Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Paquito

Quarta, 4 de julho de 2007, 08h01

Reflexões sobre o mercado da música no Brasil

Paquito

Nos anos 80, na área da música dita popular, a década de 70 era definida como a era do exagero e de uma arte preguiçosa, rococó, uma diluição do que teria acontecido nos anos 60, os anos da explosão do rock, da Tropicália, e da nova MPB (seja lá o que isso queira dizer...). Nos então anos 80, passaria a haver uma contenção, um culto a um gosto mais apurado, seríamos, enfim, mais cool. Não mais aqueles solos intermináveis de guitarras das bandas progressivas ou de jazz-fusion, não mais a estética hippie desleixada. E foi o que se viu: os 80 tiveram a sua dose, e que dose(!), de exagero até no sentido da contenção, e valorizava-se a pose. Talvez tenha sido o movimento natural das coisas: uma estética, pra se afirmar, tentava destruir a outra, passada.

O fato é que, hoje, quando a gente se detém na produção musical dos anos 70, a conclusão a que se chega é bem outra: durante esse período, foram lançados os primeiros e melhores discos de Luís Melodia, Raul Seixas, Secos e Molhados, Arnaldo Batista e Novos Baianos, só pra citar alguns. A turma dos 60, Chico Buarque, Caetano, Gil, Gal, Bethânia, e os bossa-novistas como João Gilberto, realizaram trabalhos também muito bons. O que talvez fosse considerado exagero nos 80, seria agora explosão criativa. E, no tocante à profissionalização, estes artistas conseguiram também manter uma carreira, ancorados numa rede que incluía gravadoras, produtores de shows e afins, além, é claro, do público, o que foi vital para o desenvolvimento de sua música. Na década de 80, a profissionalização também caminhou a passos largos, e nunca se vendeu tanto disco no Brasil, tanto que os independentes tinham seus trabalhos lançados com atraso porque ficavam na fila dos fabricantes de disco, atrás das multinacionais, as chamadas majors.

Hoje, devido à cantada e decantada era digital ou cyber, as próprias majors já não seguram a peteca de manter uma estrutura de contratação de artistas, e, conseqüentemente, amparo à manutenção de suas carreiras. Alguns consagrados, inclusive, desejando mais liberdade, migraram para gravadoras menores e com uma estética mais definida, não voltada apenas para a necessidade de vender discos, como é o caso da ida de Maria Bethânia e Chico Buarque para a Biscoito Fino. Por outro lado, há um mercado independente tentando ser criado para atender à oferta de artistas novos, sequiosos de mostrar seus trabalhos. Um mercado, que lança discos pela internet, promove festivais e tenta ser uma alternativa a um outro modo de produção agozinante. No entanto, os agonizantes ainda têm poder, e seus cantos de cisne parecem durar mais que o previsto. E os novos, que num período como os anos 70, apareciam em programas como o Fantástico, da Globo, penam para ter acesso a uma divulgação maior.

No caso da turma da nova música pop-rock brasileira, por exemplo, há muita gente já na casa dos 30 que não consegue manter uma carreira, e tem de se dedicar a trabalhos outros pra continuar mostrando sua música. Praticamente, paga-se pra tocar. Em festivais de música independente, como o Abril pro Rock, de Recife, e o Goiânia Noise, os artistas contam com boa estrutura pra se apresentar, mas os produtores desses festivais não têm condições de pagar cachês decentes aos iniciantes já não tão iniciantes assim. Dá-se, então, a chamada ajuda de custo para hospedagem e alimentação, o que é pouco pra se manter. E essas bandas independentes fazem shows com certa freqüência, mas o preço dos ingressos sempre é baixo demais, pelo menos aqui na Bahia, onde vivo e de onde escrevo.

Como bem definiu Ronei, de Ronei Jorge & os Ladrões de Bicicleta, banda de que já falei aqui em Terra Magazine, é "uma carreira pulverizada". Todos os componentes dos "Ladrões" estão na casa dos 30, são respeitados pela crítica especializada do país, se apresentam em festivais fora do estado, mas têm de ter profissões paralelas pra continuar tocando. Seria a volta aos anos 30, quando não havia profissionalização da carreira de músico, e o Bando dos Tangarás, que era integrado por gente como Almirante e Braguinha, achava que receber cachê era um abuso, um luxo? Como esses artistas vão ter longevidade pra continuar desenvolvendo seus trabalhos? E como vão poder ampliar um público ainda pequeno, que, por sua vez, vai envelhecer e perder o desejo de procurar pela novidade? O material novo circula ainda a muito custo, e de maneira incipiente. Um modo de produção fenece, mas as novas formas ainda são insuficientes pra abarcar uma oferta cada vez maior de profissionais da música. Perguntas, perguntas, perguntas e a sensação de que algo rui no nascedouro...


Paquito é músico e produtor.

Fale com Paquito: anjo.paquito@terra.com.br

Terra Magazine


Exibir mapa ampliado

Tags

O que Paquito vê na Web

Favoritos

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela