Terra Magazine

 

Segunda, 25 de junho de 2007, 14h01 Atualizada às 08h59

Mangabeira Unger e a política

Claudio Leal
De Salvador, especial para Terra Magazine

Relíquia da casa velha: sentado no chão, aos seis anos, Roberto observa o avô Octávio e o tio-avô e líder socialista João conversarem sobre o desânimo de Ruy Barbosa em não ver seu sonho de País realizado. Cinqüenta e quatro anos depois, o filósofo Roberto Mangabeira Unger assume o polêmico cargo de secretário de Planejamento de Longo Prazo, do governo que acusou ser "o mais corrupto" da nossa história. Ao aceitar o convite, é possível que deseje responder às melancolias de 1953.

Rascante e algo possesso, o sotaque do professor nasceu do segundo exílio político de seu avô, o ex-ministro e ex-governador da Bahia Octávio Mangabeira (1886-1960). Em 1938, perseguido pelo Estado Novo, o líder baiano partiu com a família para a Europa e, mais tarde, encontrou repouso em Nova Iorque, onde virou tradutor da revista Reader´s Digest. Lá, sua filha Edyla conheceu o advogado norte-americano Arthur Unger, pai de Roberto e Nancy.

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Vestígios dessa história podem ser encontrados no Arquivo Octávio Mangabeira, doado pela família, em 1987, à Fundação Pedro Calmon. Em meio a 17.400 documentos, há duas cartas em inglês de Roberto - era "Robert", na folha personalizada - e preciosa carta de Octávio ao neto. Dá até para desarmar a carranca do filósofo.

"Você as fez sozinho, ou foi ajudado?"

Em 13 de janeiro de 1957, Mangabeira dirigiu ao neto, em Nova Iorque, uma carta comovente. Depois de ter alta da Clínica de Repouso São Vicente, na Gávea, onde se recuperou de uma "trombose cerebral", expôs detalhes de seu declínio físico.

O avô escreveu para o neto numa folha de papel timbrada do Hotel Glória, sua "residência" carioca. "Tinha fraqueza nas pernas, irregularidade, embora ligeira, na fala, e, ao escrever, a mão escorregava, de quando em quando. Tudo passou, mas ainda sinto, quando escrevo, uma certa falta de firmeza". Octávio Mangabeira foi internado em dezembro de 1956.

O menino prodígio, que se tornaria professor de Harvard aos 22 anos, já surgia no suspeito julgamento do avô. "Gostei muito das suas palavras na escola, a propósito do Suez. Você as fez sozinho, ou foi ajudado? Porque estão de fato muito boas, excepcionalmente boas para alguém de sua idade".

No trecho mais tocante, explica sua angústia: "Esta é a primeira carta que escrevo depois da doença. A escrita, como você sabe, não está ainda normal. Imagine que eu soube de uma pessoa que teve cousa parecida com a que tive, e se esqueceu das letras, do alfabeto. Houve de aprender de novo. Que tal? Pobre cabeça humana...".

Abraço bem apertado

Em criança, Roberto passava as férias de verão em Salvador. Chegava, religiosamente, no dia 1° de julho, a tempo de participar do desfile da Independência da Bahia. Sempre se refere ao despojamento e devoção de Octávio. Deve preservar na memória o calor da despedida do avô: "Abraços para todos, e, para Nancy e você, um muito especial, daqueles bem apertados - lembra-se? - de vovô".

Aos dez anos, Roberto perdeu o pai, vítima de infarto. Na primeira carta encontrada no arquivo, há apenas votos de Natal. Na segunda, datilografada, de 27 de novembro de 1959, em NY, fala ao avô sobre sua vida escolar e a mudança da família para o Brasil. "A escola vai bem, e no trabalho escolar encontro um conforto grande. Nele posso me recolher ao meu pequeno mundo interior".

O velho obstáculo da língua

Na escolha da residência materna, acredita "que a Bahia é mais apropriada que o Rio", uma cidade agitada. "Podemos construir uma pequena casa num lugar agradável". Revelava insegurança quanto aos estudos no Brasil. Não tinha nenhuma idéia do curso colegial brasileiro. "Há sempre o velho obstáculo da língua", comentou. Ao retornar, estudou no tradicional Colégio Santo Inácio, em Botafogo.

Em novembro de 1960, seria a vez de despedir-se do avô, morto no Rio de Janeiro. Uma multidão acompanhou o cortejo fúnebre de Mangabeira pelas ruas de Salvador. O jornalista Sebastião Nery, à época repórter do jornal baiano A Tarde, presenciou o velório, no Palácio Rio Branco, e se lembra das palavras do garoto de paletó e gravata, cabisbaixo: "Ontem, papai. Hoje, vovô. Assim é a vida". "Ou seja, era filósofo desde os 13 anos!", brinca Nery.

No dia de sua posse, na Secretaria de Planejamento de Longo Prazo, em 19 de junho, Mangabeira Unger fez um discurso pomposo e rico em imagens: "O engrandecimento do Brasil soará em todos os recantos da Terra, como o grito de uma criança ao nascer, prometendo um novo começo para o mundo".

Quem notou, sorriu. Roberto abraçava a oratória do avô Octávio, que talvez encerrasse com um "viva o Brasil!".

 

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