
Daniel Bramatti
Escrever que alguém tem uma personalidade multifacetada é um daqueles clichês do qual todo jornalista deveria fugir, como dizer que o país X é "uma terra de contrastes" ou que o lugar Y virou "uma praça de guerra". Mas é quase impossível não recorrer ao chavão em se tratando de John Perry Barlow - fazendeiro, poeta, roqueiro e, principalmente, ativista pela liberdade na internet.
Criador de gado no Estado do Wiomyng - lugar nada identificado com a revolução tecnológica, espécie de Goiás dos EUA -, Barlow foi um dos primeiros a exaltar o potencial libertário da internet e ajudou a popularizar o termo "cyberspace", ao publicar, há onze anos, sua famosa "Declaração de Independência do Ciberespaço". Por conta desse manifesto, no qual afirma que os governos não têm e não devem ter soberania sobre a Internet, chegou a ser chamado de "Thomas Jefferson do mundo virtual".
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Coordenador da primeira campanha a deputado de Dick Cheney -o atual vice-presidente dos EUA, expoente do movimento neoconservador-, Barlow é hoje um militante do Partido Democrata e um crítico ácido da gestão Bush.
Estudioso de religião comparada, ele também se notabilizou como letrista de sucessos da dinossáurica banda Grateful Dead, e hoje colabora com grupos menos famosos, como The String Cheese Incident.
Não menos importante é seu papel na Electronic Frontier Foundation, ONG que fundou e que foi pioneira na luta contra as tentativas de governos e empresas de controlar o conteúdo na rede. É, obviamente, um entusiasta dos softwares livres. Apesar de não ser banqueiro, foi considerado uma das 25 pessoas mais influentes do setor de serviços financeiros pela revista "FutureBanker".
Convidado pelo ministro da Cultura, Gilberto Gil, Barlow está no Brasil para participar do Seminário Internacional sobre Diversidade Cultural, cujos debates se estendem até amanhã, em Brasília.
Em entrevista exclusiva a Terra Magazine, por e-mail, ele afirmou que a indústria do entretenimento ameaça a liberdade na internet, e que a imposição de patentes e de leis de copyright é uma nova forma de imperialismo. Afirmou ainda que trabalha com Gil para colocar "toda a música brasileira" à disposição dos internautas. Leia a seguir trechos da entrevista:
Terra Magazine - Na sua famosa Declaração de Independência do Ciberespaço, o
senhor afirma que governos não devem interferir na Internet. Desde que
o manifesto foi publicado, houve uma série de tentativas de censura e
regulação. Quem está vencendo essa batalha?
John Perry Barlow - Obviamente pessoas razoáveis podem discordar disso, mas não acho que tenha
acontecido nada desde 1996 que fundamentalmente questione minha convicção de
que o Ciberespaço é inerentemente anti-soberano. Se alguém está determinado
a colocar online algo que é considerado ofensivo por autoridades locais,
pode encontrar algum servidor em outro lugar que eles não podem tocar. E
filtragens são apenas modestamente efetivas.
E o papel das grandes corporações. Elas, ou algumas delas, são uma
ameaça à liberdade na web?
A indústria de entretenimento tem sido uma ameaça
significativa, mas eles estão claramente perdendo a guerra. O pior que eles
conseguiram fazer é implementar o sistema "Trusted Computing" nos novos
chips Intel e no Windows Vista, mas há maneiras de driblar isso.
No ensaio "A Economia das Idéias", o senhor afirma que o conceito de
propriedade no mundo físico não se aplica ao mundo digital. O que o senhor
pensa das tentativas de punir "piratas" que "roubam" arquivos de música ou
de filmes?
Piratas são pessoas malvadas que atacam embarcações no alto
mar, matam todos a bordo e roubam tudo o que tiver valor. Não são pessoas
que encorajam outros a ouvir as mesmas músicas de que eles gostam. Além
disso, não vejo como alguma coisa possa ser roubada se ainda a tenho.
Propriedade é algo que pode ser tirado de alguém.
Os esquemas de DRM (Digital Rights Management) estão fadados ao fracasso?
Sim.
Quais são as vitórias mais importantes da Electronic Frontier Foundation no
campo da propriedade intelectual?
É uma lista longa, mas o principal foi mudar a consciência do público sobre
a natureza da questão.
O senhor poderia descrever sua participação em encontros do Fórum Social
Mundial?
Acho que fui bastante eficiente ao demonstar que a imposição
agressiva de copyright e de patentes é apenas a mais recente forma de
imperialismo, uma tentativa do canto noroeste do planeta de regular o
pensamento humano.
O site da EFF informa que o senhor está trabalhando com o ministro Gil "em
um esforço para colocar toda a música do Brasil online". É mesmo toda a
música brasileira? E como ficam as restrições de copyright?
Quis mesmo dizer toda a música brasileira, inclusive a grande porcentagem
que é mantida como refém por empresas dos Estados Unidos. A música é o código
genético do Brasil. Ninguém deveria ter o direito de tomá-la dos
brasileiros.
Como o senhor vê a explosão dos chamados sites de mídia social?
Eu dizia já em 1995 que o mais importante da internet é a comunidade e a
conversação, não o conteúdo. Eu sabia que isso ia acontecer. Só quero que
eles fiquem melhores.
O que mais o surpreendeu na web recentemente?
A Wikipedia. Sou um otimista, mas o sucesso deste experimento me deixou maravilhado.
Terra Magazine
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pro-linux.de/Reprodução
O ativista John Perry Barlow, militante pela liberdade de expressão na internet
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