no Tepa
Eu adoro Porto Alegre. Sempre disse que era a única cidade brasileira onde poderia morar se um dia tivesse que deixar o Rio de Janeiro. Vocês podem me perguntar, mas o que temos a ver com isso? Lá em cima comecei falando de cinema, aqui de preferências geográficas, calma...

Fui apresentada à POA em junho de 1992 por ninguém menos que Tônia Carrero. Porto Alegre era a primeira etapa da nossa turnê pelo sul do país com a peça As atrizes. Um texto do Juca de Oliveira, dirigido pela Bibi Ferreira, Tônia Carrero encabeçava um elenco que tinha ainda Adriano Reis, Eduardo Tornaghi, Tânia Loureiro e Márcia Cabrita.

Sobre o que foi essa turnê prefiro deixar para outro dia, tenho assunto para escrever não uma coluna mas uma minissérie on line, mas foi nessa época que me apaixonei por essa cidade. Afinal Tônia me apresentou à la crème de la crème da cidade e para não esquecer nomes e nem cometer injustiças, direi apenas o nome de uma dessas pessoas: Mafalda Veríssimo. Quem conhece Porto Alegre sabe o que significava, e significa ainda hoje, chegar à cidade pela porta da casa dos Veríssimo e, com o aval da matriarca.

Ou seja, entre 1992 e 1997, fiz de Porto Alegre minha segunda cidade; lá estive com os mais diversos espetáculos, nos mais diversos teatros: Theatro (com th mesmo!) São Pedro (à benção D. Eva!), teatro da Ospa, inauguração do teatro do Sesi... e a cada passagem, renovava a paixão e fazia novos amigos. Muito desse fascínio vinha da constatação da força e da existência de movimento teatral forte que, sem ignorar o eixo Rio - São Paulo, sobrevivia independente dele.

Quis o destino que, recém chegada de Paris, recebesse um convite do Luciano Alabarse para ir ao lançamento da programação do Porto Alegre Em Cena, com direito a assistir a biografia musical de Hanna Schygulla, a musa do Werner Fassbinder e de muita gente boa.

Nessa noite encontrei Luiz Paulo Vasconcellos. Não o conhecia pessoalmente mas o tinha como um amigo íntimo graças a um livro escrito por ele nos anos 80, Dicionário do teatro, que me acompanha há duas décadas. Conversamos, Luciano Alabarse nos apresentou, depois trocamos endereços e desde então trocamos figurinhas via internet... ele é, inclusive, um dos meus 17 leitores!

Tinha fechado a coluna da semana passada quando recebi o convite da assessoria de imprensa do Luiz Paulo para a estréia de sua mais recente criação, Fim de Jogo, a obra prima de Samuel Beckett, na qual "passar o tempo é a meta, o desafio, a incógnita, a missão e a utopia, na medida em que o passado é quase totalmente desconhecido e do futuro não se prenuncia possibilidade" dos quatro personagens.

No elenco, Zé Adão Barbosa, Jeffie Lopes, Crissiani Sgarbi e Vinicius Meneguzzi. Fim de jogo está em cartaz na Sala de Apresentações do Tepa (Teatro Escola de Porto Alegre) e pode ser vista até o dia 22 de julho. Acho que está na hora do Luciano me convidar para ir a Porto Alegre outra vez...

Quem não puder assistir a Fim de Jogo pode dar uma olhadinha no vídeo promocional da peça filmado por Daniel Jainechine e disponível no YouTube: http://www.youtube.com/watch?v=v5S2I52EgFM.

Mostra Experimentos no TUSP
Dentro dessa minha vontade de atuar entre o pensar e o fazer teatro, fiquei empolgadíssima quando recebi convite da diretora do TUSP, Maria Thaís, para participar de uma mesa redonda da mostra Experimentos.

O que é a mostra Experimentos?

É a tentativa de dar voz a experiências teatrais, realizadas nas escolas, que se articulam entre o fazer e o pensar. Os processos criativos reúnem alunos, professores dos cursos de formação e alunos-pesquisadores vinculados aos programas de pós-graduação.

Nesta edição, a mostra Experimentos conta ainda com a presença de dois grupos teatrais convidados - Os Argonautas apresentando seu work-in-progress Terra sem lei sob o olhar do diretor Francisco Medeiros (Chico Medeiros) e o Teatro da Vertigem, com o História De Amor (Últimos Capítulos), dirigido pelo consagrado diretor e professor do departamento de Artes da USP Antonio Araújo.

Segundo Maria Thaís, todos os envolvidos na mostra, mesmo que em diferentes momentos de sua formação e atuação profissional, são artistas que estudam, criam, indagam e procuram organizar um pensamento crítico. Refletem, analisam, pesquisam e fundamentam seus discursos nas práticas teatrais que realizam ou na observação e na análise do trabalho de outros artistas.

Na próxima terça, dia 26 de junho, às 19h, Marcelo Lazzaratto, Luiz Fernando Ramos, Luiz Alberto de Abreu e Renato Ferracini vão debater sobre A pesquisa artística e acadêmica: Provocadores da vida teatral?

Na quinta, dia 28, às 19h30 Anete Lomaski, Cibele Forjaz, Márcio Aurélio e essa colunista de vocês vão discutir Como os meios de produção dialogam e expressam o pensamento artístico?

Experimentos homenageia também dois convidados-especiais: a atriz Maria Alice Vergueiro e o professor doutor Jacó Guinsburg afinal, na busca por um diálogo com os que nos antecedem, precisamos valorizar o reconhecimento da nossa herança, daqueles que, como pioneiros que foram, são responsáveis pela formação de uma geração de teóricos, diretores, atores, cenógrafos e artistas das mais variadas áreas do fazer teatral que, cotidianamente, empurram as fronteiras do teatro - de dentro da universidade para fora e da sociedade para dentro da universidade, como bem diz a diretora Maria Thais.

A mostra Experimentos se prolonga até o dia 30 de julho e oferece a oportunidade, única, de descobrir os rumos dados ao teatro pela novíssima geração. Para maiores informações: TUSP - Teatro da USP - Rua Maria Antonia, 294 - Consolação. Tel.: 11 3255-7182 r.42.


Deolinda Vilhena é jornalista, produtora cultural, mestre em Artes pela ECA-USP, mestre e Doutora em Estudos Teatrais pela Sorbonne Nouvelle-Paris III

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