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Segunda, 2 de julho de 2007, 14h05

Dono da RCTV desconversa sobre Goebbels

Raphael Prado

Não há silêncio para as críticas de Marcel Granier, dono da RCTV, ao presidente venezuelano Hugo Chávez, que não renovou a concessão da emissora de televisão mais antiga do país. É pergunta, resposta, pergunta, resposta.

Granier silencia, no entanto, para tratar de outros temas até menos espinhosos: "O senhor é favorável à distribuição de renda?". Pensa, demora, titubeia diante da questão: "O povo, unido, jamais será vencido?".

Veja também:
» Leia a íntegra da entrevista com Marcel Granier
» Programa de TV no dia do golpe de 2002

A RCTV encerrou suas operações no último dia 27 de maio, depois de 53 anos no ar. Granier acredita que a decisão foi política e, segundo ele, o presidente Hugo Chávez não tem cumprido com suas obrigações. E a RCTV, como meio de comunicação, cumpria as dela?

- Nos últimos 10 anos, a RCTV triplicou sua oferta de empregos, incrementou sua produção nacional em mais de 100%. Tem uma escola de capacitação de pessoal mais importante da Venezuela - alega o ex-todo-poderoso da mídia venezuelana.

A emissora de Granier é uma das acusadas de ter manipulado informações e se negado a evitar que uma multidão de descontentes se aproximasse do Palácio de Miraflores, na capital Caracas, onde estava uma outra multidão, de chavistas. O confronto inevitável foi o estopim para o golpe militar. Era o dia 11 de abril de 2002.

O proprietário da RCTV nega veementemente que a emissora tenha apoiado o golpe que tiraria Chávez do poder por 47 horas. Mas beira a contradição quando argumenta que, caso esse tenha sido o motivo do fechamento de sua empresa, o tratamento deveria ser igual para todos os outros meios de comunicação - deixando escapar que havia, de fato, uma cobertura homogênea dos fatos:

- A Constituição diz que não se pode discriminar. A lei orgânica das telecomunicações diz que todos os concessionários têm que ser tratados igualmente. Se a intenção (de não renovar a concessão) tivesse algo a ver com a sucessão de abril de 2002, todos deveriam ser tratados de modo igual. (...) E não está ocorrendo assim.

Marcel Granier defende que o jornalismo praticado pela RCTV sempre foi imparcial e contou com a participação de todos os setores da sociedade. E desqualifica as imagens do programa "24 Horas", da Venevisión (veja aqui), em que um grupo comemora a destituição de Chávez do poder e congratula a mídia - RCTV incluída - pelo feito:

- Veja, em um programa de televisão, lamentavelmente, muita gente declara muitas coisas sem ter prova - é o que diz.

Apontado como um dos maiores expoentes da elite beneficiada pelo governo de poucos, de uma luxuosa sala no Grand Meliá Mofarrej de São Paulo - onde concedeu a entrevista a Terra Magazine -, Granier mostra também sua preocupação com o restante da população venezuelana: defende a distribuição de renda.

- (longo silêncio) Eu acredito que todo mundo deve... é favorável a que... (pensa um pouco mais)... com os recursos que tem o Estado venezuelano, sobretudo hoje em dia, com os preços do petróleo onde estão, sejam distribuídos de uma maneira eqüitativa, racional entre todos os venezuelanos.

Acusa, no entanto, e uma vez mais, Hugo Chávez de estar utilizando essa riqueza para "comprar armamentos" para a Venezuela. Diz ele que o presidente quer cada jovem do país portando um fuzil.

Logo depois lembra que Hitler chegou a ser eleito pelo voto popular, para justificar que às vezes o povo pode se enganar e "ser vencido pelos regimes totalitários". Quando é lembrado do ministro da Propaganda nazista, Joseph Goebbels - que manipulava discursos, imagens e dizia que "uma mentira repetida várias vezes se torna verdade" - Granier muda de país rapidamente, como se o exemplo da Alemanha não tivesse sido bom:

- ...aconteceu também na Rússia... ainda que Stálin não tenha chegado ao poder por eleições.

Hoje, a RCTV tenta recuperar o sinal de televisão em canal aberto. Transmite programas pela internet, usando principalmente o YouTube, e em outras cadeias de televisão. Com freqüência, a emissora ainda faz programas em locais públicos, "para que o povo continue mantendo contato com os artistas da rede", segundo Granier.

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Raphael Prado/Terra Magazine/Reuters
Versus - O dono da RCTV, Marcel Granier, e Hugo Chávez, o presidente venezuelano que não renovou a concessão da emissora de televisão

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