
Raphael Prado
Não há silêncio para as críticas de Marcel Granier, dono da RCTV, ao presidente venezuelano Hugo Chávez, que não renovou a concessão da emissora de televisão mais antiga do país. É pergunta, resposta, pergunta, resposta.Granier silencia, no entanto, para tratar de outros temas até menos espinhosos: "O senhor é favorável à distribuição de renda?". Pensa, demora, titubeia diante da questão: "O povo, unido, jamais será vencido?".
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A RCTV encerrou suas operações no último dia 27 de maio, depois de 53 anos no ar. Granier acredita que a decisão foi política e, segundo ele, o presidente Hugo Chávez não tem cumprido com suas obrigações. E a RCTV, como meio de comunicação, cumpria as dela?
- Nos últimos 10 anos, a RCTV triplicou sua oferta de empregos, incrementou sua produção nacional em mais de 100%. Tem uma escola de capacitação de pessoal mais importante da Venezuela - alega o ex-todo-poderoso da mídia venezuelana.
A emissora de Granier é uma das acusadas de ter manipulado informações e se negado a evitar que uma multidão de descontentes se aproximasse do Palácio de Miraflores, na capital Caracas, onde estava uma outra multidão, de chavistas. O confronto inevitável foi o estopim para o golpe militar. Era o dia 11 de abril de 2002.
O proprietário da RCTV nega veementemente que a emissora tenha apoiado o golpe que tiraria Chávez do poder por 47 horas. Mas beira a contradição quando argumenta que, caso esse tenha sido o motivo do fechamento de sua empresa, o tratamento deveria ser igual para todos os outros meios de comunicação - deixando escapar que havia, de fato, uma cobertura homogênea dos fatos:
- A Constituição diz que não se pode discriminar. A lei orgânica das telecomunicações diz que todos os concessionários têm que ser tratados igualmente. Se a intenção (de não renovar a concessão) tivesse algo a ver com a sucessão de abril de 2002, todos deveriam ser tratados de modo igual. (...) E não está ocorrendo assim.
Marcel Granier defende que o jornalismo praticado pela RCTV sempre foi imparcial e contou com a participação de todos os setores da sociedade. E desqualifica as imagens do programa "24 Horas", da Venevisión (veja aqui), em que um grupo comemora a destituição de Chávez do poder e congratula a mídia - RCTV incluída - pelo feito:
- Veja, em um programa de televisão, lamentavelmente, muita gente declara muitas coisas sem ter prova - é o que diz.
Apontado como um dos maiores expoentes da elite beneficiada pelo governo de poucos, de uma luxuosa sala no Grand Meliá Mofarrej de São Paulo - onde concedeu a entrevista a Terra Magazine -, Granier mostra também sua preocupação com o restante da população venezuelana: defende a distribuição de renda.
- (longo silêncio) Eu acredito que todo mundo deve... é favorável a que... (pensa um pouco mais)... com os recursos que tem o Estado venezuelano, sobretudo hoje em dia, com os preços do petróleo onde estão, sejam distribuídos de uma maneira eqüitativa, racional entre todos os venezuelanos.
Acusa, no entanto, e uma vez mais, Hugo Chávez de estar utilizando essa riqueza para "comprar armamentos" para a Venezuela. Diz ele que o presidente quer cada jovem do país portando um fuzil.
Logo depois lembra que Hitler chegou a ser eleito pelo voto popular, para justificar que às vezes o povo pode se enganar e "ser vencido pelos regimes totalitários". Quando é lembrado do ministro da Propaganda nazista, Joseph Goebbels - que manipulava discursos, imagens e dizia que "uma mentira repetida várias vezes se torna verdade" - Granier muda de país rapidamente, como se o exemplo da Alemanha não tivesse sido bom:
- ...aconteceu também na Rússia... ainda que Stálin não tenha chegado ao poder por eleições.
Hoje, a RCTV tenta recuperar o sinal de televisão em canal aberto. Transmite programas pela internet, usando principalmente o YouTube, e em outras cadeias de televisão. Com freqüência, a emissora ainda faz programas em locais públicos, "para que o povo continue mantendo contato com os artistas da rede", segundo Granier.
Terra Magazine
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Raphael Prado/Terra Magazine/Reuters
Versus - O dono da RCTV, Marcel Granier, e Hugo Chávez, o presidente venezuelano que não renovou a concessão da emissora de televisão
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